quinta-feira, 16 de abril de 2026

MEU MELHOR AMIGO (UM POEMA DE SAIDEIRA)

conversei com meu melhor amigo
através do espelho
ofereci um cigarro
mas ele não fumava
fiz uma dose
daquilo que ele
não tomava

a conversa foi difícil
ambos nossos roteiros
tinham a fonte do nada
é sempre o vazio
o maior terror 
da conexão

tudo bem
leio um poema
de anti-versos
pra reverter
onde chegamos

mas imitamos
nossos erros

então eu só olho
com a mesma paisagem
de onde estamos

conversei com meu melhor amigo
e o reflexo

sei lá

não sei bem
o que sinto.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

FALTA

quando esvaziei meu cinzeiro
meu lixo tossiu

gasto muito
pra ser feliz
às vezes mais do que posso

gasto até coisa sem nome
pra fingir
e fingir
e fingir
que gosto
de tantas farsas 
que se sumissem
eu, sei lá
continuaria vivo

minha parte sóbria
só consegue escrever
quando bebo

e entre parar de escrever
e parar de beber
prefiro viver no 
zig zag da linha

porque minha direção
é qualquer ponto cardeal
que me dê uma diversão coordenada

é qualquer história
que supere uma ressaca
e vá buscar outra parada
no fluxo contínuo
e traz uma lata de caos
bem gelada, suada
nos meus dedos de carne
e átomos

eu só preciso de mais
pra ser tudo o que sou
vestir o que sou
viajar o que sou
postar o que sou
maquiar o que sou
eu sou
uma total falta
de mim.

SOBRE DESISTIR

eu desisti debaixo de uma árvore branca
sentado numa mesa improvisada de persiana
vestindo uma camisa rosa
curta demais para tudo o que eu era
ouvindo Led Zeppelin
enquanto três rolinhas brigavam por espaço
num galho sob o sol

um cachorro preto e branco
quase fez amizade comigo
mas ele entendeu
que eu queria ficar sozinho
(e que a grama era mais interessante
do que minha desistência)

ele cagou do meu lado e seguiu
rumo ao horizonte
até ficar tão pequeno
que virou lembrança

neste ponto 
a cerveja já estava no fim
o maço estava no fim
a tarde estava no fim
e eu cogitava gastar
meus últimos trocados
numa saideira

decidi seguir
l e n t a m e n t e
em direção ao mercadinho
onde o preço da latinha
cabia no meu orçamento

e eu
nunca havia me sentido
tão em paz
quanto naquele momento.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

PARA QUEM NÃO PÔDE ESTAR AQUI

sim
tem sido uma correria por aqui
muita história acontecendo
ao mesmo tempo em que nada acontece

não tenho muitas novidades
pra te fazer sorrir
(você ainda sorri, não é?)

claro que
se não fosse esta merda de distância
entre a gente
te contaria cada detalhe
do meu cotidiano
mas dou todos os passos
em qualquer direção
e eu nunca te alcanço

e se ainda fôssemos próximos
te convidaria pra ver
a decoração nova que
fiz na minha casa
mudei o raque e o sofá de lugar
e a sala agora tá mais espaçosa

(tem tanto espaço aqui)

hoje eu ouvi uma música
que nunca escutamos juntos
se você puder ouví-la
ouça
se você puder me responder
responda
se você pudesse voltar
você
voltaria?

sim
tem sido uma correria por aqui
às vezes esqueço
do que estou correndo
tô tentando preencher
as linhas que você deixou em branco
no meu poema
e eu acho melhor nunca preenchê-las

hoje você é meu silêncio

VAMOS BEBER SÓ MAIS UM POUCO

hoje eu fumei um cigarro
com minha melancolia
ela mal sabia
onde bater suas cinzas

improvisei um copo
com fundo d'água
para que nenhuma brasa
nos incendiasse

também fiz uma caipirinha
de lembranças
gelo
e açúcar

ela pediu para dormir comigo
mas eu disse que tinha compromisso
logo na manhã seguinte

"então vamos beber só mais um pouco"
segurei suas mãos
tão frias quanto
qualquer desencontro

"você precisa ir embora"

e ela
numa teimosia sedosa 
foi só aos poucos
ficando em partes
abaixo do meu sorriso.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

MAIOR QUE UMA NOITE

é que um pouco mais de amor
não faria mal
nessa semana onde
o céu mija sobre nossas cabeças

eu sou uma total falta de interesse
quando o assunto envolve
quem meio mundo conhece
sem nunca ter visto

olhe bem para o vazio
dos meus bolsos
olhe bem para as cores
das minhas olheiras
e me diga pra qual idiotice
eu devo me ajoelhar agora

é que um pouco mais de sabor
neste fast-love industrializado
não faria mal
nessa semana onde
o céu esqueceu como sorrir

eu posso ser muitas coisas
quem dá meus passos
são minhas pernas
e quem lamenta meus problemas
é meu peito
não há espaço
aqui dentro
minha alma
já tá acima do peso

olhe bem para a bagunça
do meu quarto
olhe bem 
e me diga
se seremos maiores
do que uma noite.

SEU HORIZONTE

me liquefaço na fumaça
que encosta no copo
o choro que escorre do vidro
deita no seu colo
coxas que deixariam
meu rosto alegre
pés em semi-silêncio
por baixo da mesa
dizem na língua do toque
todas as fantasias
e algumas delas
verdade
virarão versos
depois que os olhos secos
virem o nascer do sol
sobre seu horizonte.