quinta-feira, 7 de maio de 2026

LEVEZA (A VIDA SÃO ONDAS)

demorei pra entender essa palavra
pois cada pensamento
sempre me pesou
toneladas

hoje

eu gosto
de qualquer destino
pois se tenho algum tempo
pra ansiar todos os futuros possíveis
é porque meu presente
não é nenhuma
emergência

sim

ainda há problemas
e a maioria mora dentro de mim
e crescem gigantes tsunamis invisíveis
que afogam minhas pausas
meu agora fica
sem ar para
respirar

mas

se tenho tempo
para sentir medo daquilo
que um dia eu posso perder
é porque sou afortunado de ter
aquilo que já me faz parte
e como ondas que só são
eu deixo a leveza
da maré da vida
ser um acaso

quinta-feira, 16 de abril de 2026

MEU MELHOR AMIGO (UM POEMA DE SAIDEIRA)

conversei com meu melhor amigo
através do espelho
ofereci um cigarro
mas ele não fumava
fiz uma dose
daquilo que ele
não tomava

a conversa foi difícil
ambos nossos roteiros
tinham a fonte do nada
é sempre o vazio
o maior terror 
da conexão

tudo bem
leio um poema
de anti-versos
pra reverter
onde chegamos

mas imitamos
nossos erros

então eu só olho
com a mesma paisagem
de onde estamos

conversei com meu melhor amigo
e o reflexo

sei lá

não sei bem
o que sinto.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

FALTA

quando esvaziei meu cinzeiro
meu lixo tossiu

gasto muito
pra ser feliz
às vezes mais do que posso

gasto até coisa sem nome
pra fingir
e fingir
e fingir
que gosto
de tantas farsas 
que se sumissem
eu, sei lá
continuaria vivo

minha parte sóbria
só consegue escrever
quando bebo

e entre parar de escrever
e parar de beber
prefiro viver no 
zig zag da linha

porque minha direção
é qualquer ponto cardeal
que me dê uma diversão coordenada

é qualquer história
que supere uma ressaca
e vá buscar outra parada
no fluxo contínuo
e traz uma lata de caos
bem gelada, suada
nos meus dedos de carne
e átomos

eu só preciso de mais
pra ser tudo o que sou
vestir o que sou
viajar o que sou
postar o que sou
maquiar o que sou
eu sou
uma total falta
de mim.

SOBRE DESISTIR

eu desisti debaixo de uma árvore branca
sentado numa mesa improvisada de persiana
vestindo uma camisa rosa
curta demais para tudo o que eu era
ouvindo Led Zeppelin
enquanto três rolinhas brigavam por espaço
num galho sob o sol

um cachorro preto e branco
quase fez amizade comigo
mas ele entendeu
que eu queria ficar sozinho
(e que a grama era mais interessante
do que minha desistência)

ele cagou do meu lado e seguiu
rumo ao horizonte
até ficar tão pequeno
que virou lembrança

neste ponto 
a cerveja já estava no fim
o maço estava no fim
a tarde estava no fim
e eu cogitava gastar
meus últimos trocados
numa saideira

decidi seguir
l e n t a m e n t e
em direção ao mercadinho
onde o preço da latinha
cabia no meu orçamento

e eu
nunca havia me sentido
tão em paz
quanto naquele momento.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

PARA QUEM NÃO PÔDE ESTAR AQUI

sim
tem sido uma correria por aqui
muita história acontecendo
ao mesmo tempo em que nada acontece

não tenho muitas novidades
pra te fazer sorrir
(você ainda sorri, não é?)

claro que
se não fosse esta merda de distância
entre a gente
te contaria cada detalhe
do meu cotidiano
mas dou todos os passos
em qualquer direção
e eu nunca te alcanço

e se ainda fôssemos próximos
te convidaria pra ver
a decoração nova que
fiz na minha casa
mudei o raque e o sofá de lugar
e a sala agora tá mais espaçosa

(tem tanto espaço aqui)

hoje eu ouvi uma música
que nunca escutamos juntos
se você puder ouví-la
ouça
se você puder me responder
responda
se você pudesse voltar
você
voltaria?

sim
tem sido uma correria por aqui
às vezes esqueço
do que estou correndo
tô tentando preencher
as linhas que você deixou em branco
no meu poema
e eu acho melhor nunca preenchê-las

hoje você é meu silêncio

VAMOS BEBER SÓ MAIS UM POUCO

hoje eu fumei um cigarro
com minha melancolia
ela mal sabia
onde bater suas cinzas

improvisei um copo
com fundo d'água
para que nenhuma brasa
nos incendiasse

também fiz uma caipirinha
de lembranças
gelo
e açúcar

ela pediu para dormir comigo
mas eu disse que tinha compromisso
logo na manhã seguinte

"então vamos beber só mais um pouco"
segurei suas mãos
tão frias quanto
qualquer desencontro

"você precisa ir embora"

e ela
numa teimosia sedosa 
foi só aos poucos
ficando em partes
abaixo do meu sorriso.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

MAIOR QUE UMA NOITE

é que um pouco mais de amor
não faria mal
nessa semana onde
o céu mija sobre nossas cabeças

eu sou uma total falta de interesse
quando o assunto envolve
quem meio mundo conhece
sem nunca ter visto

olhe bem para o vazio
dos meus bolsos
olhe bem para as cores
das minhas olheiras
e me diga pra qual idiotice
eu devo me ajoelhar agora

é que um pouco mais de sabor
neste fast-love industrializado
não faria mal
nessa semana onde
o céu esqueceu como sorrir

eu posso ser muitas coisas
quem dá meus passos
são minhas pernas
e quem lamenta meus problemas
é meu peito
não há espaço
aqui dentro
minha alma
já tá acima do peso

olhe bem para a bagunça
do meu quarto
olhe bem 
e me diga
se seremos maiores
do que uma noite.

SEU HORIZONTE

me liquefaço na fumaça
que encosta no copo
o choro que escorre do vidro
deita no seu colo
coxas que deixariam
meu rosto alegre
pés em semi-silêncio
por baixo da mesa
dizem na língua do toque
todas as fantasias
e algumas delas
verdade
virarão versos
depois que os olhos secos
virem o nascer do sol
sobre seu horizonte.

NA BUNDINHA

mais uma noite se esvazia
desentupo o ralo da pia
com tudo o que havia
sobrado

algo nessa situação
está equivocado
no meu espelho pendurado
há só um rosto
com um cigarro em seus lábios

tô bêbado demais pra saber
se sou eu do outro lado
mas gosto do que vejo
e eu gostaria que você
também visse
e também gostasse
e deixasse
algo além
do que tá descendo
cano abaixo

sem perspectiva de melhorar
uma noite já perdida
eu abro minha geladeira
e nada ali
nada aqui
nada mais que uma latinha
sal e limões

acho que vou 
tomar na bundinha.

FIM DE MÊS

é a mesma desordem que mora no meu quarto
dança seus passos tortos no meu bolso
e na fina camada de noite sucinta
como as horas, perdi também meus preços
estou pagando hoje o que poderia ser amanhã
pra quem tem fome de agora
o depois é apenas sobremesa

A GENTE MARCA UM DIA

desinteresse às vezes 
é a roupa favorita do medo
só há fantasmas
na minha caixa
de mensagens

tudo bem
também tenho medo
de você

tenho pavor de acordar
te lembrando

de viciar seu nome
nas minhas conversas

do seu corpo intrometido
nos meus sonhos

por isso
peço que vá o quanto antes
antes mesmo da vontade
ou do seu cheiro
dormir de bruços
sobre meu travesseiro

não é à toa
é apenas preservação
que o meu eu
nunca vire nós
apertados demais
para desamarrar

aliás
há sempre outra opção
de gente como a gente
vestindo desinteresse
calçando desapego
maquiando solidão.

terça-feira, 17 de março de 2026

ÁLCOOL, CIGARRO E QUALQUER OUTRO VÍCIO QUE MINTA

não sou tão especial
quanto sua expectativa
nem sou a minha
busco no fosso para achá-la
e a bebo
num copo futuro-cinzeiro

quem me quiser por inteiro
vai ter que me descobrir
primeiro
e depois me explicar
o que viu
debaixo dos meus traumas
debaixo dos escombros
debaixo do tapete

tô buscando amor
ou
qualquer outro vício
que minta pra mim
tô buscando paz
na gilete afiada
na contradição
da própria raiva
que pinta os azulejos
de vermelho

não sou tão especial
e nem você
mas a gente podia
viver uma noite
que não virasse ronco
se não devêssemos mais nada
para a ressaca

quem tem a ousadia 
de ver a própria cara
num espelho de alguns dias?

um brinde 
um trago 
um afago

a gente se afoga
num mar de dúvidas
num rio de dívidas
numa poça de lágrimas
mal choradas
e todos tem seus próprios 
Titanics invencíveis
enferrujando
no abismo de suas almas

e eu volto pro cinzeiro futuro-copo
seu presente-corpo
faz feliz minha cama-passada
com lençóis esburacados
de cigarros mal fumados
carentes de certos lábios
que não gasto saliva
para lembrá-los.

não sou tão especial
e nenhum de nós também é
então sejamos comuns
até que se sinta
no álcool, no cigarro
e em qualquer outro vício
que minta;

um pouco dessa vontade
de se viver
infinita.

terça-feira, 10 de março de 2026

JOVEM ADULTO

eu não tenho 33 anos
tenho
vinte e treze

é que eu já tive trinta
trinta e um
e minha idade não me coube

então voltei pros vinte
e vou ficar aqui por um
bom tempo

sonhar é mais fácil
entusiasmo é como respirar
paixão vem só com um olhar
ridículo faz parte
da liberdade
entender o mundo
é apenas vivê-lo
e chorar
numa noite de despedida
tem trilha sonora
e um roteiro escrito
pelo desconhecido

quem tem trinta já conhece
já se esquece
já se esqueceu

quem tem trinta chora
de nervoso
de falta de dinheiro no bolso
de cinza do meio-dia
e eco da casa vazia

quem tem trinta
trinca o próprio espelho
bota desejo 
debaixo de uma rigidez amarga
debaixo do tapete
junto à poeira da infância

com trinta casamos
com vinte ficamos
de mãos dadas
sentados na calçada

e só é jovem com trinta
quem insiste 
em viver
mesmo morrendo de medo

(sou medroso demais
pra pensar em deixar
tudo que ainda não vivi
na goela arrependida)

hoje eu tenho vinte e treze
mais a idade da própria vida
e uma vontade danada
de saber se
na próxima quarta
a gente podia se ver.

TALVEZ EU NEM QUISESSE SER POETA (PRA COMEÇO DE CONVERSA)

não escolho as cartas
só faço minhas jogadas
memória dissipada
na mordida fodida dos ponteiros
eu chupo teu corpo inteiro
se pra nós isso for felicidade

a surpresa é eu estar aqui
nada do que entendo
rima por aí
com versos que escrevi
caminhos assim
que não sei ler

talvez eu nem quisesse ser poeta
a errata correta
um rascunho
minha versão completa
pra começo de conversa
quase não fala comigo

se não tenho ímpeto
eu impesso meu progresso
no regresso ao teus meros
momentos de ilusão

mas qual a melhor verdade
pra vício de saudade
do que sente o coração?

não escolho as cartas
só faço as jogadas
pra começo de conversa
não tenho pressa de ganhar
só vontade de sorrir.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ARTE?

eu tentei salvar
uma mariposa preta e amarela
com a asa esquerda quebrada
numa terça feira de vento
sem sentido

sinto
suas patas na minha mão
e meu esforço quase em vão
como nuvem de verão
que só existe
pra morrer em chuva

e a mariposa batia as asas
fugindo do próprio destino
chorei por dentro e lhe disse:
"você faz parte do infinito"

o acaso soprou seu corpo
voou por todas as flores
do caminho

e se eu não fosse o que sou
e se não estivesse sentindo
o que sinto
talvez teríamos
uma mariposa preta e amarela
a menos no mundo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

E VAI DESCENDO, DESCENDO

e cá estamos novamente
minha boca no seu gosto
e você na minha mente
nadando borboleta
no meu cérebro

uma noite sem você
tem cor de sobriedade
tô viciado na sua tinta
pena que a vida
também exija o cinza

mas cá estamos novamente

um brinde descendente
da alegria favorita
tô caindo contigo
pra baixo do chão
onde as risadas só ecoam
porque há espaço entre a gente

eu abraço sua presença
semi-invisível
e só vejo
o que eu deveria ter feito
antes da minha vontade
ser destilada
aos pingos de saudade
imaginada

mas cá estamos novamente
descendo além do fundo do poço
um do outro
embora eu só conheça
a mim mesmo

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ACÚMULO

tenho muitas lembranças
mofando no peito
sorrisos que nunca mais
lágrimas órfãs que eu poderia
queimar num latão
à luz do dia

algumas memórias eu guardo
numa caixa esquecível
outras boto no lixo
que ninguém recolherá
e fica o acúmulo de tudo
se juntando 
conforme continuo andando
sem pensar em nada
do que as cores das nuvens
no começo de um carnaval

se você ver uma lágrima por aí
se atirando do meu olho
em queda livre
não se preocupe
é só excesso
do que esqueci de colocar
nas calçadas
a gente também chora
quando tá bem

eu 
tô 
bem

tenho muitas lembranças
sobrando nos espaços da minha mente
e um sorriso novo
que comprei
na adega.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

COBERTURA

eu me cobro com uma voz alheia
e melhoro até parecer
que tudo o que me descartei 
fez alguma diferença

limpo a parede coberta de mofo
mas a sujeira
entra num pulmão
e mora no outro

respiro poeira
feita de pele
que nunca me cobriu
olha meu olho que descobriu
que tudo o que vê
foi a mente que pariu

é que nos dias de chuva
fica difícil sair por aí
e se descobrir
naquilo debaixo da ânsia
mas o tempo insiste na mudança
o tempo só existe na mudança

e eu
mudo

como uma sala em silêncio
me cubro
daquela voz que já conheço.

O POEMA MAIS HONESTO

como era a vida antes de eu
beber a primeira dose?

a mesma coisa

o que mudou fui eu

eu era besta
ria com meus primos
de qualquer coisa
a gente entrava numas brisas
que quem olhava de fora
pensava que a gente
tinha se drogado
mas era apenas
besteira
sem compromisso

eu escutava o "Black Total 2006"
e curtia brincar
num programa chamado
"RPG Maker"
tinha uma queda por quem
era "emo"
e eu via minha vida
como se cada dia
fosse um episódio
de uma série

eu não fumava ainda

minha distração era
imaginar situações
assistir clipes na MTV
me apaixonar por quem
não me queria
e fazer amizade
com todas as pessoas da escola
(isso eu consegui)

eu trabalhava na loja dos meus pais
e invejava os outros que 
podiam sair por aí
às três horas da tarde
sem nenhuma responsabilidade

eu estudava numa escola pública 
em Suzano
pegava o trem às seis da manhã
em Guaianases
e era maravilhoso ver o sol nascendo
pela janela
enquanto tocava "Bed" do J. Holiday
e "Sensual Seduction" do Snoop Dog
no meu MP3 player
(só precisava de uma pilha)

quando chegava na esquina
da escola
eu trocava ideia com o pessoal
e mostrava as músicas novas
que eu "descobri"
pro Yakuza
um dos meus melhores amigos

às vezes meus primos e eu
nos imaginávamos
com trinta anos
e nada do que somos hoje
bate com as nossas apostas

eu não era mais feliz antes
mas eu era feliz
com mais facilidade

a vida não mudou
depois da primeira dose
continuou seu rumo 
na mesma frequência de sempre

o que mudou fui eu
mas também nem tanto
eu ainda sou parte 
daquele garoto besta
e a gente ri às vezes
das coisas mais banais

mas sou só eu 
que chora 
de vez em quando

eu
e
a próxima dose

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TALVEZ EU FUME (UM MAÇO VAZIO)

cada fumaça
tem a cor
de um desperdício

talvez eu fume
porque é bonito
um cigarro nos dedos
disfarçando desesperos
invisiveis no meu sorriso

talvez eu fume
só pela espera
de uma hora
em que o tempo
não me pese

talvez eu fume
(e o maço se esvazia)
só pra tragar
novas ideias
de velhos hábitos
da minha mesma única vida

talvez eu fume
pra chamar quem fuma
e num isqueiro só
a gente se entende
pelas bitucas

talvez eu
(o último cigarro)
só queira me apagar
num cinzeiro 
cheio
de não sei o quê

cada fumaça
um pouco de mim
manchando as paredes

talvez eu fume
(um maço vazio)

ENTÃO VOCÊ QUER SER ARTISTA?

o que você achou
que iria acontecer?
aplausos?
medalhas?
você só respirou
com o pulmão da alma
e usou seus átomos
pra descrever
algo que todo mundo vive

você parou por um momento
e nessa pausa
percebeu
a beleza de uma nuvem
se desfazendo em chuva

e daí?

você quer ser artista?

então sangre suas teias
e espere o pouso do acaso

arte é construída
por cima
daquilo que não é belo

artistas não só vivem
como morrem
talvez por um verso
um gesto
uma pincelada

o nada
é a única certeza
veja
quantas canções
você nem conhece

e ainda assim
você quer ser artista?

se em cada gota
daquilo que você cria
não habita
um último grito
de quem grita
seu fim do mundo
então faça outra coisa

arte é um meio
pra quem não tem medo
do fim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EXAGERO (OU POUCA COISA)

daqui até a eternidade
existe um momento
que eu quero contigo

é que meu coração
tá precisando
de uma batida

se hoje for exagero
amanhã meu futuro
fica só no soro

um repouso
costurado
de boas histórias
é o melhor dos descansos
quero deitar minha cabeça
numa memória king size

se a gente perder o agora
que hora tosca
será nossa
se quase todo nosso relógio
já tem outros donos?

daqui até a eternidade
um dia
um pôr do sol
e um sorriso
dessa sua boca
pra mim 
já tá de boa

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

COGUMELO DO TÉDIO

tudo fica meio chato
cheio como
um copo
quase vazio

sair é uma opção
sem botar os pés
pra fora do próprio cérebro
rego uma ideia e a podo
as folhas morrem
igual um segundo
minhas janelas são pinturas
sempre a mesma paisagem

eu disse para alguém
que semi-escutou
eu vou mudar
depois de amanhã
e cá estou
já vivendo ontem

o segundo passo é
ainda mais difícil

esse verão tá com cara de Maio
desmaio na vertigem
das sempre-paredes
cimentadas de ansiedade
acordo nublado
na coragem de quem tem medo

e tudo fica meio chato
amor
com gosto
de "foi bom te conhecer"

ficar em casa é uma opção
botando os pés
em meias verdades
custa muito
um pouco
de felicidade
sorriso no crédito

escolho esperar
desabafando com os cogumelos
que nasceram
nos pensamentos
que reguei demais.

ANO NOVO

fiz promessas
mas os vícios
me cumpriram

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

RECOMEÇO NÃO EXISTE

alguém me disse
que não existe
recomeço
somos consequências
o meio da sentença
mais ou menos
temos
meios
finais

ninguém vem do nada
além daquilo que existe

fui acendido 
por um cigarro
e esse alguém
reprise

nem reencarnado
um cara mal amado
se livra da vida
passada

só se muda a direção
parar é ilusão
recomeço não existe

queimei os dedos
molhei o tempo
com o que havia
no copo

voltei pra casa
por um caminho
diferente.

DESPEDIDA DECIDIDA

mesa molhada de lata suada
manchada como
um para sempre

mente ofegante
derretendo nos mesmos
verões
sem a gente
num caminho diferente
cada passo
a sola
sente

cinzeiro lotado de nada
são cinzas de cada dia
lixo engole filtros
sem nenhum batom

coração batendo vício
equalizando as mesmas
canções
sem a gente

num caminho diferente
cada adeus
um passo
à frente

despedida decidida
arbítrio do que
já estava escrito
pelo acaso

DESMARQUE

meu peito espera
batendo o pé
nas minhas costelas

quantas eras tem
nessas horas?
minhas veias querem
que o futuro
seja agora
de alguma forma
(de qualquer forma)

pra essa noite chegar
existe um dia infinito
no meu caminho
um sol teimoso
e narcisista
não deixa a lua falar
suas poesias

e quando tudo se alinha
os ponteiros em posição
de começo
vem aquele desmarque

a ração favorita dos fantasmas
são as expectativas
dilaceradas

pego um balde fresco de ração
do meu cérebro
e jogo nas calçadas
da minha casa

meu peito dorme
confortável
coberto de nada.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ENAMORADOS

amo a companhia de mim mesmo
clareza vinda
do subsolo emocional

amo a chuva e o sol
resto de nuvem fria
na pele seca quente

amo chorar de alegria
nem sempre lágrima
tem peso
mas gosto quando vem
agridoce

amo sentir sua falta
e te beber na sede
me desidratar no
nosso desejo

amo a vida das folhas mortas
e todo espaço que existe
entre os galhos e o chão

e sim
eu tenho a mim
como a possibilidade
de todas as coisas
porque ser apenas um
dentre tudo o que sou
faz meus olhos rolarem
para dentro.