sexta-feira, 10 de abril de 2026

PARA QUEM NÃO PÔDE ESTAR AQUI

sim
tem sido uma correria por aqui
muita história acontecendo
ao mesmo tempo em que nada acontece

não tenho muitas novidades
pra te fazer sorrir
(você ainda sorri, não é?)

claro que
se não fosse esta merda de distância
entre a gente
te contaria cada detalhe
do meu cotidiano
mas dou todos os passos
em qualquer direção
e eu nunca te alcanço

e se ainda fôssemos próximos
te convidaria pra ver
a decoração nova que
fiz na minha casa
mudei o raque e o sofá de lugar
e a sala agora tá mais espaçosa

(tem tanto espaço aqui)

hoje eu ouvi uma música
que nunca escutamos juntos
se você puder ouví-la
ouça
se você puder me responder
responda
se você pudesse voltar
você
voltaria?

sim
tem sido uma correria por aqui
às vezes esqueço
do que estou correndo
tô tentando preencher
as linhas que você deixou em branco
no meu poema
e eu acho melhor nunca preenchê-las

hoje você é meu silêncio

VAMOS BEBER SÓ MAIS UM POUCO

hoje eu fumei um cigarro
com minha melancolia
ela mal sabia
onde bater suas cinzas

improvisei um copo
com fundo d'água
para que nenhuma brasa
nos incendiasse

também fiz uma caipirinha
de lembranças
gelo
e açúcar

ela pediu para dormir comigo
mas eu disse que tinha compromisso
logo na manhã seguinte

"então vamos beber só mais um pouco"
segurei suas mãos
tão frias quanto
qualquer desencontro

"você precisa ir embora"

e ela
numa teimosia sedosa 
foi só aos poucos
ficando em partes
abaixo do meu sorriso.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

MAIOR QUE UMA NOITE

é que um pouco mais de amor
não faria mal
nessa semana onde
o céu mija sobre nossas cabeças

eu sou uma total falta de interesse
quando o assunto envolve
quem meio mundo conhece
sem nunca ter visto

olhe bem para o vazio
dos meus bolsos
olhe bem para as cores
das minhas olheiras
e me diga pra qual idiotice
eu devo me ajoelhar agora

é que um pouco mais de sabor
neste fast-love industrializado
não faria mal
nessa semana onde
o céu esqueceu como sorrir

eu posso ser muitas coisas
quem dá meus passos
são minhas pernas
e quem lamenta meus problemas
é meu peito
não há espaço
aqui dentro
minha alma
já tá acima do peso

olhe bem para a bagunça
do meu quarto
olhe bem 
e me diga
se seremos maiores
do que uma noite.

SEU HORIZONTE

me liquefaço na fumaça
que encosta no copo
o choro que escorre do vidro
deita no seu colo
coxas que deixariam
meu rosto alegre
pés em semi-silêncio
por baixo da mesa
dizem na língua do toque
todas as fantasias
e algumas delas
verdade
virarão versos
depois que os olhos secos
virem o nascer do sol
sobre seu horizonte.

NA BUNDINHA

mais uma noite se esvazia
desentupo o ralo da pia
com tudo o que havia
sobrado

algo nessa situação
está equivocado
no meu espelho pendurado
há só um rosto
com um cigarro em seus lábios

tô bêbado demais pra saber
se sou eu do outro lado
mas gosto do que vejo
e eu gostaria que você
também visse
e também gostasse
e deixasse
algo além
do que tá descendo
cano abaixo

sem perspectiva de melhorar
uma noite já perdida
eu abro minha geladeira
e nada ali
nada aqui
nada mais que uma latinha
sal e limões

acho que vou 
tomar na bundinha.

FIM DE MÊS

é a mesma desordem que mora no meu quarto
dança seus passos tortos no meu bolso
e na fina camada de noite sucinta
como as horas, perdi também meus preços
estou pagando hoje o que poderia ser amanhã
pra quem tem fome de agora
o depois é apenas sobremesa

A GENTE MARCA UM DIA

desinteresse às vezes 
é a roupa favorita do medo
só há fantasmas
na minha caixa
de mensagens

tudo bem
também tenho medo
de você

tenho pavor de acordar
te lembrando

de viciar seu nome
nas minhas conversas

do seu corpo intrometido
nos meus sonhos

por isso
peço que vá o quanto antes
antes mesmo da vontade
ou do seu cheiro
dormir de bruços
sobre meu travesseiro

não é à toa
é apenas preservação
que o meu eu
nunca vire nós
apertados demais
para desamarrar

aliás
há sempre outra opção
de gente como a gente
vestindo desinteresse
calçando desapego
maquiando solidão.