terça-feira, 11 de agosto de 2026

SEM DINHEIRO

rico de bitucas
limões rosas
descansando secos
no último saco
de lixo

meu amor é o gelo
que sobra no copo
continua ali
gelando o vazio
da garganta do ralo

escrevo meu nome
num isqueiro sem chamas
e bato minhas cinzas
no chão de uma casa
que sente saudade
de outros pés
além dos meus

mas meus sentimentos
só podem pagar
passagens de ida

(em todas as voltas
troquei cicatrizes)

rico de bitucas
todo resto líquido
eu declaro
no imposto dos erros
me rendendo 
em poesia.

BORA SER RIDÍCULO

por favor
e por você
por nós
bora ser ridículo
como qualquer sol 
queimando até virar
gravidade

nada é tão grave
quanto uma vida
desprovida de risos
daquilo que sentimos
tanta importância
assim como um grão de areia
no olho de um peixe

assim como comer e
depois apertar a descarga

assim como amar e
depois amar o próximo

assim como dores cicatrizam
com a saliva do tempo
beijando nossas feridas

vamos ser ridículos
nessa vida sem sentido
se é pra cima ou pra baixo
no espaço 
nós apenas flutuamos
transando mentes
pensando demais
as cores
da própria pintura

por favor
saia daqui
o quão ridículo você é
e eu
estarei te aplaudindo
de pé.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

FÉRIAS

acho que estou
deveras bem
pra dizer
algum poema

um cozinheiro
sem fome
um médico
saudável
um traficante
sóbrio

acho que aprendi
a chorar meus males
e pintá-los no
papel higiênico

porque às vezes
(raras vezes)
é minha vez
de estar ok

mesmo com todas
as poesias
atrás de mim
(palavras que já até esqueci)
hoje eu acordei
olhando para frente
e tenho acordado assim
com um café da manhã
uma risada de almoço
e uma cachaça de janta

acho que estou
melhor do que minha arte
mesmo que ela me escape
pelos vãos da minha existência
e molde minhas raízes
e contagie meus arredores
hoje o bouquet de minhas flores
é apenas para o meu jardim

você pode até vir
e cheirar minhas cores
mas por favor
não pise na grama.

FUME PESSOAS, CONHEÇA CIGARROS

a maior causa
de todas as minhas mortes
foi aquele outro
que eu não entendi
que não me entendeu

ainda que eu me isole
tenho que ser
social-passivo
e inalar toxicidades
de peitos alheios
ao meu, que carrego
tão pesado pelo vazio
como uma cama carente
numa sexta à noite

e mesmo com os avisos
sinais vermelhos
que piscam mais fortes
com a luz da memória
lá estarei;
no meio da cidade
fumando pessoas
conhecendo cigarros.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

ENTÃO VOCÊ QUER SER ARTISTA?

o que você achou
que iria acontecer?
aplausos?
medalhas?
você só respirou
com o pulmão da alma
e usou seus átomos
pra descrever
algo que todo mundo vive

você parou por um momento
e nessa pausa
percebeu
a beleza de uma nuvem
se desfazendo em chuva

e daí?

você quer ser artista?

então sangre suas teias
e espere o pouso do acaso

arte é construída
por cima
daquilo que não é belo

artistas não só vivem
como morrem
talvez por um verso
um gesto
uma pincelada

o nada
é a única certeza
veja
quantas canções
você nem conhece

e ainda assim
você quer ser artista?

se em cada gota
daquilo que você cria
não habita
um último grito
de quem grita
seu fim do mundo
então faça outra coisa

arte é um meio
pra quem não tem medo
do fim.

SÓ EU ME CONHEÇO (POR INTEIRO)

tem parede na minha casa
que saca
quando não quero te ver
mesmo te vendo

tem travesseiro que sabe
se o gosto da lágrima
é sal e água
ou qualquer outra coisa

tem corredores que se acostumam
com meus passos
espelhos que fofocam
o que faço
um teto que dança meu espaço
e um chão que engole
meus cacos

mas só eu me conheço
por inteiro

tem gente que me acha
alguma coisa
tem coisa que gente
só disfarça e encontra
uma parte fácil dos meus sorrisos

tem gente que me olha
mas só vê vazio
tem pessoa que me incompleta
por um fio

mas só eu me conheço
por inteiro

tem dia que eu não me entendo
e às vezes finjo ser
o que pareço
tem noites que o cobertor
é desespero
tardes que se poem
no horizonte dos meus erros

mas só eu
(e repito)
só eu
me conheço por inteiro.

SEM TÍTULO

nem confusão
já tem demais
rolando atrás
dos meus olhos

vamos apenas respirar
e inspirar
alguém perdendo o fôlego
de tanto correr
atrás de si

vamos rir doloridamente
os hematomas do âmago
aquele ralado da brincadeira
que se esquece como brinca

talvez uma mímica
bora imitar genuinamente
mentiras e alegrias
sem nomes
sem títulos
nem rótulos
o foco é apenas
mostrar os dentes tortos
para o acaso

e caso cansemos
e a tarde desapareça
num segundo
cada um vai pro seu mundo
cuidar da própria solitude.