terça-feira, 10 de março de 2026

JOVEM ADULTO

eu não tenho 33 anos
tenho
vinte e treze

é que eu já tive trinta
trinta e um
e minha idade não me coube

então voltei pros vinte
e vou ficar aqui por um
bom tempo

sonhar é mais fácil
entusiasmo é como respirar
paixão vem só com um olhar
ridículo faz parte
da liberdade
entender o mundo
é apenas vivê-lo
e chorar
numa noite de despedida
tem trilha sonora
e um roteiro escrito
pelo desconhecido

quem tem trinta já conhece
já se esquece
já se esqueceu

quem tem trinta chora
de nervoso
de falta de dinheiro no bolso
de cinza do meio-dia
e eco da casa vazia

quem tem trinta
trinca o próprio espelho
bota desejo 
debaixo de uma rigidez amarga
debaixo do tapete
junto à poeira da infância

com trinta casamos
com vinte ficamos
de mãos dadas
sentados na calçada

e só é jovem com trinta
quem insiste 
em viver
mesmo morrendo de medo

(sou medroso demais
pra pensar em deixar
tudo que ainda não vivi
na goela arrependida)

hoje eu tenho vinte e treze
mais a idade da própria vida
e uma vontade danada
de saber se
na próxima quarta
a gente podia se ver.

TALVEZ EU NEM QUISESSE SER POETA (PRA COMEÇO DE CONVERSA)

não escolho as cartas
só faço minhas jogadas
memória dissipada
na mordida fodida dos ponteiros
eu chupo teu corpo inteiro
se pra nós isso for felicidade

a surpresa é eu estar aqui
nada do que entendo
rima por aí
com versos que escrevi
caminhos assim
que não sei ler

talvez eu nem quisesse ser poeta
a errata correta
um rascunho
minha versão completa
pra começo de conversa
quase não fala comigo

se não tenho ímpeto
eu impesso meu progresso
no regresso ao teus meros
momentos de ilusão

mas qual a melhor verdade
pra vício de saudade
do que sente o coração?

não escolho as cartas
só faço as jogadas
pra começo de conversa
não tenho pressa de ganhar
só vontade de sorrir.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ARTE?

eu tentei salvar
uma mariposa preta e amarela
com a asa esquerda quebrada
numa terça feira de vento
sem sentido

sinto
suas patas na minha mão
e meu esforço quase em vão
como nuvem de verão
que só existe
pra morrer em chuva

e a mariposa batia as asas
fugindo do próprio destino
chorei por dentro e lhe disse:
"você faz parte do infinito"

o acaso soprou seu corpo
voou por todas as flores
do caminho

e se eu não fosse o que sou
e se não estivesse sentindo
o que sinto
talvez teríamos
uma mariposa preta e amarela
a menos no mundo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

E VAI DESCENDO, DESCENDO

e cá estamos novamente
minha boca no seu gosto
e você na minha mente
nadando borboleta
no meu cérebro

uma noite sem você
tem cor de sobriedade
tô viciado na sua tinta
pena que a vida
também exija o cinza

mas cá estamos novamente

um brinde descendente
da alegria favorita
tô caindo contigo
pra baixo do chão
onde as risadas só ecoam
porque há espaço entre a gente

eu abraço sua presença
semi-invisível
e só vejo
o que eu deveria ter feito
antes da minha vontade
ser destilada
aos pingos de saudade
imaginada

mas cá estamos novamente
descendo além do fundo do poço
um do outro
embora eu só conheça
a mim mesmo

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ACÚMULO

tenho muitas lembranças
mofando no peito
sorrisos que nunca mais
lágrimas órfãs que eu poderia
queimar num latão
à luz do dia

algumas memórias eu guardo
numa caixa esquecível
outras boto no lixo
que ninguém recolherá
e fica o acúmulo de tudo
se juntando 
conforme continuo andando
sem pensar em nada
do que as cores das nuvens
no começo de um carnaval

se você ver uma lágrima por aí
se atirando do meu olho
em queda livre
não se preocupe
é só excesso
do que esqueci de colocar
nas calçadas
a gente também chora
quando tá bem

eu 
tô 
bem

tenho muitas lembranças
sobrando nos espaços da minha mente
e um sorriso novo
que comprei
na adega.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

COBERTURA

eu me cobro com uma voz alheia
e melhoro até parecer
que tudo o que me descartei 
fez alguma diferença

limpo a parede coberta de mofo
mas a sujeira
entra num pulmão
e mora no outro

respiro poeira
feita de pele
que nunca me cobriu
olha meu olho que descobriu
que tudo o que vê
foi a mente que pariu

é que nos dias de chuva
fica difícil sair por aí
e se descobrir
naquilo debaixo da ânsia
mas o tempo insiste na mudança
o tempo só existe na mudança

e eu
mudo

como uma sala em silêncio
me cubro
daquela voz que já conheço.

O POEMA MAIS HONESTO

como era a vida antes de eu
beber a primeira dose?

a mesma coisa

o que mudou fui eu

eu era besta
ria com meus primos
de qualquer coisa
a gente entrava numas brisas
que quem olhava de fora
pensava que a gente
tinha se drogado
mas era apenas
besteira
sem compromisso

eu escutava o "Black Total 2006"
e curtia brincar
num programa chamado
"RPG Maker"
tinha uma queda por quem
era "emo"
e eu via minha vida
como se cada dia
fosse um episódio
de uma série

eu não fumava ainda

minha distração era
imaginar situações
assistir clipes na MTV
me apaixonar por quem
não me queria
e fazer amizade
com todas as pessoas da escola
(isso eu consegui)

eu trabalhava na loja dos meus pais
e invejava os outros que 
podiam sair por aí
às três horas da tarde
sem nenhuma responsabilidade

eu estudava numa escola pública 
em Suzano
pegava o trem às seis da manhã
em Guaianases
e era maravilhoso ver o sol nascendo
pela janela
enquanto tocava "Bed" do J. Holiday
e "Sensual Seduction" do Snoop Dog
no meu MP3 player
(só precisava de uma pilha)

quando chegava na esquina
da escola
eu trocava ideia com o pessoal
e mostrava as músicas novas
que eu "descobri"
pro Yakuza
um dos meus melhores amigos

às vezes meus primos e eu
nos imaginávamos
com trinta anos
e nada do que somos hoje
bate com as nossas apostas

eu não era mais feliz antes
mas eu era feliz
com mais facilidade

a vida não mudou
depois da primeira dose
continuou seu rumo 
na mesma frequência de sempre

o que mudou fui eu
mas também nem tanto
eu ainda sou parte 
daquele garoto besta
e a gente ri às vezes
das coisas mais banais

mas sou só eu 
que chora 
de vez em quando

eu
e
a próxima dose