quarta-feira, 1 de abril de 2026

MAIOR QUE UMA NOITE

é que um pouco mais de amor
não faria mal
nessa semana onde
o céu mija sobre nossas cabeças

eu sou uma total falta de interesse
quando o assunto envolve
quem meio mundo conhece
sem nunca ter visto

olhe bem para o vazio
dos meus bolsos
olhe bem para as cores
das minhas olheiras
e me diga pra qual idiotice
eu devo me ajoelhar agora

é que um pouco mais de sabor
neste fast-love industrializado
não faria mal
nessa semana onde
o céu esqueceu como sorrir

eu posso ser muitas coisas
quem dá meus passos
são minhas pernas
e quem lamenta meus problemas
é meu peito
não há espaço
aqui dentro
minha alma
já tá acima do peso

olhe bem para a bagunça
do meu quarto
olhe bem 
e me diga
se seremos maiores
do que uma noite.

SEU HORIZONTE

me liquefaço na fumaça
que encosta no copo
o choro que escorre do vidro
deita no seu colo
coxas que deixariam
meu rosto alegre
pés em semi-silêncio
por baixo da mesa
dizem na língua do toque
todas as fantasias
e algumas delas
verdade
virarão versos
depois que os olhos secos
virem o nascer do sol
sobre seu horizonte.

NA BUNDINHA

mais uma noite se esvazia
desentupo o ralo da pia
com tudo o que havia
sobrado

algo nessa situação
está equivocado
no meu espelho pendurado
há só um rosto
com um cigarro em seus lábios

tô bêbado demais pra saber
se sou eu do outro lado
mas gosto do que vejo
e eu gostaria que você
também visse
e também gostasse
e deixasse
algo além
do que tá descendo
cano abaixo

sem perspectiva de melhorar
uma noite já perdida
eu abro minha geladeira
e nada ali
nada aqui
nada mais que uma latinha
sal e limões

acho que vou 
tomar na bundinha.

FIM DE MÊS

é a mesma desordem que mora no meu quarto
dança seus passos tortos no meu bolso
e na fina camada de noite sucinta
como as horas, perdi também meus preços
estou pagando hoje o que poderia ser amanhã
pra quem tem fome de agora
o depois é apenas sobremesa

A GENTE MARCA UM DIA

desinteresse às vezes 
é a roupa favorita do medo
só há fantasmas
na minha caixa
de mensagens

tudo bem
também tenho medo
de você

tenho pavor de acordar
te lembrando

de viciar seu nome
nas minhas conversas

do seu corpo intrometido
nos meus sonhos

por isso
peço que vá o quanto antes
antes mesmo da vontade
ou do seu cheiro
dormir de bruços
sobre meu travesseiro

não é à toa
é apenas preservação
que o meu eu
nunca vire nós
apertados demais
para desamarrar

aliás
há sempre outra opção
de gente como a gente
vestindo desinteresse
calçando desapego
maquiando solidão.

terça-feira, 17 de março de 2026

ÁLCOOL, CIGARRO E QUALQUER OUTRO VÍCIO QUE MINTA

não sou tão especial
quanto sua expectativa
nem sou a minha
busco no fosso para achá-la
e a bebo
num copo futuro-cinzeiro

quem me quiser por inteiro
vai ter que me descobrir
primeiro
e depois me explicar
o que viu
debaixo dos meus traumas
debaixo dos escombros
debaixo do tapete

tô buscando amor
ou
qualquer outro vício
que minta pra mim
tô buscando paz
na gilete afiada
na contradição
da própria raiva
que pinta os azulejos
de vermelho

não sou tão especial
e nem você
mas a gente podia
viver uma noite
que não virasse ronco
se não devêssemos mais nada
para a ressaca

quem tem a ousadia 
de ver a própria cara
num espelho de alguns dias?

um brinde 
um trago 
um afago

a gente se afoga
num mar de dúvidas
num rio de dívidas
numa poça de lágrimas
mal choradas
e todos tem seus próprios 
Titanics invencíveis
enferrujando
no abismo de suas almas

e eu volto pro cinzeiro futuro-copo
seu presente-corpo
faz feliz minha cama-passada
com lençóis esburacados
de cigarros mal fumados
carentes de certos lábios
que não gasto saliva
para lembrá-los.

não sou tão especial
e nenhum de nós também é
então sejamos comuns
até que se sinta
no álcool, no cigarro
e em qualquer outro vício
que minta;

um pouco dessa vontade
de se viver
infinita.

terça-feira, 10 de março de 2026

JOVEM ADULTO

eu não tenho 33 anos
tenho
vinte e treze

é que eu já tive trinta
trinta e um
e minha idade não me coube

então voltei pros vinte
e vou ficar aqui por um
bom tempo

sonhar é mais fácil
entusiasmo é como respirar
paixão vem só com um olhar
ridículo faz parte
da liberdade
entender o mundo
é apenas vivê-lo
e chorar
numa noite de despedida
tem trilha sonora
e um roteiro escrito
pelo desconhecido

quem tem trinta já conhece
já se esquece
já se esqueceu

quem tem trinta chora
de nervoso
de falta de dinheiro no bolso
de cinza do meio-dia
e eco da casa vazia

quem tem trinta
trinca o próprio espelho
bota desejo 
debaixo de uma rigidez amarga
debaixo do tapete
junto à poeira da infância

com trinta casamos
com vinte ficamos
de mãos dadas
sentados na calçada

e só é jovem com trinta
quem insiste 
em viver
mesmo morrendo de medo

(sou medroso demais
pra pensar em deixar
tudo que ainda não vivi
na goela arrependida)

hoje eu tenho vinte e treze
mais a idade da própria vida
e uma vontade danada
de saber se
na próxima quarta
a gente podia se ver.