segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

COBERTURA

eu me cobro com uma voz alheia
e melhoro até parecer
que tudo o que me descartei 
fez alguma diferença

limpo a parede coberta de mofo
mas a sujeira
entra num pulmão
e mora no outro

respiro poeira
feita de pele
que nunca me cobriu
olha meu olho que descobriu
que tudo o que vê
foi a mente que pariu

é que nos dias de chuva
fica difícil sair por aí
e se descobrir
naquilo debaixo da ânsia
mas o tempo insiste na mudança
o tempo só existe na mudança

e eu
mudo

como uma sala em silêncio
me cubro
daquela voz que já conheço.

O POEMA MAIS HONESTO

como era a vida antes de eu
beber a primeira dose?

a mesma coisa

o que mudou fui eu

eu era besta
ria com meus primos
de qualquer coisa
a gente entrava numas brisas
que quem olhava de fora
pensava que a gente
tinha se drogado
mas era apenas
besteira
sem compromisso

eu escutava o "Black Total 2006"
e curtia brincar
num programa chamado
"RPG Maker"
tinha uma queda por quem
era "emo"
e eu via minha vida
como se cada dia
fosse um episódio
de uma série

eu não fumava ainda

minha distração era
imaginar situações
assistir clipes na MTV
me apaixonar por quem
não me queria
e fazer amizade
com todas as pessoas da escola
(isso eu consegui)

eu trabalhava na loja dos meus pais
e invejava os outros que 
podiam sair por aí
às três horas da tarde
sem nenhuma responsabilidade

eu estudava numa escola pública 
em Suzano
pegava o trem às seis da manhã
em Guaianases
e era maravilhoso ver o sol nascendo
pela janela
enquanto tocava "Bed" do J. Holiday
e "Sensual Seduction" do Snoop Dog
no meu MP3 player
(só precisava de uma pilha)

quando chegava na esquina
da escola
eu trocava ideia com o pessoal
e mostrava as músicas novas
que eu "descobri"
pro Yakuza
um dos meus melhores amigos

às vezes meus primos e eu
nos imaginávamos
com trinta anos
e nada do que somos hoje
bate com as nossas apostas

eu não era mais feliz antes
mas eu era feliz
com mais facilidade

a vida não mudou
depois da primeira dose
continuou seu rumo 
na mesma frequência de sempre

o que mudou fui eu
mas também nem tanto
eu ainda sou parte 
daquele garoto besta
e a gente ri às vezes
das coisas mais banais

mas sou só eu 
que chora 
de vez em quando

eu
e
a próxima dose

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TALVEZ EU FUME (UM MAÇO VAZIO)

cada fumaça
tem a cor
de um desperdício

talvez eu fume
porque é bonito
um cigarro nos dedos
disfarçando desesperos
invisiveis no meu sorriso

talvez eu fume
só pela espera
de uma hora
em que o tempo
não me pese

talvez eu fume
(e o maço se esvazia)
só pra tragar
novas ideias
de velhos hábitos
da minha mesma única vida

talvez eu fume
pra chamar quem fuma
e num isqueiro só
a gente se entende
pelas bitucas

talvez eu
(o último cigarro)
só queira me apagar
num cinzeiro 
cheio
de não sei o quê

cada fumaça
um pouco de mim
manchando as paredes

talvez eu fume
(um maço vazio)

ENTÃO VOCÊ QUER SER ARTISTA?

o que você achou
que iria acontecer?
aplausos?
medalhas?
você só respirou
com o pulmão da alma
e usou seus átomos
pra descrever
algo que todo mundo vive

você parou por um momento
e nessa pausa
percebeu
a beleza de uma nuvem
se desfazendo em chuva

e daí?

você quer ser artista?

então sangre suas teias
e espere o pouso do acaso

arte é construída
por cima
daquilo que não é belo

artistas não só vivem
como morrem
talvez por um verso
um gesto
uma pincelada

o nada
é a única certeza
veja
quantas canções
você nem conhece

e ainda assim
você quer ser artista?

se em cada gota
daquilo que você cria
não habita
um último grito
de quem grita
seu fim do mundo
então faça outra coisa

arte é um meio
pra quem não tem medo
do fim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EXAGERO (OU POUCA COISA)

daqui até a eternidade
existe um momento
que eu quero contigo

é que meu coração
tá precisando
de uma batida

se hoje for exagero
amanhã meu futuro
fica só no soro

um repouso
costurado
de boas histórias
é o melhor dos descansos
quero deitar minha cabeça
numa memória king size

se a gente perder o agora
que hora tosca
será nossa
se quase todo nosso relógio
já tem outros donos?

daqui até a eternidade
um dia
um pôr do sol
e um sorriso
dessa sua boca
pra mim 
já tá de boa

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

COGUMELO DO TÉDIO

tudo fica meio chato
cheio como
um copo
quase vazio

sair é uma opção
sem botar os pés
pra fora do próprio cérebro
rego uma ideia e a podo
as folhas morrem
igual um segundo
minhas janelas são pinturas
sempre a mesma paisagem

eu disse para alguém
que semi-escutou
eu vou mudar
depois de amanhã
e cá estou
já vivendo ontem

o segundo passo é
ainda mais difícil

esse verão tá com cara de Maio
desmaio na vertigem
das sempre-paredes
cimentadas de ansiedade
acordo nublado
na coragem de quem tem medo

e tudo fica meio chato
amor
com gosto
de "foi bom te conhecer"

ficar em casa é uma opção
botando os pés
em meias verdades
custa muito
um pouco
de felicidade
sorriso no crédito

escolho esperar
desabafando com os cogumelos
que nasceram
nos pensamentos
que reguei demais.

ANO NOVO

fiz promessas
mas os vícios
me cumpriram