terça-feira, 4 de janeiro de 2022
A PSICODELIA DE SER (primeiro capítulo)
terça-feira, 19 de outubro de 2021
EM DEFESA DO AGORA
Numa chuva torrencial, surgiram goteiras por todos os cômodos. Um fio do poste se soltou na esquina. Qualquer um que passasse ali viraria o omelete que eu esqueci no fogo outro dia.
Então a luz acabou e a única coisa que me restou foi ficar sentado no chão ao lado de uma vela e viver o momento.
Essas palavras estão saindo do meu corpo. E eu quero que você preste atenção nisso: eu como a vida pra cagar poemas. Tudo o que faço (e irei fazer) é merda. Muita merda pra mim e pra você. E eu realmente gostaria que você sentisse o que tô sentindo agora. Essa energia fluindo pelo meu corpo e a alegria de perceber que o que existe tá aqui do lado de fora das nossas mentes. Não existe "eu". Existe um amontoado de átomos que formam o corpo que interage com outros átomos até o universo deixar de existir. E o fato da luz ter acabado, de eu ter ficado sem internet, daquela pessoa ter saído da sua vida, daquele pastel que te fodeu o estômago, daquele fora tomado, daquele boleto não pago...Nada disso conta no final. É sério, eu não consigo explicar com palavras. E se você quiser realmente apreciar o que está prestes a aparecer em frente aos seus olhos, você vai ter que deixar sua mente de lado e ser dominado pelo agora. Pronto?
Vai com calma na tarde.
A hora mágica reflete azul e violeta
sobre nossas peles e
tá tudo bem.
Nós ainda respiramos e
respiramos profundamente até
sentir o pelo do braço levantar.
Há certas coisas não ditas que
talvez nunca o sejam porque
foram feitas pra serem sentidas.
E não há possibilidades;
o poema é quem o lê.
Eu não posso fazer muito mais
do que estou fazendo agora.
Tá dentro de você e
isso precisa sair daí.
Precisa EXISTIR, e
não ser mais um vão pensamento
se perdendo num mar
de preocupações inúteis.
Nós ainda respiramos e
cada gota no ar
preenche meu corpo
como se o alimentasse e
desse um empurrãozinho
pra eu ser o melhor que posso ser
como filho da vida.
E eu não posso fazer muito mais
do que me unir a essa vibe
que faz você descer até o chão
com a bunda pro alto enquanto
eu faço a dança do robô.
A tarde sempre acaba
magnífica.
O violeta vira preto,
do jeito que tem que ser.
E tá tudo bem. Mesmo.
Basta fluir com
essa sensação,
essa exata sensação
de ser infinito enquanto dura.
Um brinde ao amor
de todo dia
que passa despercebido
quando não reparamos
que não somos melhores
do que uma simples gota
no vidro da janela.
segunda-feira, 18 de outubro de 2021
O QUE FAZER EM DIAS DE CHUVA?
Segunda-feira. Céu cinza, chão molhado. Não dá nem vontade de levantar da cama. Mas, se levanto, já procuro um meio de me livrar do tédio. Uma pena o tédio ser essa criatura de presas afiadíssimas, picando minha panturrilha sem querer largar o osso. Um bicho tão teimoso quanto quem vos fala.
Então a chuva continua. Aperta na hora do almoço (o que aconteceu antes?). Já não sei se espatifei a cara no fundo do poço, nem se há alguma forma de sair dele. Só sei que nele estou e a chuva veio me acompanhar.
Poderia aproveitar e limpar algumas coisas. Organizar o guarda-roupa, a gaveta de meias, os livros na estante. Dá até para mudar os móveis de lugar num almejo desesperado por mudanças. Talvez eu seja um imóvel.
Outra dica valiosa é olhar-se no espelho, no fundo das pupilas, e buscar o abismo que tanto encaramos. Escrever algumas palavras bonitas que não preenchem o estômago (amaria comer meus poemas).
Assim, espero ter ajudado a sobreviver aos terríveis ataques da mente quando se está preso na própria casa em dias de chuva.
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
A LIBERTADORA DERROTA
sexta-feira, 18 de junho de 2021
O VEÍCULO
Estou com este hábito de caminhar por ruas que não conheço. Saio de casa, escolho uma direção e vou me enfiando por aí, descobrindo lojas, praças e cantinhos onde o sol parece mais gostoso. Tenho feito isso por desespero.
Nosso corpo quebra. Não sabemos quando, nem como. Mas uma hora as costas doem e o que se fazia antes numa brincadeira agora é impossível na necessidade. Tenho lamentado no banco do motorista por muito tempo. Fiz 29 anos rodados, ainda consigo subir ladeiras de primeira. Único dono. Mesmo assim, encosto a testa no volante e questiono a estrada. Por que nos botaram aqui, assim, desse jeito?
Tenho caminhado sem sentir que caminhei. Mesmo com os pés na rua, parece que ainda estou no meu quarto. E hoje uma moto quase me atropelou. Passou fininha do meu lado. Se eu tivesse virado o rosto, o motoqueiro teria acertado meu nariz com sua testa. Na hora meu coração disparou. Mas, ao invés de amaldiçoar a situação, sorri. Aquilo era real. Meu peito estourando, minhas pupilas dilatadas, a garganta seca; estava vivo, fora de casa, fora da minha cabeça por pelo menos alguns segundos. Todos os atos desesperados são tentativas de fuga da própria mente. Eu era o próprio Andy num Sonho de Liberdade.
Não importa o quão longe você vá; pra onde você for, lá você estará. Carregando a mesma bagagem, o peso nas costas. Não dá pra distanciar-se de si.
Também não importa o que você faz pra se distrair. Quando se é vazio, todos os consumos são desperdiçados no buraco. Pode beber e se entupir à vontade. Pode gastar dinheiro, transar, fumar, ler, assistir, cheirar... No final, é você consigo mesmo. A culpa não é do mundo.
De repente estou na minha cama novamente, pensando e pensando e pensando. A única prova de que caminhei são anotações que fiz no meu bloco de notas preto quando sentei numa pracinha. Isso e a minha lombar dolorida. Assisto o resto do dia morrer pela minha janela. Um lindo dia de poucas nuvens.
Desligo os faróis. Retiro a chave do contato. Inspiro profundamente. Expiro consciente uma última vez.
Amanhã será diferente.
sexta-feira, 30 de abril de 2021
O TRABALHO
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
DESEJOS QUARENTENADOS
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
NÃO QUERO SER MELHOR
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
EU ME CANCELO
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
NÃO LEMBRE DAS COISAS BOAS
Não lembre das coisas boas antes da pandemia. Lembre do que era ruim.
Antes era uma merda ir pro trabalho. Agora você vai sufocado numa máscara, correndo risco de vida. Bem, todo mundo morre um dia, não é mesmo?
Lembre dos rolês desmarcados. Agora pense no que você faria pra juntar duas pessoas queridas no mesmo lugar.
Antes era uma merda sair de casa. Agora é uma merda sair de casa.
Não lembre das coisas boas. Lembre de tudo que era ruim e que agora você daria sua alma ao diabo pra ter de volta.
Aproveite a perda.
Deixe marcar no sangue.
E o mais importante: não se esqueça disto quando tudo passar.
domingo, 27 de dezembro de 2020
AS ÚLTIMAS LINHAS DE 2020
terça-feira, 3 de novembro de 2020
A DIFICULDADE EM LIDAR COM PESSOAS
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
SORTE À PROVA
domingo, 30 de agosto de 2020
UMA BOA QUINTA-FEIRA PARA SE ESTAR VIVO
Eu sou um dos maiores otimistas que conheço. Pode não parecer pelo jeito que me comunico através dos meus textos. Todos têm aquele gostinho de ódio, desilusão e abuso de álcool como sedativo. Não te culpo se você me acha um jovem ranzinza que não transa há tempos, pois há um pouco de verdade nessa opinião. É que esse meu lado reclamão é só superfície. Carapaça pra proteger o frágil inseto sonhador que reside no centro da minha mente. E por esperar o melhor de tudo, este mesmo inseto se decepciona uma vez após a outra. Eis que a carapaça surge; para não mostrar ao mundo que ainda tenho esperança. E muita esperança mesmo.
Estava andando pelo meu bairro e encontrei uma pequena praça secreta com banquetas e mesas de mármore. Escrito num pedaço de concreto no chão, estava os dizeres "Exclusivo dominó". Minha vila não chega a ser um exemplo de manutenção do patrimônio público, mas este pequeno lugar, limpo e conservado, construído com carinho pelo povo e para o povo... Bem, são nestas situações que meu otimismo almoça, janta e faz um lanchinho da madrugada. E mesmo que se destrua, que se vandalize; o importante é que construíram e que eu pude utilizar o espaço para beber uma latinha e escrever este desabafo.
Ao meu redor caem as folhas, silenciadas pelo som dos automóveis na avenida. Uma boa quinta-feira para se estar vivo. Uma pausa nas tragédias e desgostos e medos. O sol refletido no alumínio das janelas dos conjuntos habitacionais. E a paz que parece infinita ao mesmo tempo que preciosa e instantânea. Um sinal ao otimista de que realmente tudo ficará bem. Talvez já esteja. Pelo menos hoje, pelo menos agora. Sim, meu amigo, eu repito; é uma boa quinta-feira para se estar vivo. Uma boa quinta-feira.
terça-feira, 19 de maio de 2020
MEU PRESENTE
"A luz da escrita
existe.
O andarilho de palavras
distribui frases
do espirito
Toca a alma de quem
está solto.
Siga teu
caminho, andarilho.
Leve luz onde há
trevas e medo."
Ontem completei 28 anos nesta Terra (obrigado pelas mensagens de parabéns). Obviamente, como todo animal ansioso, pensei sobre passados vergonhosos, futuros incompletos e presentes ausentes. Tudo o que faço parece carregar um pouco do que sou. Em tempos estranhos, o mundo parece ficar mais pesado sobre meus pés. Mas sempre foi assim, eu sempre dei peso ao mundo. E diante dele, muitas vezes senti que eu era insuficiente.
Há um certo Olhar que não consigo descrever. Um Olhar secreto, de beira de esquina, julgando minhas decisões. Eu o sinto em todo mundo. O Olhar que vê o vagabundo, o garoto mimado de gostos duvidosos, afogando-se nos próprios pensamentos fantasiosos e egoístas. Estão me olhando. Ah sim, estão me olhando porque a vida é um palco e eu sou um péssimo ator. Só que ninguém acaba jogando os tomates porque a peça inclui a todos. E eu não sou o personagem principal. Ninguém é. O Olhar então fica emaranhado nas vozes da minha cabeça como um fone de ouvido no bolso da sua calça jeans.
Quando a Isabela me devolveu o poema, eu li o que estava no verso e agradeci. Como o álcool já fazia suas caminhadas no meu cérebro, não dei a devida atenção àquele momento. Isabela saiu da minha vida para nunca mais (pelo que lembro). Colei este poema no espelho do meu quarto. Uma bela forma de cegar o Olhar, o drama recorrente que fico elaborando para justificar maus comportamentos. Porque veja só: eu nunca gostei de jogar pelas regras existentes. Eu sempre amei criar novas regras, novos jogos, outras brincadeiras. Parece que minha cabeça funciona em outra dimensão (eu era uma criança bem esquisita). Porra, observe o que faço, o que escrevo, o jeito que arrumo meu quarto e as crises que tenho algumas vezes por ano. Não tem como eu jogar "Condicionamento Social" sem sair como perdedor, porque eu não entendo as regras, não gosto das regras, fodam-se as regras, vamos jogar "VIDA NUM UNIVERSO INDIFERENTE À NÓS", que é muito mais amplo, mais divertido e mais libertador. Ou então "AMOR E RESPEITO: É BEM SIMPLES". Caramba, até aquele jogo, o "CONVERSAS SEM SENTIDO MAS QUE TE FAZEM GARGALHAR COMO UM NENÉM DE 6 MESES" é mais legal do que "Condicionamento Social". Pois minhas piores crises são frutos destas regras que ainda não consigo entender fundamentalmente. Talvez porque eu as interprete errado, talvez porque eu seja uma bola e este é um jogo de damas.
Sim, eu penso sobre a sociedade mesmo em isolamento. Me preocupo com a volta. O que vai ser dos meus passos na Rua Augusta quando tudo voltar ao normal? Pois de normal não havia nada ali, nem em canto algum da cidade. Voltar para aquilo, para o jogo idiota, me causa calafrios.
A questão é que sinto uma luz imensa dentro de mim, como no poema da Isabela. Essa luz existe em todas as pessoas (dá pra ver em seus olhos). Só que eu tenho medo de deixá-la sair porque lâmpadas neste mundo são vandalizadas, são descartáveis, são quebradas na cabeça de homossexuais. Então eu me apago. Não quero ser o "bobo demais", "feliz demais", "otário", "trouxa", "demente", "louco" e por aí vai. Certos rótulos ainda matam. Física e psicologicamente. E eu não quero morrer antes de quem amo e deixá-los com um vazio ou uma casca apática. Sinto muito. Se minha luz é um pássaro, como o Espírito Santo, então o que há fora de mim é ateu. Tranco minha gaiola, faço cara feia e levo tudo à sério, como uma máscara para me proteger do vírus do mundo.
Se este medo tem alguma verdade em si ou não, eu sei lá. Talvez você já tenha sentido alguma coisa parecida com o que descrevi aqui. Descobrir este sentimento e compreendê-lo foi o melhor presente que recebi este ano. Eu ainda não sei o que fazer com esta realização, mas já é um começo para viver uma vida que realmente vale a pena, com autenticidade e vitalidade. Isso me trouxe um sentimento de paz, de liberdade e euforia. Estou louco para começar a fazer as coisas funcionarem.
Para todas as Isabelas deste mundo, para todos aqueles que compartilham suas luzes onde há trevas e medo, eu agradeço imensamente.
sexta-feira, 27 de março de 2020
DUZENTOS
Sou um esquisitão negativo, mas só em palavras e doenças. Tô escrevendo isso num pico de alegria. Tô feliz com o resultado: duzentos textos em 5 anos, sem contar os que não publiquei ou os que não estão no blog.
Jamais me imaginei escritor, mas até que essa porra tá combinando comigo. Parabéns para mim. Se eu fizer uma coletânea gratuita, trate de ler pelo menos uma página.
Obrigado por estar aí.
Agora devolve meu álcool,
devolve meu álcool,
devolve.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
É NATURAL
Às vezes sai. Como diarreia. No meio da rua, manchando roupa íntima, calça, calçada e algum infeliz que passou na hora.
O importante é lembrar pra quê. Se esquecer do pra quê, jogue tudo no lixo. Se ele ainda persiste, dá pra contar até a história da pomba manca.
Aliás, a pomba manca pousou despreparada na minha frente. Não tinha uma pata, mas uma linha que guardava como troféu. Caminhou até a poça de água suja formada na cratera da rua. Banhou-se, embebedou-se e gargarejou. Caiu fora.
Às vezes sai, e às vezes não. É natural.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
SOBRE ESCREVER ESTANDO BEM
Se você busca uma fórmula mágica pra escrever, então aqui está uma: sofra. O máximo que você puder. Depois ultrapasse isso. Geralmente não é muito difícil. Os sentimentos sairão verdadeiros, rasgando sua cabeça como estiletes enferrujados.
Só preciso te avisar que tudo passa. Uma hora não haverá motivos para escrever. Quando você não precisar dos poemas, você descobrirá se é esse o seu caminho. Pois se você consegue digitar um verso ostentando um sorriso, e mesmo assim esse verso presta pra alguma coisa, então pode seguir em frente sem pestanejar. É que tem muito viciado por aí. Viciado em costumes, em modas, no passageiro. Falam e escrevem como os mortos respiram. E há pouca vida na nossa cena, no nosso filme de rua.
Não seja só mais um. Tenha as suas crises. Supere-as e sinta orgulho disso. Ou sinta o que for; não importa enquanto você se expressar.
terça-feira, 20 de junho de 2017
ARROGÂNCIA
Eu era uma delas, e então enjoei. Foi numa noite em que eu não queria mais tocar em ninguém. Simplesmente acontece: você não quer mais a respiração delas e as suas palavras martelando seus ouvidos cansados. Você busca a solidão e faz amor com ela sete dias por semana. Todo mundo é tolo demais, raso demais, chato demais. E é então que você sente algo parecido com ódio. E este ódio vira tristeza. Desesperança. Não há ninguém pra conversar; é tudo besteira, vai passar. Enquanto não passa, que tal um jogo de desafios?
segunda-feira, 13 de março de 2017
SOLIDÃO
Não, eu não vou dizer que me sinto só. Não é sobre isso. Na realidade eu tenho ótimas pessoas ao meu redor. Ótimos pais, ótimos amigos e ótimos desconhecidos. É que eu acho que entendi: vou morrer sozinho. E querendo ou não, sempre estou comigo mesmo. Distribuo meus textos sozinho. Durmo sozinho. Penso sozinho. E eu gosto, mesmo que as pessoas me digam: "nossa, você precisa sair mais" ou "você precisa responder os outros". É uma questão de autonomia, sabe? Porque é só quando eu tô sozinho que eu sou eu mesmo. Não preciso sorrir do que não é engraçado, concordar com o que discordo, brigar, argumentar, botar uma máscara. Não preciso dizer que gosto do Drummond (na realidade eu nem gosto de ler, olha só que ironia). Eu preciso de aceitação pra sobreviver, pra não afugentar as pessoas desse meu "eu" que, na maioria das vezes, não se importa se seu dia foi bom ou não. Sim, eu tô me fodendo pro seu final de semana, ou com o que você trabalha, ou com o seu nome. É isso o que sou sozinho. E essa parte pensa em suicídio toda vez que é forçada a se esconder. Então eu a agrado, passando horas e horas no meu quarto. Uma questão delicada. Eu nem iria escrever isso daqui se não fosse por ela, mas uma hora tudo o que você engole tem que sair por algum lugar. Ser sozinho é sobre não querer mentir para os outros.
A bateria do meu celular está acabando. Vou ter que desligar. Até mais. Beijo.
