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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

SONHO DE DESPEDIDA

não sei quanto de nós permanece naquilo que temos. tenho sentido uma saudade distante de algo que não lembro. imagino se neste cobertor usado, esquecido num brechó de bairro, restam os desejos de seu antigo dono. suas insônias, suas lágrimas, suas histórias. talvez reste até a própria morte, grudada entre as costuras, criando ainda mais peso num manto já relativamente pesado. a máquina de lavar quase não aguenta. a água escura que sai de seus canos parece carregar a tinta de um livro inacabado. e apesar do trabalho, do ótimo estado da peça, fico receoso em usá-lo. 

mas hoje o tempo esfria absurdamente. um dia inteiro de garoa fina, insistente. um dia de chá, livro e ausência de cores. e quando a tarde acaba, o vento afia suas lâminas para cortar os rostos noturnos. para piorar, estou com o que parece ser uma gripe extraordinária, volátil, que me faz ser apenas um rascunho do que já fui. e agora que se instala os calafrios, e os lençóis finos já não me aquecem o suficiente, retiro o cobertor usado do meu guarda roupa. com minhas dores musculares, a peça ganha o dobro do peso. 

demoro a pegar no sono. o nariz entupido me força a respirar pela garganta inflamada. a febre é hostil. os pés congelam. mas o abajur começa a distanciar-se. o barulho do boteco da esquina evapora com o sussurrar das nuvens. fico leve. o corpo oco como uma flauta de ossos. ou uma gaveta vazia. fria. como o mês de janeiro em Monterreal. fria, como as mãos de minha esposa e as palavras do doutor. "hicimos lo mejor".

grito e amaldiçoo. meu corpo inteiro se enfurece. um vulcão expelindo lava e fumaça, explodindo com uma brutalidade animalesca. o suor de ódio encharca minha camisa por baixo do moletom e quase tudo vira uma névoa desesperada. mas minha esposa me aquieta e me acolhe, não me acompanha no lamento. vê-la e observá-la, mesmo que nesta situação, é como amanhecer num campo de margaridas. há uma paz no fundo abismal de seus olhos escuros. logo minha raiva se cala. torna-se algo mais triste, uma despedida.

volto a segurar suas mãos. as minhas, enormes, contrastam com os dedos frágeis, a magreza doente do meu amor. seus cabelos negros e compridos perderam o brilho. seu rosto, antes cheio de vida, agora refletia o inverno, uma árvore seca e sem folhas. com um esforço, a voz escala o peito até os lábios rachados, e num brilho, como se o sol daquele poente nascesse em minha esposa, ela me diz:

"acompáñame, este mundo ya no es tuyo".

amanhece em meu quarto, a luz se estreita pela veneziana de madeira. minha febre se foi, como se ontem não tivesse existido. olho para minhas mãos pequenas, esperançosas. sinto uma vontade inexplicável de gente, de amar, de encontrar a beleza na nossa imperfeição. é como se eu tivesse matado uma saudade, descansasse uma memória agridoce.

retiro o cobertor usado de cima do meu corpo. está leve e macio. parece o manto dos anjos, o riso despreocupado de uma criança. ele flutua em seda e descansa amassado na beirada da cama. então caminho rejuvenescido até o banheiro, como se desse novamente meus primeiros passos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

3 x 0

Olhos secos. Mais cinco minutos. A quebrada dá os primeiros bocejos da manhã. Meu teto solta um bom dia e minha rinite traz o café da manhã. Pão de vento e café desidratado descafeinado. 

Prometi que acordaria cedo para tomar a dose de reforço. Menos fila. Menos gente. Quanto mais gente, pior. Poderíamos ter permanecido na água, dentro das estrelas, átomos soltos, livres e selvagens, mas teimamos em ser gente. E agora o mundo acende o cigarro com as próprias chamas. Ainda bem que parei de fumar. 

O inseticida questiona se devo realmente tomar a dose de reforço. Diz que minha garganta anda estranha, que talvez eu esteja com a doença, que talvez o sol exploda às três da tarde. Dou de ombros. Ele insiste, diz que 2 x 0 já tá bom. Respondo que quero ganhar de goleada, que se outros tivessem a sorte de ainda estarem em campo, fariam quantos gols seus corpos aguentassem. "Vamo lá tomar essa porra", eu concluo. 

Há três conjuntos de átomos teimosos na minha frente. Retiro "Crônicas de um amor louco" da bolsa. Não dá pra ler direito. Muito barulho, muita distração, muita ansiedade. 

O saco de átomos da minha frente pede para que eu o filme tomando a vacina com o seu celular. As enfermeiras riem. Eu também dou risada, mas por motivos diferentes. Todo mundo ri da cara de palhaço um do outro. O caos é nosso circo e o universo nos assiste comendo pipoquinha no primeiro assento. 

Tomo a dose, saio com o braço sangrando, a enfermeira me dá dois comprovantes por acidente, uma criança escorrega e derruba uma maca, um carro em alta velocidade atropela um pombo, um casal termina o namoro, outro casal mora na rua, garotas nuas dançam em volta de uma fogueira, Júpiter solta um peido, uma bomba explode na Ucrânia e o jogo continua rolando. 

Ainda não sabemos quantos minutos teremos de acréscimos. 

terça-feira, 6 de julho de 2021

O CONTO

Pimentão. Foi a única coisa que passou pela minha cabeça, e eu ansiava uma ideia nova, algo substancial para escrever um conto que me tirasse da fossa. Aquela volta pelo quarteirão não estava funcionando, então decidi caminhar até a Praça Brasil e no meio do caminho rezei para achar uma carteira recheada no chão. Sem documentos. Se houvesse algum, ficaria com peso na consciência depois de gastar o dinheiro. Até negociei por uma nota de cinquenta, depois baixei para uma de vinte e no final procurava por moedas. Futuquei um papel azul e era só um folheto de lava-rápido. Dez conto a ducha. Joguei fora o papel numa lixeira.

Um carro da PM andou do meu lado e foi reduzindo a velocidade, e eu fiz uma lista mental de tudo o que carregava no bolso, se não havia esquecido uma ponta dentro de um maço ou algo do tipo. Há anos que não fumava um, mas a luz vermelha da sirene te faz pensar até no número do RG de trás pra frente. Talvez quisessem pedir uma informação, saber como chegar na Virgínia Ferni, ou se eu havia visto alguém suspeito. Era improvável. Que merda: eu só queria uma inspiração e seria enquadrado, humilhado à toa, já não bastasse eu ser escritor, pobre e sem ideias. O veículo me ultrapassou e desceu sentido à estação José Bonifácio.

Cheguei na Praça e sentei num banco de concreto, perto de uma delegacia, e comecei a matutar: um homem é preso porque rouba um pimentão num mercado. Mas então um caminhão carregado de cocaína foge em alta velocidade, se choca com a viatura e os dois policiais na frente e o caminhoneiro morrem. O prisioneiro escapa ileso, arrebenta a porta de trás, vai até o banco da frente, encontra a chave das algemas no patê de farda e foge. Ele volta ao mercado e tenta roubar outro pimentão. Fica com medo, deixa o legume com uma das caixas e pede desculpa. Essa era a ideia do conto. Fantástico. Agora só precisava de um bom começo, algo marcante.

“José olhou para os dois lados antes de colocar o pimentão no bolso da jaqueta jeans surrada...”

sexta-feira, 30 de abril de 2021

O TRABALHO

John acordou meio-dia novamente. Abriu a janela do quarto. Tudo cinza. 

"O mundo continua uma bosta". 

Foi mijar. Depois cozinha. Café com leite e pão francês com margarina sabor manteiga. 

"Eu devia começar a comer manteiga de verdade". 

Olhou a pilha de louça acumulada de um dia pro outro. Aquilo era uma metáfora para seu estado mental. Os malditos estavam vencendo a guerra: ter uma vida comum era melhor do que aquilo que John escolhera. Pelo menos era o que parecia. Se tivesse continuado com sua primeira namorada, se não tivesse largado a faculdade e o emprego no centro da cidade, talvez aquela louça não estaria ali. Ou pelo menos ELE não estaria ali. 

"Vou lavar logo essa porra".

Depois de três copos limpos, sentiu três quilos de merda batendo na porta de seu ânus. Correu para o quarto. Não cagava sem ler algo.

"Dessa vez vou de Bukowski".

Aquele cara sabia o que era ser um perdedor como John. Na realidade, ele era o melhor de todos. Exercia miséria com maestria. John escolheu perder, mas ainda não se via um bom perdedor. Todas aquelas fotos no Instagram de gente se amando. Os casais e seus amores tão eternos quanto bitucas no cinzeiro. As vitórias e conquistas nos trampos odiados de segunda-feira... John achava que era uma falta de empatia fodida fingir estar bem nas redes sociais. Por que diabos ninguém nunca falava sua língua? Por que ninguém dizia a verdade? Estava na hora de alguém mandar um "foda-se" à superestimada felicidade. E esse era o trabalho do John: dar voz à quem estava mal, normalizar a tristeza inerente de ser humano. Na realidade, quase ninguém estava bem. Só eram bons mentirosos. 

"Preciso arranjar uma namorada. Preciso foder. Preciso dar um jeito na minha vida. Eu era bem melhor antes. Tinha uma fogueira, uma energia dentro de mim que tornava tudo excitante. Agora não há nada. Nem uma faísca. Tô seguro dentro de casa, sendo comido pelo tempo. Mal consigo dar um oi pra alguém. Me sinto um lixo, uma bosta bem pior do que este tolete que acabei de cagar. Mas não adianta ficar tentando me aprimorar sem antes aceitar o que sinto. Além disso, chega de pensar demais; tenho um trabalho a fazer".

Fechou o livro, limpou a bunda e apertou a descarga. Terminou de lavar a louça. Todo dia John tinha que lavar sua louça. E quase sempre lavava. Hoje ele lavou com um pouco mais de entusiasmo. Ligou o computador e as palavras fluíram. Copo nem meio cheio, nem meio vazio; bebeu direto da garrafa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

FERRO-VELHO

Saí tão puto de casa que botei o maço no bolso e esqueci o isqueiro. O saldo da minha conta digital havia zerado da noite pro dia.

Não cumprimentei ninguém na rua. Apenas carreguei os dois sacos de latinhas até o ferro-velho próximo da minha casa. Um dos sacos escorregou da minha mão e caiu, espalhando um monte de latas amassadas pela calçada. Parei, recolhi uma por uma e segui em frente.

Na porta do ferro-velho, havia um cara com um monte de sacos em sua volta. Cada saco tinha um tipo de lixo diferente: papelão, ferro, alumínio. Suas mãos estavam imundas. A boca portava uns dois, três dentes. O corpo era esquelético. A pele era marcada com tatuagens apagadas e esverdeadas, com traços bruscos, sem acabamento algum. Perguntei se ele estava na fila.

"Não, pode passar na minha frente, tô separando aqui ainda", ele respondeu.

Outro homem vendia umas telas de ferro e pedaços de papelão lá dentro. Ele disse para a funcionária: "o almoço já tá garantido". Ela respondeu que o almoço tava garantido há tempos.

Eu apenas conseguia olhar pro chão e pensar no meu saldo zerado. Saquei um cigarro. O cara do lado de fora veio puxar assunto. Começou:

"Assim eu não dependo de ninguém. Não preciso fazer mal pra ninguém. Puxei 23 anos de cadeia porque matei dois estupradores. Agora eu vivo assim. Se um cabra demora 10 dias pra comprar um chinelo, eu demoro 40. Mas eu compro o chinelo. Isso que importa".

Procurei meu isqueiro nos bolsos. Nada. Ele percebeu. Pegou uma mochila toda esfarrapada.

"Esse bic é do São Paulo, mas eu sou Palmeirense. É que me deram ele".

"Você fuma? Quer um cigarro?", perguntei.

"Não fumo não".

"Eu sou palmeirense, mas às vezes torço pro São Paulo também".

"Ah é? Então pode ficar com esse bic pra você. É seu!"

Eu não precisava. Ele insistiu e insistiu. Eu tinha um lá em casa e expliquei isto para ele, que sorriu e pegou o isqueiro de volta.

Chegou a minha vez de vender as latas. Perguntei se ele queria passar primeiro. Ele respondeu que não, estava sem pressa.

As latas somaram 18 reais. Cumprimentei o cara com um soquinho. Não perguntei seu nome, nem ele o meu. Quando cheguei em casa, meu saldo continuava zerado. Mas, de alguma forma, aquilo já não me aborrecia tanto.

Era uma pessoa diferente daquela que saiu de casa mais cedo.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

AMA

Pálpebra inchada e dolorida. A moça da recepção diz que só há um médico atendendo. Olho para trás e vejo mais de trinta almas esquentando os bancos com suas bundas e doenças.

Esse tom robótico do sistema público de saúde é um exercício de humildade; você não é especial. Nessa claustrofobia há perrengues maiores e menores do que o seu. Aguarde seu nome ser chamado. Pode se sentar. Tento soltar uma piadinha mas é como fazer cócegas na argila.

Há um mercado aqui perto. As chances de um antibiótico ser receitado são altas. Vou beber uma última cervejinha. Escolho o latão de meio-litro e bebo como uma dose de cachaça. Os enfermeiros me olham e me invejam. Eu sei disso. Sinto nos folículos da minha pele. Pois eu também os invejo: toda profissão é útil mas só a deles é reconhecida. Ninguém agradece o pessoal da limpeza. Há lendas de que eles nem existem, mas eu vi um deles certa vez e era uma moça que escrevia poesia. Invisibilidade dupla.

Reparo nas árvores do lado de fora e nos gritos de indignação lá dentro. Coqueiros que lembram a praia e indiferença que remete o inferno. Termino o latão. Enfio, penetro, arregaço meus ouvidos com fones de ouvido e boto um indie pra tocar. Não dá pra reclamar mais baixo não? Você está estragando meus privilégios. Suas queixas não estão no ritmo certo.

Nenhum nome é chamado e o time de enfermos em nada muda. O relógio da parede está até tonto. Resolvo ir embora. Há dias em que não adianta forçar.

Na manhã seguinte, a moça da recepção pergunta o que tenho. "Vou te responder apenas com um olhar". Tiro os óculos escuros e ela dá risada. Minha pálpebra esquerda dobrou de tamanho. Perco a singela simetria facial. Entretanto aquela risada me embelezou de alguma forma. Gosto de ser palhaço. Gosto de ser o tolo, mas isso é assunto para outro momento.

Oito bundas desta vez, e vários médicos ao invés de um só. Foi rapidinho. Uma pomada e compressas de água quente. Beijo, tchau, obrigado, bom serviço. Passo na farmácia do posto e consigo a pomada de graça. O farmacêutico é um amor.  O sistema público de saúde às vezes funciona. Há dias em que não precisa forçar.

Volto para casa mais lindo, tranquilo e humilde.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

BEBENDO UMA COM O PAPAI NOEL

Numa laje aqui da quebrada, abro a terceira lata. Noel está na quinta.
- Sabe - digo a ele, - eu gosto do Natal. Não da ideia em si, mas do jeito que as pessoas ficam nessa época do ano.
- Tudo falso - Noel responde.
- É, mas funciona. Muita gente faz coisa boa pros outros. Esse "espírito natalino" salva muitas vidas. É uma pena que só acontece uma vez por ano.
- Vocês humanos tem uma capacidade limitada para bondade.
Encosto na muretinha onde Noel olha para o infinito da Cohab.
- Ou é que nem mijo - ele continua. - Vocês enchem o caneco de maldade o ano inteiro e aí dão aquela mijada boa no Natal.
- E onde que isso é bom?
- Não é que seja bom; é só o contrário do mal.
- Então a gente não mija, a gente vomita...
Papai Noel me dá um tapa na cabeça. Cuspo a cerveja que eu estava prestes a engolir.
- Caralho, moleque maldito! - ele esbraveja - Você tem a chance de tomar um goró com a porra do Papai Noel e fica aí cheio das filosofias, me contrariando e enchendo o saco!
- Foi Deus quem me deu o dom de pensar. Reclama com ele!
- No niver dele? Tá doidão? Quer que eu perca meu emprego?
- Você é CLT ou PJ?
 O rosto dele fica vermelho igual a sua regata. Seus olhos azuis-padrão-europeu perfuram os meus cor de pomba rola.
- PJ - ele resmunga, virando o resto da latinha e derramando um pouco na sua barba branca.
Pego mais duas latas dentro da caixa de isopor (poliestireno, desculpa). O gelo quase que queima minhas mãos. Esfrego uma das latas na minha nuca. Que calor do inferno!
- Vamos virar essas daqui - Noel propõem. - Pega minha faca ali na mesa.
Entrego a faca para ele, que abre um pequeno quadrado na parte mais baixa da lateral da lata. Então ele faz a mesma coisa com a minha e diz para botar minha boca no orifício e abrir o lacre.
A pressão faz com que toda a cerveja saia de uma vez pela abertura da lateral, atingindo meu fígado diretamente. Na metade da lata, desisto e jogo tudo no chão. Papai Noel atira o container de alumínio vazio na minha quebrada.
- Eu ia te pedir um presente - digo meio que enrolando a língua, - mas agora eu esqueci o que eu queria!
- Você tá vivo, seu bosta. Esse é meu presente.
- Mas é ruim, eu não sei viver!
- Se eu te desse um Iphone você aprenderia a mexer nele ou jogaria fora?
- Bem, eu jog...
- É RETÓRICA, SEU IMBECIL! É CLARO QUE VOCÊ APRENDERIA!
- Ah...
- É a mesma coisa com a vida. Não vem reclamar que você não sabe mexer no presente que eu te dei. Aprende, ué! Se vira!
Olho para o horizonte e vejo todos os aplicativos que posso usar. Não entendo nem a metade das suas funções, dos "porquês", dos "comos". A programação da vida é um grande Iphone importado que você dá para o seu Zé da esquina, que tem 85 anos e ainda escuta música no seu radinho de pilha.
- Vou embora, dar aquela trepada com a Mamãe Noel. Vou enfiar minha rena vermelha no trenó molhado dela! Ho, ho, ho!
- Deus me livre de ver essa cena - respondo, observando que ele já está botando suas tralhas pra dentro do trenó. - Ei! Espera aí! Você não tá bêbado demais pra conduzir o trenó não?
- É a magia do Natal, garoto - ele diz, subindo no trenó remendado e chicoteando as renas desnutridas, - o paizinho aqui aguenta fazer tudo ao mesmo tempo!
Uma das renas caga no chão. O veículo decola. Uma pomba passa na frente dele e é decapitada na hora. Entre as penas negras da ave extinta, Papai Noel grita:
- FELIZ NATAL! HO, HO, HO!

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

EMPRÉSTIMO

Jonas e Orlando estavam sentados na sala de jantar. Orlando fumava um cigarro.
- Quer uma água, alguma coisa? - ele perguntou.
- Eu não sei... eu não sei...
- Peraí que eu vou buscar uma bebida pra você...
Orlando se levantou e foi até a sala para buscar uma garrafa de uísque. Atravessou a mesa, alcançou o armário da cozinha e arranjou dois copos. Ele os botou na mesa e serviu uma dose pra cada, dizendo:
- Bebe aí, amigão. É nóis!
Jonas agarrou o copo e deu uma degustada.
- Cara - ele disse, - eu precisava muito dessa grana. Por favor, mano! Me arranja essa grana!
Orlando bebeu quase o copo inteiro em silêncio. Olhou para o copo, para a mesa e suspirou lentamente, dizendo:
- Eu não posso, cara...
- É um dinheiro besta - Jonas retrucou. - É troco de pinga, mano! Me arranja essa grana aê, por favor!
- Eu não tenho nada, eu juro pra você! Se eu tivesse, você sabe que eu te daria, sem dúvida nenhuma! Eu entendo a situação e...
Jonas tomou mais uma dose do copo, sem tirar os olhos do rosto de Orlando. Deixou o copo sobre a mesa de madeira. Fez um barulho estranho com os lábios enquanto balançava a cabeça para cima e para baixo, como se estivesse engulindo os termos amargos da negociação.
Orlando começou a chorar desesperadamente. Bateu as duas palmas sobre a mesa e gritou:
-VOCÊ ME CONHECE! VOCÊ SABE QUE EU NÃO POSSO!
-Por favor, cara - Jonas disse, mantendo o contanto visual. - Pelo menos metade do que preciso. É só o que eu te peço...
- NÃO DÁ! NÃO DÁ! MINHA MULHER JÁ FOI EMBORA DAQUI, PORRA! LEVOU MEU FILHO E O CARRO! JÁ PEDI DINHEIRO EMPRESTADO PRA TODO MUNDO E...
Jonas passava o dedo indicador sobre a borda do seu copo em movimentos circulares. Suas pernas cruzadas não paravam de balançar. Ele olhou para Orlando. Encarou aquela face suja de lágrimas. Apertou os lábios e cerrou os olhos lentamente, como se dissesse "não tenho escolha". Virou sua cabeça para a janela da sala, onde dois homens o aguardavam. Fez um sinal para que entrassem. Orlando levantou abruptamente da cadeira e se atirou de joelhos à Jonas, implorando para que não fizesse aquilo. Os dois homens entraram, cada um armado de pistolas 9mm.
Os 8 tiros foram certeiros, atingindo somente a cabeça e o rosto de Orlando. Jonas levantou de sua cadeira, sujo de sangue. Olhou para os dois homens e disse:
- Da próxima vez, espera tá longe de mim, tá?
Os dois homens se desculparam.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

JOSÉ CHUVOSO

    Ele tinha um boteco no meio da quebrada e um bigode que cultivava há 50 anos. Os pelos começaram aos 16 anos e as bebidas aos 12. Ninguém sabe o motivo dele ter aberto um bar. Talvez fosse o sonho dele. Talvez ele teve sorte ao experimentar a cachaça do pai abusivo quando criança. Ele tomou um copo daquilo e deve ter pensado "é esse o meu sonho".
    José morava no andar de cima do bar. E por 20 anos, ele abria as portas de segunda à segunda, no final da tarde. Sua clientela era fiel. Não muito boa em pagar suas dívidas, mas pelo menos ela estava lá toda sexta-feira. Alguns batiam o cartão até de segunda.
    - Vê uma com limão aê, Bigode - um dos clientes falava para José, pedindo para que pendurasse na conta aquela dose.
    Não ganhava muita grana, mas pelo menos ele dava umas risadas com as filosofias de seus clientes. Tinha gente que dizia que era militar, que um dia usaria o rifle guardado em casa para atirar na polícia. Outros estavam na condicional, esquentando a garganta para mais um corre na Zona Leste. E ninguém mexia com o José; ele guardava uma peixeira de 70cm atrás do balcão, e diziam que ela já tinha sido usada algumas vezes no passado, logo quando o estabelecimento foi aberto. Talvez o povo falasse demais, não é mesmo?
    Mas teve uma semana diferente. Estava chovendo. Nada muito torrencial, apenas uma garoa persistente, chata, melancólica. Gotas tristes que caíam sobre as telhas de amianto do bar. José sentou em sua poltrona judiada e ligou a televisão de 14 polegadas. Estava passando aqueles noticiários sensacionalistas. Ele se virou e olhou pela janela; estava tudo tão cinza quanto uma lâmina. Decidiu que não abriria o bar. Estava de saco cheio daquilo. Beirando os setenta, estava na hora de sentar e relaxar.
    Bateram na sua porta.
    - Porra Bigode! Vai abrir hoje não? - disse uma das mulheres que vinha toda segunda.
    Não, ele não iria abrir.
    - Me vende uma barrigudinha aê. Eu pago pra você dia vinte...
    Não, ele não iria vender mais fiado.
    - Porra Bigode, mó vacilo! Eu sempre te pago, caralho!
    Não, ela não pagava. Mas havia um jeito. José sabia que era solitário. Sua mulher havia falecido há uns dois anos. Ele disse que dava a barrigudinha se ela desse o cu para ele.
    - QUÊ? TÁ MALUCO, BIGODE?
    Só o cuzinho, porra.
    - Mano... - ela disse, olhando para um lado e para o outro. - Sê é maluco, cara. Cê tá chapando...
    Iria ser rápido. Ela subia, tirava a roupa, deitava na cama de molas com um colchão rasgado e ficava de quatro. Era só isso e a barrigudinha seria dela.
    - Aí, eu até faço isso, mas só se for por três barrigudinhas...
    José concordou e abriu a porta para ela. Eles subiram e ela tirou sua blusinha verde-neon e sua calça jeans cheia de brilhos. Deixou os brincos rosas e o rabo de cavalo ressecado do jeito que estavam. Deitou de bruços na cama e disse para o Bigode ir logo. O corpo dela estava gasto e caído. Ela tinha cicatrizes nas costas e na cintura, e pelos. Muitos pelos. José não se incomodou. Abaixou as calças e cuspiu no pau. Nada de vaselina; ia ser no cuspe mesmo. O colchão fazia um "nhec, nhec, nhec" meio desafinado. E depois de alguns tapas e de alguns apertões, José gozou. Era tanta porra que ele parecia chuva. As gotas caíram desde a bunda dela até a nuca.
    - Tava carregado, heim? - ela disse, indo pro banheiro.
    José desceu e pegou três barrigudinhas. Botou numa sacola qualquer. Ela desceu e pegou a sacola.
    - Me arranja um Eight aí, Bigode?
    Ele pegou um maço e deu dois cigarros para ela.
    - Valeu!
    O bar permaneceu fechado durante toda a madrugada de segunda para terça.
                       
    O nome dela era Valéria. Ela tinha um caso com um cara qualquer da quebrada, um sem muita importância. Ela começou a frequentar o bar com mais frequência, antes do horário de abrir. José e Valéria repetiam a dose todas as segundas, e algumas vezes de quarta e de domingo. Até que José se cansou de pagar cu com cachaça.
    - Vai se foder então, seu arrombado do caralho! Cê tá fodido! - ela gritou, batendo na porta de aço antes de ir embora.
    José subiu, abriu uma gaveta do armário da sala, tirou um saco lá de dentro e espalhou o conteúdo em cima da mesinha entre a poltrona e a TV. Pegou um cartão e fez uma carreira. Mandou pra dentro. Estava tudo bem agora; aquela puta não podia fazer nada. E se ela viesse, tinha a peixeira atrás do balcão. Um facão enorme e recém afiado.
    Ele desceu e serviu uma dose de Velho Barreiro. Depois outra. E então mais uma antes de levantar as portas do bar.

    Chovia naquela terça-feira. Estava dando a hora de abrir o bar, mas José decidiu deixar pra lá. Bateram na sua porta. Era um cliente, um magricela beirando os quarenta.
    - Aê Bigode! Num vai trabalhar não?
    José perguntou o que ele queria.
    - Mano, é o seguinte; eu fui ali na viela, na praça e em todas as bocas. Tá tudo fechado, mano! E eu tô louco pra dar um tiro, parça! Me arranja um pouco aê? Te dou dez conto mano, até vinte se for preciso.
    José olhou para o pré-cadáver em sua frente. A criatura estava mesmo desesperada. José subiu, colocou um pouco do pó dentro de outro saquinho e entregou pro homem. Cobrou vinte.
    - Porra mano, só por isso daqui? Cê tá doido?
    Era pegar ou largar.
    - Caralho, assim cê quebra minhas pernas. Toma aí essa porra - o homem disse, entregando duas notas de dez de uma forma estranhamente lenta.
    Antes que José pudesse fechar a porta, dois civis saíram de um carro parado próximo ao bar e vieram abordá-lo. O magricela saiu correndo.
    - É flagrante, Bigode. Cê vai pra DP - um dos civis disse. - A não ser que...
    O suor escorria da testa de José.
    - A não ser que você queira resolver isso de outra forma - continuou o policial. - Cê sabe como resolver, né?
    José perguntou quanto.
    - Não é "quanto"; é "o quê".
    - Cê vai dar o cuzinho pra gente - disse o outro policial. - Agora. Ou a gente vai até a DP. É aqui pertinho...
    José perguntou, gritou, esmurrou a parede, insistiu em dar grana. Não havia jeito; ou era isso ou era a cadeia. Deixou que os policiais entrassem. José ainda tentou persuadi-los, mas eles estavam decididos. José deitou de bruços na cama depois de abaixar as calças.
    - Fica de quatro, porra - um dos policiais falou, abaixando as calças e cuspindo no pau.
    Os policiais se revezavam. Um deles ficava repetindo "E agora, José? Heim? E agora?".
    José virou a cabeça e olhou a janela; a chuva tinha ficado mais forte.

    Valéria não foi mais vista naquela região.

   
     

sábado, 20 de maio de 2017

DESINTERESSE

Você é desinteressante enquanto eu não enxergar arte em você. E não é só contigo; todo mundo é um saco de tédio na superfície. Veja bem, eu não estou louvando os artistas. Tem muito Zé-poeta por aí que é tão fascinante quanto a merda que eu deixei na privada hoje de manhã.

Sério, não puxe assunto comigo para saber onde estudei, onde moro, o que eu gosto de escutar. Pois eu não quero saber disso sobre você. Eu quero você andando na calçada, com pressa, pensando se trancou a porta de casa antes de sair. Eu quero você em um sofá de couro, fumando um provável último cigarro. Eu quero a sola do seu tênis entrando em uma biqueira.

Não me coloque numa conversa fútil; apenas deixe eu escutar seu sotaque de outro estado, seus lábios encostando num copo mal-lavado, seu olhar triste e cansado analisando meu rosto.

O que eu quero deste mundo não é físico. Isso é apenas sobrevivência, como almoçar fora ou fumar um palheiro. Não, isso é besteira. O que realmente me atinge é quando eu escuto "When the Levee Breaks" às 4 horas da manhã, depois de transar comigo mesmo. E eu sento na cama e percebo meu desinteresse com a rotina, com o papo furado, com suas realizações. O solo de gaita ecoa dentro de mim. Sinto os pêlos do meu braço se erguerem. Estou assumindo o meu "eu" que está pouco se fodendo pra você ou para o que você deseja de mim.

Não é que eu te queira mal; sou incapaz de prejudicar alguém conscientemente. Quando eu prejudico, é por simples acaso. Então não se preocupe. Só me mostre um pouco de essência para eu transformar este momento em uma pintura.

É só assim que funciono. É só assim que eu fico realmente de bem com a vida.

Todo o resto é atuação.

sábado, 8 de abril de 2017

O INSETO QUE AMEI

Sabe essa mosca que você não tem certeza se é realmente uma mosca ou uma abelha? Pois bem, eu estava pensando no que escrever quando avistei uma criatura dessas tentando entrar pela janela do meu quarto. Minha janela tem uma tela de ferro improvisada para impedir que os gatos invadam meu quarto durante a tarde. Vou chamar a mosca de Isabela, só pra facilitar.

Ela parecia perigosa, e eu fiquei assustado com as suas intenções. Por sorte eu fumava um cigarro roubado; barofei em cima dela, para afungentá-la. Mas a Isabela simplesmente pousou na tela da janela e ficou alí, tragando o cigarro junto comigo. Não havia inseticida, então tive de improvisar. Borrifei o pior dos meus perfumes, mas ela não se mexeu. Tirei minha camiseta e bati na tela; a Isabela apenas se esquivou e voltou para onde estava. Maldita insistência!

Tentei, em um ato desesperado, jogar minha cerveja em cima dela, o que foi inútil. Parecia até que ela estava gostando daquilo. Ela gostou do meu cigarro, do meu perfume e da minha cerveja; isso já era muito mais do que a última pessoa que eu tentei conquistar. Quando vi, eu não queria mais que ela fosse embora. A gente tinha os mesmos gostos, a mesma esperança miserável.

Perguntei como ela estava e ela respondeu que tudo caminhava bem. Demos boas risadas. Ela me ajudou com este texto, e com diversos outros. Minha doce Isabela tinha asas mas escolheu pousar em mim. E eu a amei por isso. Minha solidão gostou da solidão dela.

Foi então que uma outra mosca apareceu. Acho que era um zangão. Ele era bem maior do que a Isabela, mas quase idêntico. Ele pousou na tela da janela, ao lado da minha mosca. Ela olhou para mim, bateu as asas e apontou seu pseudo-ferrão pro meu rosto. Estava brava com o que eu era, com a minha indecência, com a babaquice, com o meu amor.

O zangão a levou para longe, para outro estado; da Isabela só restaram os textos e as lembranças de um afeto...e...

Merda! Eu não consigo concluir essa história!

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

PERFUME

Sua calça estava guardada num destes lugares improvisados (uma caixa de papelão). Com apenas duas peças no arsenal, deixou a que mais usara em um canto para lavar depois. Era hora de usar uma calça diferente da que ele tinha usado nestas duas últimas semanas. Vestiu-a. Estava com um cheiro peculiar, um cheiro nem de mofo e nem de roupa limpa; parecia plástico velho, não muito agradável aos sentidos. Pensou em borrifar seu desodorante corporal por cima dela, só para disfarçar, mas desodorantes custavam muito. "Que se foda", pensou, e foi até seu computador observar a vida dos seus seiscentos e poucos amigos. Não era interessante, nada que o fizesse esboçar um sorriso ou que o fizesse esquecer dos próprios temores. Na realidade, esse hábito acentuava suas inseguranças. Tanto que decidiu fazer companhia à um cigarro de quinta. Um que soltava mais fumaça do que o normal (logo seu quarto virou uma névoa tóxica). "Qual cheiro é melhor?", indagou a si mesmo, "o cheiro da minha calça ou o cheiro do cigarro?".
Como se fosse um incensso, ele decidiu usar seu cigarro para perfumar sua roupa. Um cheiro memorável, original; todos que sentissem cheiro de nicotina saberiam que ele estava por perto. Uma forma genial de deixar sua marca no mundo. Melhor do que escrever. Melhor do que ser famoso, salvar vidas (e a própria vida), ser alguém para os outros. Simplesmente ser um cinzeiro ambulante, um apanhado de lamentações que se vê no meio de outras criaturas insatisfeitas.
Uma fina garoa começou a cair, e da janela ele pode observar a calçada e o asfalto se umedecendo aos poucos.

domingo, 21 de agosto de 2016

DOPADO

Eu conheci uma garota e agora eu estou dopado por causa dela. Dizem que os bons escritores são bons em viver, mas algumas situações simplesmente te bloqueiam. Como escrever se cada letra me lembra o rosto dela? As silhuetas são poesias como a fumaça do meu cigarro sobre a chuva. Eu estou de boca aberta e minha vida parece um filme noir. Escuto Chet Baker, Charlie Parker, imaginando a rua uma grande Nova Iorque. Não, New York.

Começou quando eu tinha problemas, e ela também, e nossos problemas se gostaram. Tudo por causa de alguns olhares trocados num vagão frio do centro da cidade. Eu tava na merda. Não queria falar com ninguém. Mas ela me olhou, e isso me causou medo e arrepio e ao mesmo tempo uma esperança de que as coisas mudariam. Entreguei um de meus poemas eróticos para ela e a convidei para uma cerveja. Ela aceitou, e eu esbocei um sorriso de verdade.

Na chuva, dividimos a sombrinha dela. Eu odeio ter de desviar das pessoas na rua, odeio as pessoas na rua, mas ela começou a dançar com seu vestido florido e seus cabelos curtos alaranjados, e eu nem sequer pensei sobre o mal que nos habita. Babando em alguns cigarros, pedi um litrão. Ela não bebe. Só está alí porque eu a convidei e ela é uma boa louca. Uma criatura rara que você só encontra uma vez na vida (uma criatura rara e que existe, não essa merda virtual dos dias modernos).

Seus olhos mudavam à medida em que nos abríamos. É bom conversar sobre coisas tristes, sobre nossos pais e nossos medos. Sobre tudo o que odiamos, e o nosso ódio se combina majestosamente. Ó, minha rainha! Poderia ficar a noite inteira só olhando para seus lábios, desejando chupá-los até extrair o melhor de você. Poderia ficar uma vida escorado ao seu lado, vendendo meus poemas e ansiando nossa ansiedade. E suas pernas! Ah, suas pernas! Me dê um pouco delas! Seu vestido florido levanta às vezes, e eu não consigo desviar o olhar. Ela também não fuma e recusa meu cigarro. Estamos mais próximos agora, física e espiritualmente, embora não acreditemos em espírito. Mas há algo além, algo que nos faz olhar dentro de nossos olhos por um minuto, e os olhos delas adquirem um tom de mel, e eu lasco-lhe um beijo sedento. Seus lábios se encaixam perfeitamente aos meus, como um quebra-cabeças de 500 peças.

Nos escondemos num canto da cidade e, por algumas horas, nos amamos. Talvez não seja amor da forma que todos conheçam, mas na realidade ninguém conhece o amor. Só nós dois conhecíamos naquele instante, e somente naquele instante queimamos como todo ser humano deve queimar em sua vida. O fogo é tão grande que incendeia os prédios e os lençóis e o rosto murcho da depressão. Em pouco tempo, sabemos a cor da nossa alma.

Depois da chuva cessar um pouco, nos separamos. Cada um volta para o seu canto, e eu não consigo pensar em mais nada. O nariz dela, a orelha, a boca, o sorriso, os cílios, os joelhos, as mãos pequenas, as mãos dela analisando as minhas e todos os detalhes vividos entre um beijo e outro, entre uma pílula e outra engolidas à seco.

Me sinto dopado. E não só sinto; estou. Tenho pouco tempo de vida. A medicação já não faz mais efeito. Meu coração apodrece à cada segundo, e não há mais um poema para escrever. Bem que me disseram para maneirar, mas isso aconteceria de qualquer jeito mesmo. E ela vem, a doce morte, beijar meus lábios novamente, como os franceses chamam: La petite mort.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O PALCO

Somos todos personagens de um filme ruim. Não tem final feliz. Não tem música de fundo. Não há beijos ritmados e nem um vilão que vira mocinho. Fazemos nossa parte, falamos nossas falas e voltamos para nossos trailers sujos. Trailers feitos de todas as decepções pregadas com nossas feridas. Não tem como escapar; apenas dormir e atuar no dia seguinte.

Não existe um roteiro e nem um diretor. É tudo improvisado, no caótico set das calçadas sujas. Você vai conhecer um puto ou outro que até dá um parecer que as coisas mudarão. Mas você sabe qual o papel dele. E você aplaudirá todos os seus erros e vexames, olhando para seu reflexo mórbido no espelho sujo do seu quarto minúsculo.

E o show tem que continuar. Luz, câmera e um trago num cigarro de quinta. Agora tudo está claro; muita merda para todos. Nós não limpamos a frente dos nossos teatros e cinemas. Deixamos que o lixo se acumulasse. E as moscas...

Às vezes esquecemos nosso personagem. Quem devemos ser? O que temos de dizer? Então uma propaganda atrás das cortinas te sussurra: "beba Coca, use Nike, compre Samsung".

Bem, está tudo ok agora.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

UM CONTO DAS COISAS

  Ele era um cara interessante. Cansou-se da mesmice, pôs os pés na estrada. Sem passagem de ida e muito menos de volta. Passou por aí, por lá, por aqui e por onde fosse. Viu gente, viu tantas coisas que enciclopédias sentiam inveja dele.
  Voltou numa sexta-feira. Bebemos em um barzinho, em um centro qualquer de uma cidade qualquer.
  - Eu vivi, meu amigo – ele começou. – eu acho que aproveitei tudo o que tinha pra aproveitar nessa vida. Poderia morrer agora!
  - Sério?
  - Nunca estive tão certo disso. Eu vi o sol nascer na neve, no deserto, nas praias e nos prédios. Vi vulcões, tornados, tempestades e terremotos. Conheci todas as religiões, todas as culturas. Não há mais nada para ver aqui.
  Pedimos outra garrafa de cerveja. Custava sete reais.
  - Eu queria ter sua coragem, cara – eu disse.
  - Não é questão de coragem; é de necessidade. Eu aproveitei a vida.
  - Parabéns, amigo. Estou orgulhoso.
  Bebemos mais um pouco. Ele pediu um cigarro meu. Custava sete reais o maço.
  - Eu vi tanta coisa, amigo – ele confessou – mas ainda não entendi o propósito da vida. Tantas religiões diferentes, pregando coisas diferentes, motivações diferentes... Não sei se tenho que lutar, se tenho que orar, se tenho que amadurecer o espírito...
  - Você tem que me passar o isqueiro...
  Ele passou. Acendi meu cigarro.
  - Tantas coisas eu vi. Vi a morte, o amor, a escravidão, a fome, compaixão. O que é certo? O que é errado?
  - Errado é você acender o cigarro do lado contrário...
  Olhou para o filtro que queimava e soltava um cheiro de papel higiênico queimado.
  - É tudo tão complexo, tudo tão complicado e tão vasto. Acho que a vida não cabe em mim. E quando eu paro para pensar na minha viagem, sinto que, no fundo, ainda não estou completo.
  Não prestei atenção no que ele estava dizendo porque uma ruiva bunduda e tatuada passou olhando para mim. Essas oportunidades de flerte JAMAIS devem ser desperdiçadas.
  - O que você disse? – perguntei.
  Ele ficou me olhando com cara de bosta. Era tão infinito, mas ainda assim era um homem, que morreria (com sorte) aos oitenta anos. Ele mijava, cagava, andava e falava. Tinha dedos, unhas, pelos no nariz e na bunda. Era tão humano quanto eu, não importava o que ele fizesse. Estava vulnerável às mesmas coisas que eu. Os outros o viam como uma divindade; eu o via como um cara interessante, que viajou o mundo e viu coisas.
  - Sinto inveja de você – ele contou – você é tão simples.
  - A vida é simples. Você vive e morre e faz coisas no meio. Pronto. Quer mais uma cerveja?
  Pedimos mais uma garrafa. Essa ele pagou; custava sete reais.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ALGUM MOMENTO NOSSO

Ele estava tão bem que mal conseguia apagar o cigarro. Tirou o próprio tênis e matou a bituca como se fosse uma barata perdida. “Morre, desgraçado! Morre!”, repetira roucamente com voz de doido. Eu balançava o seu ombro, gritando para ele parar de ser retardado, conseguindo (de forma muito a desejar) segurar a gargalhada iminente. Nós tínhamos apenas uma noite à mais, com uns punhados de sorrisos e umas doses de conversas profundas sobre a vida. 300 ml de vinho e 200 ml de uísque. Uma cerveja que mornava em qualquer canto junto à um violão que gritaria a trilha sonora daquela noite.

“Toca Legião”, alguém sugeriu. Era sempre Legião. E então todos uivaram (uns mais afinados que outros) sobre o que foi escondido e o que foi prometido.

Este momento eu nunca esquecerei. Talvez porque ali, naquela loucura, as coisas faziam sentido.

domingo, 18 de outubro de 2015

APROVEITE ATÉ OS DOMINGOS

O dia se esfolou numa garoa fina, daquelas que gelam as espinhas preguiçosas. O calendário do celular (modelo novo, coisa cara) marcava um domingo. David esticou-se na cama, os olhos grudaram por tempo seco. Sentiu, olhando para o cinza da janela, que seria um feriado de ócio. Há tempos David não vivia. Seu diário (um pequeno caderno de capa vermelha) era tão cheio de anotações quanto um cadáver é cheio de vida. Tentou escrever algo, mas de nada tinha para pensar; quanto menos para escrever. Anotou "Foda-se" caoticamente pela folha, com traços agressivos e um tom suicida, rasgando um pouco a página. Ouvira numa música que devemos nos perder às vezes. E ele amargava por isso ansiosamente. Sair pela estrada, num clipe de uma música alegre, sendo quem ele gostaria de ser, vendo cores pela paisagem vazia. O sol brilharia para ele levantar os braços e gritar que conseguiu o que queria.
Estava sentindo dores no peito há alguns dias. David morrera ontem.

domingo, 20 de setembro de 2015

UM BRINDE

A vida é mais tragável quando você bebe. A janela do meu quarto ganhou um tom de carvalho. E eu gostava daquilo. Antes era marrom merda. Agora era carvalho.

A cama, bagunçada, ganhava um ar poético. “Na minha cama deixo minhas bagunças”, ou “bagunçaram minha cama e foi bom”, ou qualquer frase do gênero.

E dá-lhe whisky. Bebemos para saborear e bebemos para enlouquecer. Eu me sentia muito bem quando fazia os dois ao mesmo tempo. Começava com leves tragos: “bom whisky!”, eu pensava sobre aquela garrafa de 10 reais. E ia beijando o copo de pouquinho em pouquinho, como o corpo de uma mulher. Quando eu percebia que a vida é triste, o corpo de mulher se transformava em remédio. E quando a garrafa estava quase acabando, eu me dava conta que a janela tinha mudado de cor.

UM CÃO


Começou a tarde fuçando no lixo daquele mercado descendo a rua. Encontrou algumas frutas. Estavam ótimas: sem mau-cheiro, machucados ou partes podres. Após comê-las, seguiu rumo ao mundo.

A tarde, então, ficou vazia. E ele olhava o pouco povo caminhar em suas linhas (estreitas), sem entortar o olhar para sí. Um outro, de bom coração, deixou-lhe os restos de uma marmita. Havia arroz, batatas e cenouras cozidas. Agradeceu ao bom moço da maneira que pode. Afinal, era só mais um cão que bebia cachaça e mijava no próprio corpo para não morrer nas frias noites de Junho. E assim, sem mais, o moço se foi, sumindo no emaranhado de esquinas. E o cão, de destino traçado, sentiu um aperto no peito após a generosa refeição.

Deste dia em diante, ninguém mais viu (nem fingiu que não viu) o cão que virava latas em trocados.