quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O CONVITE (VÍCIOS BOÊMIOS)

moro em mim como 
num castelo ansioso
feito de areia na praia
minhas paredes se desmancham
por qualquer brisa
que você possa me fornecer

tô na mesma onda
daquilo que é acaso
se a gente se esbarrar
entre infinitos esbarrões
há uma possibilidade
da gente se amar
eternamente
por algumas horas
numa cama bagunçada

e talvez eu treine
minha linguagem corporal
conversando com sua pele
ou talvez seja só risada
uma história contada
em versos aleatórios
na estrofe de um dia

de qualquer forma
eis o convite
flertando com meus bolsos
chavecando a minha noite
perguntando se hoje
eu tô afim de errar
mais um pouco
novamente.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TALVEZ

"só bebo Heineken"
bebemos quatro litrões de Skol

"só vou se for de Uber"
pegamos um ônibus em Itaquera

"quero conhecer lugares novos"
fomos pra praça do lado
da minha casa

"só escuto música boa"
botei minha lista dos anos noventa

"quero comida japonesa"
fritei calabresa com cebola

"só com luz acesa"
apaguei as luzes

acho que
vai dar namoro.

EUFORIA

me vê mais uma dose
e enxergue minha garganta
engolindo nada
pro nada
dentro de mim

me vê mais um trago
e veja eu inalar
a mesma fumaça
que eu respiro
pra morrer

mas tá tudo tão
dançante
que meu corpo
vai até o seu
no mesmo instinto
que os dedos vão
pro lacre
e meu beiço vai
pra lata

não temos que pensar
agora que fugimos
pra nossa euforia
você alegre e
eu me repetindo
um sorriso
tão comum quanto
uma ressaca

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

UMA APOSTA

me mostre algo
melhor do que cigarro e álcool
mais reconfortante
do que calar a boca
do cérebro
e poupar os olhos
desta vista linda
urbana e cinza
rica e pútrida
e dar um tapa 
na cara
da esperança
que busca semialegria
num futuro fajuto

me mostre algo melhor do que isso
melhor do que eu desgraço
da minha vida
melhor do que comer minhas
dores
e temperar meus curativos
com o vinagre mais barato
que mal consigo comprar

vamos, eu te desafio
a uma aposta:
mostre que o bom da sua vida
também cabe na minha
e eu paro de uma vez
talvez 
amanhã

PARA QUEM SE SOBREVIVE TODO DIA

todos os desencontros
você perdoou
com a mesma facilidade
que se culpa
pelo espaço que a ausência
ocupa

você gasta seu dinheiro
agradando vícios e amigos
a sua mentira favorita
é a do sorriso
grudada no seu rosto
de um jeito
que até o espelho
mais sujo da sua casa
sente saudade
de ver sua pele

você se diminui
só pra se sentir preenchido
com a pequenez
que os outros te oferecem

e quando você fala
todos os ouvidos são surdos
mas quem fala mais alto
sem nunca sair do palco
recebe todos os aplausos
como o palhaço que você
no fundo gostaria de ser

então você volta pra mesma mesa
e engole fumaça num copo de vidro
porque as horas voam
quando você finge que está vivo

mas mesmo assim
aqui estamos
gente que se sobrevive todo dia

parabéns

eu até te daria um abraço
se eu não tivesse 
tanta preguiça
de ser legal
quando não preciso.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SEM DINHEIRO

rico de bitucas
limões rosas
descansando secos
no último saco
de lixo

meu amor é o gelo
que sobra no copo
continua ali
gelando o vazio
da garganta do ralo

escrevo meu nome
num isqueiro sem chamas
e bato minhas cinzas
no chão de uma casa
que sente saudade
de outros pés
além dos meus

mas meus sentimentos
só podem pagar
passagens de ida

(em todas as voltas
troquei cicatrizes)

rico de bitucas
todo resto líquido
eu declaro
no imposto dos erros
me rendendo 
em poesia.

BORA SER RIDÍCULO

por favor
e por você
por nós
bora ser ridículo
como qualquer sol 
queimando até virar
gravidade

nada é tão grave
quanto uma vida
desprovida de risos
daquilo que sentimos
tanta importância
assim como um grão de areia
no olho de um peixe

assim como comer e
depois apertar a descarga

assim como amar e
depois amar o próximo

assim como dores cicatrizam
com a saliva do tempo
beijando nossas feridas

vamos ser ridículos
nessa vida sem sentido
se é pra cima ou pra baixo
no espaço 
nós apenas flutuamos
transando mentes
pensando demais
as cores
da própria pintura

por favor
saia daqui
o quão ridículo você é
e eu
estarei te aplaudindo
de pé.