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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A PSICODELIA DE SER (primeiro capítulo)

Eu só não quero morrer. Mas há um mal-estar me acompanhando, um mal-estar com cores amarelas, pétalas murchas, acordes desalinhados. Uma chuva que não cai direito, faz curva e não molha o chão como deveria.
  
Deitar não funciona. Já funcionou um dia, mas não agora. 
Eu só não quero morrer.
 
Meu violão me diz que pode ser meu amigo às terças. Segunda é dia de faxina. Tem de limpar as cordas, a sujeira incrustada entre uma casa e a outra. A Primeira e a Sétima são as piores, ele diz. Violão grandão. Nas quartas é meu voyeur. Vê o podre calejado, vomitado de meus poros. O resto da semana não existe.

Eu só não quero morrer.  

Tempo é uma questão de opinião. Não sei o que pensa a Terra do tempo do Sol, nem do tempo de si mesma. Não sei se a Terra se acha velha ou criança. Também desconheço o que pensam as estrelas sobre os buracos negros. Farão uma festa na bilionésima semana à partir de hoje; uma orgia, uma galáxia engolindo a outra, como o outono engole o verão e é engolido pelo inverno.

Todos os sexos que não fiz são a causa do problema. Devem ser a causa do problema. Pelo menos é a minha opinião, e opinião é questão de tempo. Os sexos que fiz também se uniram ao partido desprogressista. Passos para trás que dou todo domingo começo de mês. Domingos são os piores, eu poderia dissertar sobre seus malefícios até o dia da orgia intergaláctica caso meu corpo durasse tanta opinião. 

Eu só quero o que quero, o oposto do que não quero. Se não quero morrer, então eu quero viver? Mas estou vivendo meio que não querendo. E a culpa não é da vida. Já disse: sexo é a raiz da minha árvore parasita. Sou sugado por mim mesmo. 

A única coisa que não me suga é a cerveja. Cerveja e gastar as solas do meu All-Star nas calçadas paulistas desta floresta de pedras pixadas. Gosto dos pixos, são como tatuagens nos prédios, feitas por tatuadores de várzea corajosos o suficiente pra expressar seus demônios. 

Meus demônios só saem às sextas-feiras, depois do serviço. Trabalham no RH das emoções. Despedem as boas e contratam as péssimas. O partido desprogressista tem seus contatos. Para se divertirem, levam minha carteira e minhas chaves e a sola do meu All-Star até a adega mais próxima. O maço de cigarro se acha o bonzão. Se soubesse que já fumei de graça não cobraria um preço tão alto por suas toxinas. Meus demônios flertam com o mentolado e aquele que possui três vezes mais monóxido de carbono. 

Eu só não quero morrer.
Escolho o mentolado.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

EM DEFESA DO AGORA

Numa chuva torrencial, surgiram goteiras por todos os cômodos. Um fio do poste se soltou na esquina. Qualquer um que passasse ali viraria o omelete que eu esqueci no fogo outro dia.

Então a luz acabou e a única coisa que me restou foi ficar sentado no chão ao lado de uma vela e viver o momento.

Essas palavras estão saindo do meu corpo. E eu quero que você preste atenção nisso: eu como a vida pra cagar poemas. Tudo o que faço (e irei fazer) é merda. Muita merda pra mim e pra você. E eu realmente gostaria que você sentisse o que tô sentindo agora. Essa energia fluindo pelo meu corpo e a alegria de perceber que o que existe tá aqui do lado de fora das nossas mentes. Não existe "eu". Existe um amontoado de átomos que formam o corpo que interage com outros átomos até o universo deixar de existir. E o fato da luz ter acabado, de eu ter ficado sem internet, daquela pessoa ter saído da sua vida, daquele pastel que te fodeu o estômago, daquele fora tomado, daquele boleto não pago...Nada disso conta no final. É sério, eu não consigo explicar com palavras. E se você quiser realmente apreciar o que está prestes a aparecer em frente aos seus olhos, você vai ter que deixar sua mente de lado e ser dominado pelo agora. Pronto?

Vai com calma na tarde.
A hora mágica reflete azul e violeta
sobre nossas peles e
tá tudo bem.
Nós ainda respiramos e
respiramos profundamente até
sentir o pelo do braço levantar.
Há certas coisas não ditas que
talvez nunca o sejam porque
foram feitas pra serem sentidas.
E não há possibilidades;
o poema é quem o lê.
Eu não posso fazer muito mais
do que estou fazendo agora.
Tá dentro de você e
isso precisa sair daí.
Precisa EXISTIR, e
não ser mais um vão pensamento
se perdendo num mar
de preocupações inúteis.
Nós ainda respiramos e
cada gota no ar
preenche meu corpo
como se o alimentasse e
desse um empurrãozinho
pra eu ser o melhor que posso ser
como filho da vida.
E eu não posso fazer muito mais
do que me unir a essa vibe
que faz você descer até o chão
com a bunda pro alto enquanto
eu faço a dança do robô.
A tarde sempre acaba
magnífica.
O violeta vira preto,
do jeito que tem que ser.
E tá tudo bem. Mesmo.
Basta fluir com
essa sensação,
essa exata sensação
de ser infinito enquanto dura.
Um brinde ao amor
de todo dia
que passa despercebido
quando não reparamos
que não somos melhores
do que uma simples gota
no vidro da janela.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O QUE FAZER EM DIAS DE CHUVA?

Segunda-feira. Céu cinza, chão molhado. Não dá nem vontade de levantar da cama. Mas, se levanto, já procuro um meio de me livrar do tédio. Uma pena o tédio ser essa criatura de presas afiadíssimas, picando minha panturrilha sem querer largar o osso. Um bicho tão teimoso quanto quem vos fala.

Então a chuva continua. Aperta na hora do almoço (o que aconteceu antes?).  Já não sei se espatifei a cara no fundo do poço, nem se há alguma forma de sair dele. Só sei que nele estou e a chuva veio me acompanhar.

Poderia aproveitar e limpar algumas coisas. Organizar o guarda-roupa, a gaveta de meias, os livros na estante. Dá até para mudar os móveis de lugar num almejo desesperado por mudanças. Talvez eu seja um imóvel.

Outra dica valiosa é olhar-se no espelho, no fundo das pupilas, e buscar o abismo que tanto encaramos.  Escrever algumas palavras bonitas que não preenchem o estômago (amaria comer meus poemas).

Assim, espero ter ajudado a sobreviver aos terríveis ataques da mente quando se está preso na própria casa em dias de chuva.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A LIBERTADORA DERROTA

Adoro sentir-me ridículo. Quando coloco uma roupa que não combina ou quando corto o próprio cabelo caindo de bêbado. É uma sensação de derrota, e é a sensação mais libertadora de todas. Pronto, o jogo acabou, eu perdi e não preciso mais jogar. Posso ir embora, posso ficar. Posso fazer o que quiser. Dane-se. 

Sabe quando você leva um fora? Ou quando você termina um relacionamento, ou leva uma suspensão do trabalho? Sim, sim, parece um clique, o mundo fica diferente, as cores mais vibrantes, os passos mais leves. Sorrir torna-se uma genuína expressão de alegria, e não um hábito vazio, uma proteção contra o caos do cotidiano. 

Bem, tudo isso acontece depois do choque inicial. De primeira, dói. E pode doer muito. Pode até matar. Mas se você sobrevive, vem o Nirvana, um curto e ínfimo período de "Foda-se". Você já perdeu. Não precisa se esforçar mais, mentir pra si mesmo ou pros outros. Quem tá na lama tem a chance de se refrescar, assim como os porcos. E não venha me falar mal dos porcos; são seres super inteligentes e, com um limãozinho, super saborosos. 

Acredito que não fomos feitos para ganhar. Estamos aqui para jogar. E perder quando for pra perder. A derrota não só faz parte da vida como é também essencial. É como um aperitivo pra morte. Ah sim, sinto muito te dizer: podemos até vencer na vida, mas não podemos vencer DA vida. E, pra mim, vitória é aproveitar a viagem, seja lá o que isso signifique para a pessoa.

Então, quando você se sentir um perdedor, 
sente, 
relaxe, 
respire e 
aproveite a derrota.
Você nunca sabe quando terá a chance de perder novamente.
 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

O VEÍCULO

Estou com este hábito de caminhar por ruas que não conheço. Saio de casa, escolho uma direção e vou me enfiando por aí, descobrindo lojas, praças e cantinhos onde o sol parece mais gostoso. Tenho feito isso por desespero.

Nosso corpo quebra. Não sabemos quando, nem como. Mas uma hora as costas doem e o que se fazia antes numa brincadeira agora é impossível na necessidade. Tenho lamentado no banco do motorista por muito tempo. Fiz 29 anos rodados, ainda consigo subir ladeiras de primeira. Único dono. Mesmo assim, encosto a testa no volante e questiono a estrada. Por que nos botaram aqui, assim, desse jeito?

Tenho caminhado sem sentir que caminhei. Mesmo com os pés na rua, parece que ainda estou no meu quarto. E hoje uma moto quase me atropelou. Passou fininha do meu lado. Se eu tivesse virado o rosto, o motoqueiro teria acertado meu nariz com sua testa. Na hora meu coração disparou. Mas, ao invés de amaldiçoar a situação, sorri. Aquilo era real. Meu peito estourando, minhas pupilas dilatadas, a garganta seca; estava vivo, fora de casa, fora da minha cabeça por pelo menos alguns segundos. Todos os atos desesperados são tentativas de fuga da própria mente. Eu era o próprio Andy num Sonho de Liberdade.

Não importa o quão longe você vá; pra onde você for, lá você estará. Carregando a mesma bagagem, o peso nas costas. Não dá pra distanciar-se de si.

Também não importa o que você faz pra se distrair. Quando se é vazio, todos os consumos são desperdiçados no buraco. Pode beber e se entupir à vontade. Pode gastar dinheiro, transar, fumar, ler, assistir, cheirar... No final, é você consigo mesmo. A culpa não é do mundo.

De repente estou na minha cama novamente, pensando e pensando e pensando. A única prova de que caminhei são anotações que fiz no meu bloco de notas preto quando sentei numa pracinha. Isso e a minha lombar dolorida. Assisto o resto do dia morrer pela minha janela. Um lindo dia de poucas nuvens.

Desligo os faróis. Retiro a chave do contato. Inspiro profundamente. Expiro consciente uma última vez.

Amanhã será diferente.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

O TRABALHO

John acordou meio-dia novamente. Abriu a janela do quarto. Tudo cinza. 

"O mundo continua uma bosta". 

Foi mijar. Depois cozinha. Café com leite e pão francês com margarina sabor manteiga. 

"Eu devia começar a comer manteiga de verdade". 

Olhou a pilha de louça acumulada de um dia pro outro. Aquilo era uma metáfora para seu estado mental. Os malditos estavam vencendo a guerra: ter uma vida comum era melhor do que aquilo que John escolhera. Pelo menos era o que parecia. Se tivesse continuado com sua primeira namorada, se não tivesse largado a faculdade e o emprego no centro da cidade, talvez aquela louça não estaria ali. Ou pelo menos ELE não estaria ali. 

"Vou lavar logo essa porra".

Depois de três copos limpos, sentiu três quilos de merda batendo na porta de seu ânus. Correu para o quarto. Não cagava sem ler algo.

"Dessa vez vou de Bukowski".

Aquele cara sabia o que era ser um perdedor como John. Na realidade, ele era o melhor de todos. Exercia miséria com maestria. John escolheu perder, mas ainda não se via um bom perdedor. Todas aquelas fotos no Instagram de gente se amando. Os casais e seus amores tão eternos quanto bitucas no cinzeiro. As vitórias e conquistas nos trampos odiados de segunda-feira... John achava que era uma falta de empatia fodida fingir estar bem nas redes sociais. Por que diabos ninguém nunca falava sua língua? Por que ninguém dizia a verdade? Estava na hora de alguém mandar um "foda-se" à superestimada felicidade. E esse era o trabalho do John: dar voz à quem estava mal, normalizar a tristeza inerente de ser humano. Na realidade, quase ninguém estava bem. Só eram bons mentirosos. 

"Preciso arranjar uma namorada. Preciso foder. Preciso dar um jeito na minha vida. Eu era bem melhor antes. Tinha uma fogueira, uma energia dentro de mim que tornava tudo excitante. Agora não há nada. Nem uma faísca. Tô seguro dentro de casa, sendo comido pelo tempo. Mal consigo dar um oi pra alguém. Me sinto um lixo, uma bosta bem pior do que este tolete que acabei de cagar. Mas não adianta ficar tentando me aprimorar sem antes aceitar o que sinto. Além disso, chega de pensar demais; tenho um trabalho a fazer".

Fechou o livro, limpou a bunda e apertou a descarga. Terminou de lavar a louça. Todo dia John tinha que lavar sua louça. E quase sempre lavava. Hoje ele lavou com um pouco mais de entusiasmo. Ligou o computador e as palavras fluíram. Copo nem meio cheio, nem meio vazio; bebeu direto da garrafa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

DESEJOS QUARENTENADOS

Entre uma falta e outra, o pedaço perdido mais valioso ficou no que é simples. Quero ver meus amigos e reuni-los junto à novas pessoas. E dentre os rostos dos novatos, chupar alguns lábios. Apaixonar-se é lucro, embora paixão faça falta em meus bolsos. 

Às vezes sinto cheiro de cloro e álcool. Logo uma piscina, bem grande, e a carne em todos os pontos. Apenas roupas de banho; nada de máscaras abafando o som do coral naquela canção marota dos anos 90. 

Abraços. Cumprimentar de coração com coração. Apertar forte até sentir batimentos da alma. Saber pressão e pulso. Encostar nariz e testa, fincar olhos um no outro e dizer "você é uma pessoa incrível, me dá um selinho".

Litrões na Augusta, na Peixoto Gomide, em qualquer boca de mosca. E dessa vez acompanhado; bebidas amargam mais na solidão. Despejar breja em copos de 500 ml e virá-los de uma vez se estiverem na mão esquerda. Misturar todos os sabores de Corote e alcançar as verdadeiras cores do universo.

Amigos em casa, na tarde chuvosa do tédio. Risos aleatórios sobre palavras soltas ao acaso. Nada de brigas. Mas, se houver, que todas acabem em vínculos fortalecidos (e se o desejo estiver presente, em fodas de reconciliação).

Muita foda pra gente; tá foda, mano. É de foder a mente.

Dinheiro e a oportunidade de obtê-lo. Nada de exagero; apenas nas doses cavalares de álcool no carnaval. Ah, um carnaval também não seria ruim. Exageros também no ridículo, pois este nem existe, é construção fútil de mentes preocupadas. Nos tropeços bêbados, nos atos apaixonados, na auto expressão do fantástico ser que nos habita: sejamos os mais ridículos, os mais tolos possíveis.

Entre uma falta e outra, o mundo inteiro é ausente. Sem a simplicidade, sem os caminhos até ela, perdemos o rumo da graça. Enlouquecemos sóbrios, trancados nos mesmos círculos. 

Aguardo ansiosamente o que desejo, como o único lugar aberto numa noite de feriado. Até lá, bebo uma latinha na sala.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

NÃO QUERO SER MELHOR

A maior habilidade do humano é adaptar-se. E jogamos isto fora quando buscamos uma "personalidade", limitando-nos em três palavras: "eu sou assim". Prefiro mudar entre um minuto e outro. Como uma playlist no aleatório, dançando o que vier a estourar as caixas de som paralelas. Ou como um livro de poesia, onde, em algumas palavras, uma vida termina e outra começa. Metamorfoses ambulantes, já diziam há cinquenta anos atrás. 

A única peça comum que nos define é a arte, a expressão do ser. Ser, ser e ser até o talo, até o caroço. E aí lamber e chupar este caroço até desfazer-se em átomos. Eis um bom propósito para as almas perdidas, caminhando cinzas no império incolor dos colossos de concreto. 

Não quero ser melhor, me aperfeiçoar, se isto significar ter de deixar em cativeiro alguma asa minha. Quero apenas aprender a voar mais graciosamente. Autoajuda soa como adestração. Aprender o que dizer, o que pensar, quando e com quem. Se jogássemos fora nossos velhos conceitos, e apenas focássemos neste amor, nesta chama que em todos habita... Sim, esta força que nos faz sorrir quando um neném sorri pra gente, ou quando nossas mães faziam cafuné em nós, ou quando nos apaixonamos a primeira vez, querendo o bem do próximo como a nós mesmos; bem, o mundo seria mais escasso em problemas. E não que seja o planeta, mas o mundo humano, a odisseia infinita de miséria e insanidade. 

Larguemos o que nos prende! A cobiça! O abandono! A história que fizemos ser! Toda podridão que agarramos forte no colo e que carregamos por aí como se fizesse parte do nosso corpo! Não é mais, já foi. Todo agora é uma chance de adaptação, de ser parte de tudo. Não há você nem eu se não houver o resto, o imensurável resto do universo. Somos tão estrelas quanto quasares, buracos negros, supernovas. Quatro dimensões de vida. E eu não quero ser melhor, porque ser melhor do que isto é vaidade.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

EU ME CANCELO

Quando tinha 11, eu gostava de uma vizinha minha. Estudávamos juntos, na mesma sala. Marcamos um "encontro" depois da aula. Ela apareceu, mas no dia seguinte me deu um fora. Gritei com ela e fiz um escândalo. Todos os alunos pararam pra assistir. Ela entrou no ônibus escolar e eu fiquei batendo no vidro até ela gritar que me odiava. Na volta pra casa, o meu condutor puxou meu pai de canto e disse "Seu filho fez mó barraco lá hoje, conversa com ele". Engraçado que eu não lembro da conversa que meu pai teve comigo. 

Ultimamente tenho pisado na bola com muitas pessoas. Achei que fosse por causa do abuso de álcool, dos poemas, carência, ansiedade. Só que eu lembrei que nunca bati bem da cabeça. São brigas, decepções, guerras e frustrações. Sempre envolvendo uma dessas quatro coisas: 

1 - MELODRAMA

Uma vez briguei com meu primo porque ele contou uma coisa para todos os meus amigos, menos para mim. Falei que ele não confiava em mim, e que não poderíamos mais ser amigos. Quando cheguei em casa, arrebentei o violão que ele me deu de presente na parede do meu quarto. Meu pai teve que me imobilizar. Depois eu descobri que meu primo só estava com medo da minha reação. 

2 - INSEGURANÇA

Na adolescência, meus pais, meu outro primo, sua namorada e eu costumávamos sair todo domingo para passear no shopping. O casal ia se comendo do meu lado no banco de trás do carro enquanto meus pais me cobravam: "quando você vai arranjar uma namorada?". Muitas vezes eu começava a chorar do nada, sem poder dizer que eu me sentia um merda comparado ao meu primo e sua namorada perfeita. Até que, um dia, enquanto eles transavam na minha sala, eu sai do meu quarto com um copo de água gelada e joguei neles. Meu pai brigou comigo, minha mãe só consentiu e a minha insegurança só cresceu. "Meu pai sente mais orgulho do meu primo do que de mim". Um sentimento que, quase 20 anos depois, eu ainda possuo de vez em quando.

3 - INVEJA

Minha amiga estava passando por uns problemas pessoais. Eu fui lá, e dei alguns conselhos. Depois mais alguns. E então comecei a jogar um monte de "verdades" na cara dela. Tudo isso porque eu me sentia inferior à ela e queria botá-la pra baixo. Assim eu estaria acima dela, o "mestre dando conselhos pro pupilo". Só agindo dessa forma que eu me sentia um pouco melhor comigo mesmo. E não, ela não foi a única pessoa com quem fiz isto. Ninguém escapava dos meus "conselhos" pois, de alguma forma, todo mundo era melhor do que eu. A inveja era a bicicleta que eu usava para atravessar a vida. As bicicletas dos outros sempre eram mais sofisticadas que a minha Então eu furava os pneus, roubava, derrubava.

4 - RAIVA

Eu sempre achei que meu valor estava no bom funcionamento das coisas. Nos resultados positivos. Jamais desisti de um problema sem solução. Jamais assumi que eu não sabia ou não podia resolver um empecilho. Isso me faz sentir raiva até quando erro o padrão da senha do meu celular. Não posso errar nem posso estar errado. NUNCA. Se eu falhei, a culpa é sua. Isto é, SE eu falhasse. Aliás, por que você sempre tá agindo errado? Por que você não faz o que eu quero que você faça? Hein, seu filho da puta? (Foi mais ou menos assim que briguei com meu padrasto recentemente).

Há outros erros cometidos além destes, mas eles sempre estão ligados à um destes quatro aspectos. Se sou ausente, é por insegurança. Se falei mal de você pelas costas, foi por inveja. Se gritei contigo, falei que nunca gostei de você ou que você nunca fez nada por mim, foi por raiva (de nós). É por isso que eu me cancelo. Cancelo este cara que comete os erros sem saber ou se perguntar o porquê. Cancelo um cara que nunca se entendeu, nunca soube dizer como foi parar naquele lugar. Cancelo um moleque escroto, mimado, invejoso, inseguro, para dar espaço à um novo homem. Um homem que sabe que seu valor nunca esteve na comparação, na manipulação, nos objetivos alcançados. Um homem que irá aplaudir pessoas em situações melhores que a dele, sem se sentir inferior. Trocará inveja e competição por admiração e inspiração. Abandonará esta síndrome de protagonismo aguda. 

Eu cancelo esta terra infértil, este poço escuro, o espírito perdido e deprimido, vítima de sí, para cultivar boas energias. Espalhar luz, arte, sorrisos. Mesmo que algo não funcione, que meu coração seja partido, que alguém aja de má fé. Tudo estará bem. Serei seguro na minha essência, e farei o melhor que puder agora, no presente. 

Muito obrigado à todos que me aguentaram até hoje. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

NÃO LEMBRE DAS COISAS BOAS

Não lembre das coisas boas antes da pandemia. Lembre do que era ruim.

Antes era uma merda ir pro trabalho. Agora você vai sufocado numa máscara, correndo risco de vida. Bem, todo mundo morre um dia, não é mesmo?

Lembre dos rolês desmarcados. Agora pense no que você faria pra juntar duas pessoas queridas no mesmo lugar.

Antes era uma merda sair de casa. Agora é uma merda sair de casa.

Não lembre das coisas boas. Lembre de tudo que era ruim e que agora você daria sua alma ao diabo pra ter de volta.

Aproveite a perda.

Deixe marcar no sangue.

E o mais importante: não se esqueça disto quando tudo passar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

AS ÚLTIMAS LINHAS DE 2020

Se algo ruim acontecesse com o mundo inteiro, talvez houvessem mudanças. Mas, com a gente na encosta da praia mais solitária do universo, sorrindo para a cerveja gelada como a única saída, tudo e todos os gostos continuaram o mesmo.

Lágrimas continuam tão salgadas quanto uma porção de camarão com batata frita.

Ansiedade ainda é a mesma rotina, a mesma prisão de ontem. 

Os pisca-piscas continuam... Bem, continuam piscando.

Há uma nuvem escura em forma de corvo pairando sobre nossos sonhos. Pensar num futuro melhor é amedrontador. Mas não adianta temê-lo; somos os filhos bastardos do caos. Herdamos a natureza da destruição e da adaptação. 
 
Nas últimas linhas de 2020, não quero falar sobre o dito cujo. Todos sabemos o que este ano representou para cada um. O tempo ainda tem sabor de morte. E a sua corajosa flecha continuará seguindo em frente, para frente, sempre na mesma direção, independente do quanto pensarmos no passado.

Nas últimas palavras de um ciclo solar moribundo, quero enaltecer o que restou, o que resistiu às bombas. Não é só porque estou pra baixo que eu devo calar minhas gargalhadas para os malditos deuses que enfiaram estes pensamentos em mim. E não é só porque estou isolado que eu não deva compartilhar estas imagens com o mundo. 

Neste natal, o parabéns vai para nós, os verdadeiros merecedores de uma comemoração que celebra a sobrevivência. À todos que ficaram nas linhas de frente. Aos que tiveram empatia e se trancaram o máximo que puderam. E também àqueles que não respeitaram a quarentena. Foda-se. Estamos todos na mesma barca.

Parabéns para nós. 

O antigo aniversariante morreu há anos. Nos deixou seu mundo e suas palavras, e a gente mal conseguiu interpretar um simples sermão. Ainda atiramos pedras em putas. Ainda fazemos luxo com seus templos. Odiamos uns aos outros como odiamos a nós mesmos. E eu digo que nada mudará. Não mudou, mesmo com algo ruim acontecendo com o mundo inteiro. É impossível seguir os passos de um deus sendo esta criatura conturbada que sabe que sabe. 

Mesmo assim, tá tudo bem. Sobrevivemos. Estamos na encosta da praia mais solitária do universo, sorrindo para as estrelas. O Universo ainda nos quer por aqui. Quando Ele mudar de ideia (ou descobrir que existimos), nada poderá ser feito. Seremos magníficos como dinossauros, e tão extintos quanto. Então vamos aproveitar que estamos aqui e cear todos os recursos que a vida nos proporciona. Sem culpa, sem julgamentos. Livres como os primeiros homens, sábios e experientes como os últimos. 

E que venha o próximo livro.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

A DIFICULDADE EM LIDAR COM PESSOAS

Jogue uma moeda. Concentre-se no resultado. Faça o possível para dar "coroa". Calcule exatamente a força com que seu polegar empurra a moeda. Conte os giros no ar. Veja o resultado. Faça isso mais cem vezes. 

Provavelmente não deu "coroa" em todas as jogadas. A moeda pode até ter caído em pé uma vez ou outra. Fugiu pra debaixo do sofá, da mesa, da geladeira. Claro, existem máquinas que podem virar uma moeda com 100% de precisão. Mas toque na sua pele, abra a boca e olhe pra dentro da garganta; você é tão máquina quanto um gato. E espera da sorte, das outras pessoas o mesmo que um gato espera de seu dono todos os dias. 

Eis o problema: queremos resultados específicos das pessoas. Atitudes corretas tomadas pelo simples fato de que sabemos calcular o giro da moeda. Esperamos o binário "sim ou não", mas há todo um espectro de respostas entre um extremo e o outro. Talvez todo o universo determine estas respostas, ou então nada enfim, o puro caos e absurdo que é ser humano. 

Mal conseguimos ter um resultado preciso de nós mesmos. Se fosse ao contrário, não escolheríamos acordar sempre de bom humor? Ou gostar e desgostar de alguém no ato? Ou parar de procrastinar nossos sonhos? Não há um único maldito neste lugar que não tenha se decepcionado com o próprio reflexo no espelho. Não somos simples, a vida é que é.

E quanto mais gente se enfia nessa equação, mais aleatórios são os desfechos. A decepção é inevitável quando se espera a lógica de seres emocionais. Seres que sabem que pensam, mas não sabem pensar. Relacionamentos queimam, ardem, e quanto maior a potencia, maior a quantidade de fuligem nos canos. É por isso que é fácil odiar quem amamos; talvez estes mesmos canos precisem de uma limpeza.

As moedas cairão do jeito que devem. E nessa vida, você terá de gastá-las um dia ou outro. Deixar que partam para outras mãos, outros bolsos, outros bancos. Mesmo que seja complicado consegui-las, mais difícil ainda mantê-las e impossível sobreviver sem elas, as moedas cairão do jeito que devem, e nada poderá ser feito antes disto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

SORTE À PROVA

Numa terça, cara de chuva, fui pra Av. Paulista. Minha cidade é linda, mas é feita de açúcar. Eu tinha umas coisas para resolver lá, mas minha cabeça é uma gaveta de meias desorganizada. Não havia dormido bem na noite anterior. Só de imaginar o trem e o meu corpo na cidade depois de todo este tempo, meu peito começava a estralar e minhas mãos viravam dois blocos de gelo. Tentei meditar, tomar chá, socar o travesseiro, me masturbar. E o ruído branco continuava na minha mente. Já estava na hora. Botei minha sorte à prova. 

Fui até a Alameda Santos e fiz o que eu tinha para fazer. Estava cedo ainda. Com um pouco mais de tranquilidade, resolvi dar uma olhada na Rua Augusta. Comércios novos, moradores de rua velhos. O ar ainda era o mesmo, o contraste era preto e branco. 

Havia uns trocados à mais no meu bolso. Decidi contrastar minha garganta seca com uma cerveja gelada. O líquido espumou na minha língua, desceu efervescente, refrescando meu esôfago. Em um gole, meia lata. O céu escurecia e algumas gotas apressadas já caiam na calçada.

Fui embora até a estação. Álcool em gel a cada 5 minutos. Na Luz, um amontoado de gente na plataforma. O trem lotado de potenciais portadores de Covid. Eu precisava ir embora naquele instante, ou eu teria de enfrentar o horário de pico. Entrei, me enfiei no meio daquelas pessoas. Meia hora depois e o trem não havia se mexido.

Falha técnica. Descarga elétrica. Chuva. Açúcar.

Minha única opção era pegar o metrô até Itaquera e de lá pegar um ônibus. Olhei meus bolsos: R$4,20. Faltavam 20 centavos para completar a passagem. Sai do trem e olhei minha carteira. Havia dois poemas dentro dela. Botei minha sorte à prova mais uma vez. O primeiro casal que vi, sentados no chão, de risos e coxinhas. Uma moça e um rapaz. Teria de ser aqueles dois.

- Olá! Eu tô dando poemas para as pessoas com quem eu vou com a cara - eu disse.

Entreguei o poema, eles leram. Estavam quase me agradecendo. Eu interrompi:

- Vocês têm 20 centavos?

O rapaz deixou um riso escapar. Houve alguns segundos de silêncio constrangedor. A moça me encarou e perguntou:

- Só 20 centavos?
- Sim, só 20 centavos. O trem tá parado e eu preciso chegar na José Bonifácio. To querendo completar a grana pra pegar um ônibus em Itaquera. 

A moça então me deu uma moeda de 50. Caminhei cheio de sorrisos, na direção oposta da multidão. Era como descobrir o segredo da vida, a resposta divina. Achei a falha no sistema. Dali em diante, era tudo uma questão de paciência e resistência física.

Quando cheguei em casa, tomei um banho, coloquei o volume no último e fiquei esticado no sofá, com o corpo todo moído, em estado meditativo.

Sério, não havia mais nada na minha cabeça.

domingo, 30 de agosto de 2020

UMA BOA QUINTA-FEIRA PARA SE ESTAR VIVO

Eu sou um dos maiores otimistas que conheço. Pode não parecer pelo jeito que me comunico através dos meus textos. Todos têm aquele gostinho de ódio, desilusão e abuso de álcool como sedativo. Não te culpo se você me acha um jovem ranzinza que não transa há tempos, pois há um pouco de verdade nessa opinião. É que esse meu lado reclamão é só superfície. Carapaça pra proteger o frágil inseto sonhador que reside no centro da minha mente. E por esperar o melhor de tudo, este mesmo inseto se decepciona uma vez após a outra. Eis que a carapaça surge; para não mostrar ao mundo que ainda tenho esperança. E muita esperança mesmo.

Estava andando pelo meu bairro e encontrei uma pequena praça secreta com banquetas e mesas de mármore. Escrito num pedaço de concreto no chão, estava os dizeres "Exclusivo dominó". Minha vila não chega a ser um exemplo de manutenção do patrimônio público, mas este pequeno lugar, limpo e conservado, construído com carinho pelo povo e para o povo... Bem, são nestas situações que meu otimismo almoça, janta e faz um lanchinho da madrugada. E mesmo que se destrua, que se vandalize; o importante é que construíram e que eu pude utilizar o espaço para beber uma latinha e escrever este desabafo.

Ao meu redor caem as folhas, silenciadas pelo som dos automóveis na avenida. Uma boa quinta-feira para se estar vivo. Uma pausa nas tragédias e desgostos e medos. O sol refletido no alumínio das janelas dos conjuntos habitacionais. E a paz que parece infinita ao mesmo tempo que preciosa e instantânea. Um sinal ao otimista de que realmente tudo ficará bem. Talvez já esteja. Pelo menos hoje, pelo menos agora. Sim, meu amigo, eu repito; é uma boa quinta-feira para se estar vivo. Uma boa quinta-feira.

terça-feira, 19 de maio de 2020

MEU PRESENTE

Uma garota chamada Isabela escreveu isto daqui no verso de um poema que entreguei:

"A luz da escrita
existe.
O andarilho de palavras
distribui frases
do espirito
Toca a alma de quem
está solto.
Siga teu
caminho, andarilho.
Leve luz onde há
trevas e medo."

Ontem completei 28 anos nesta Terra (obrigado pelas mensagens de parabéns). Obviamente, como todo animal ansioso, pensei sobre passados vergonhosos, futuros incompletos e presentes ausentes. Tudo o que faço parece carregar um pouco do que sou. Em tempos estranhos, o mundo parece ficar mais pesado sobre meus pés. Mas sempre foi assim, eu sempre dei peso ao mundo. E diante dele, muitas vezes senti que eu era insuficiente.

Há um certo Olhar que não consigo descrever. Um Olhar secreto, de beira de esquina, julgando minhas decisões. Eu o sinto em todo mundo. O Olhar que vê o vagabundo, o garoto mimado de gostos duvidosos, afogando-se nos próprios pensamentos fantasiosos e egoístas. Estão me olhando. Ah sim, estão me olhando porque a vida é um palco e eu sou um péssimo ator. Só que ninguém acaba jogando os tomates porque a peça inclui a todos. E eu não sou o personagem principal. Ninguém é. O Olhar então fica emaranhado nas vozes da minha cabeça como um fone de ouvido no bolso da sua calça jeans.

Quando a Isabela me devolveu o poema, eu li o que estava no verso e agradeci. Como o álcool já fazia suas caminhadas no meu cérebro, não dei a devida atenção àquele momento. Isabela saiu da minha vida para nunca mais (pelo que lembro). Colei este poema no espelho do meu quarto. Uma bela forma de cegar o Olhar, o drama recorrente que fico elaborando para justificar maus comportamentos. Porque veja só: eu nunca gostei de jogar pelas regras existentes. Eu sempre amei criar novas regras, novos jogos, outras brincadeiras. Parece que minha cabeça funciona em outra dimensão (eu era uma criança bem esquisita). Porra, observe o que faço, o que escrevo, o jeito que arrumo meu quarto e as crises que tenho algumas vezes por ano. Não tem como eu jogar "Condicionamento Social" sem sair como perdedor, porque eu não entendo as regras, não gosto das regras, fodam-se as regras, vamos jogar "VIDA NUM UNIVERSO INDIFERENTE À NÓS", que é muito mais amplo, mais divertido e mais libertador. Ou então "AMOR E RESPEITO: É BEM SIMPLES". Caramba, até aquele jogo, o "CONVERSAS SEM SENTIDO MAS QUE TE FAZEM GARGALHAR COMO UM NENÉM DE 6 MESES" é mais legal do que "Condicionamento Social". Pois minhas piores crises são frutos destas regras que ainda não consigo entender fundamentalmente. Talvez porque eu as interprete errado, talvez porque eu seja uma bola e este é um jogo de damas.

Sim, eu penso sobre a sociedade mesmo em isolamento. Me preocupo com a volta. O que vai ser dos meus passos na Rua Augusta quando tudo voltar ao normal? Pois de normal não havia nada ali, nem em canto algum da cidade. Voltar para aquilo, para o jogo idiota, me causa calafrios.

A questão é que sinto uma luz imensa dentro de mim, como no poema da Isabela. Essa luz existe em todas as pessoas (dá pra ver em seus olhos). Só que eu tenho medo de deixá-la sair porque lâmpadas neste mundo são vandalizadas, são descartáveis, são quebradas na cabeça de homossexuais. Então eu me apago. Não quero ser o "bobo demais", "feliz demais", "otário", "trouxa", "demente", "louco" e por aí vai. Certos rótulos ainda matam. Física e psicologicamente. E eu não quero morrer antes de quem amo e deixá-los com um vazio ou uma casca apática. Sinto muito. Se minha luz é um pássaro, como o Espírito Santo, então o que há fora de mim é ateu. Tranco minha gaiola, faço cara feia e levo tudo à sério, como uma máscara para me proteger do vírus do mundo.

Se este medo tem alguma verdade em si ou não, eu sei lá. Talvez você já tenha sentido alguma coisa parecida com o que descrevi aqui. Descobrir este sentimento e compreendê-lo foi o melhor presente que recebi este ano. Eu ainda não sei o que fazer com esta realização, mas já é um começo para viver uma vida que realmente vale a pena, com autenticidade e vitalidade. Isso me trouxe um sentimento de paz, de liberdade e euforia. Estou louco para começar a fazer as coisas funcionarem.

Para todas as Isabelas deste mundo, para todos aqueles que compartilham suas luzes onde há trevas e medo, eu agradeço imensamente.

sexta-feira, 27 de março de 2020

DUZENTOS

Eu postei duzentos textos no meu blog durante 5 anos. E são tantos números e pensamentos e situações. Duzentos dias de gesso. Duzentos amores. Não sei o que fazer com isso. Talvez um pdf de graça. Os textos estão seguros, pelo menos. O que se desfez foi essa coisa que fui durante quase 28 anos. Essa carcaça foi mudando e agora tá perdida. Normal. É com isso que eu não sei o que fazer. Vão acabar decidindo por mim, meu pior pesadelo.

Sou um esquisitão negativo, mas só em palavras e doenças. Tô escrevendo isso num pico de alegria. Tô feliz com o resultado: duzentos textos em 5 anos, sem contar os que não publiquei ou os que não estão no blog.

Jamais me imaginei escritor, mas até que essa porra tá combinando comigo. Parabéns para mim. Se eu fizer uma coletânea gratuita, trate de ler pelo menos uma página.

Obrigado por estar aí.

Agora devolve meu álcool,
devolve meu álcool,
devolve.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

É NATURAL

Às vezes não sai. Igual sentar na privada e apertar a barriga. Não vai, não funciona. Cavucando lá no fundo. Escrevendo letras desconexas. Frases soltas sem sal, açúcar. Cruas como a carne do seu braço.

Às vezes sai. Como diarreia. No meio da rua, manchando roupa íntima, calça, calçada e algum infeliz que passou na hora.

O importante é lembrar pra quê. Se esquecer do pra quê, jogue tudo no lixo. Se ele ainda persiste, dá pra contar até a história da pomba manca.

Aliás, a pomba manca pousou despreparada na minha frente. Não tinha uma pata, mas uma linha que guardava como troféu. Caminhou até a poça de água suja formada na cratera da rua. Banhou-se, embebedou-se e gargarejou. Caiu fora.

Às vezes sai, e às vezes não. É natural.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

SOBRE ESCREVER ESTANDO BEM

    Algumas vezes eu tenho uma crise ou outra. Não importa muito do quê; só perceba que eu sou um cara normal, num planeta normal, numa existência normal. Geralmente quando eu travo, alguém aparece pra eu me apaixonar. Então surgem alguns poemas românticos, uns pensamentos bestas sobre sexo e aí eu espero até me decepcionar novamente. Vou pra rua, começo a observar mais as pessoas. Tento reparar no que elas têm que eu ainda não tenho. A primeira resposta é dinheiro. Entretanto ela se contradiz na maioria das vezes. Não, eu já tive muita grana (pelo menos pro que eu quero da vida), mas mesmo assim as pessoas sorriam de uma forma diferente da minha. E era sobre isso a nova leva de poemas: nossas diferenças.
   
    Se você busca uma fórmula mágica pra escrever, então aqui está uma: sofra. O máximo que você puder. Depois ultrapasse isso. Geralmente não é muito difícil. Os sentimentos sairão verdadeiros, rasgando sua cabeça como estiletes enferrujados.

    Só preciso te avisar que tudo passa. Uma hora não haverá motivos para escrever. Quando você não precisar dos poemas, você descobrirá se é esse o seu caminho. Pois se você consegue digitar um verso ostentando um sorriso, e mesmo assim esse verso presta pra alguma coisa, então pode seguir em frente sem pestanejar. É que tem muito viciado por aí. Viciado em costumes, em modas, no passageiro. Falam e escrevem como os mortos respiram. E há pouca vida na nossa cena, no nosso filme de rua.

    Não seja só mais um. Tenha as suas crises. Supere-as e sinta orgulho disso. Ou sinta o que for; não importa enquanto você se expressar. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

ARROGÂNCIA

Dói. O espaço vazio entre um pensamento e o outro. Simplesmente dói. Ter linhas em branco, uma infinidade delas, e os bolsos da cabeça secos. Reparei que humanos gostam daquilo que não gostam, ou pelo menos mantém estas coisas vivas. Um incêndio alimentado por uma lenha de cada vez. Nossas mãos sujas de carvão apontam para a cara um do outro, e ninguém sabe fugir ou lutar. Estou tentando, sabe? Eu tento todo dia em que consigo levantar da cama sem querer voltar. Mas as ruas dificultam as coisas, e as madrugadas são longas demais. Esse riso histérico e bêbado. Basta virar uma esquina que você verá garrafas bebendo pessoas.
Eu era uma delas, e então enjoei. Foi numa noite em que eu não queria mais tocar em ninguém. Simplesmente acontece: você não quer mais a respiração delas e as suas palavras martelando seus ouvidos cansados. Você busca a solidão e faz amor com ela sete dias por semana. Todo mundo é tolo demais, raso demais, chato demais. E é então que você sente algo parecido com ódio. E este ódio vira tristeza. Desesperança. Não há ninguém pra conversar; é tudo besteira, vai passar. Enquanto não passa, que tal um jogo de desafios?

segunda-feira, 13 de março de 2017

SOLIDÃO

Não, eu não vou dizer que me sinto só. Não é sobre isso. Na realidade eu tenho ótimas pessoas ao meu redor. Ótimos pais, ótimos amigos e ótimos desconhecidos. É que eu acho que entendi: vou morrer sozinho. E querendo ou não, sempre estou comigo mesmo. Distribuo meus textos sozinho. Durmo sozinho. Penso sozinho. E eu gosto, mesmo que as pessoas me digam: "nossa, você precisa sair mais" ou "você precisa responder os outros". É uma questão de autonomia, sabe? Porque é só quando eu tô sozinho que eu sou eu mesmo. Não preciso sorrir do que não é engraçado, concordar com o que discordo, brigar, argumentar, botar uma máscara. Não preciso dizer que gosto do Drummond (na realidade eu nem gosto de ler, olha só que ironia). Eu preciso de aceitação pra sobreviver, pra não afugentar as pessoas desse meu "eu" que, na maioria das vezes, não se importa se seu dia foi bom ou não. Sim, eu tô me fodendo pro seu final de semana, ou com o que você trabalha, ou com o seu nome. É isso o que sou sozinho. E essa parte pensa em suicídio toda vez que é forçada a se esconder. Então eu a agrado, passando horas e horas no meu quarto. Uma questão delicada. Eu nem iria escrever isso daqui se não fosse por ela, mas uma hora tudo o que você engole tem que sair por algum lugar. Ser sozinho é sobre não querer mentir para os outros.

A bateria do meu celular está acabando. Vou ter que desligar. Até mais. Beijo.