terça-feira, 17 de março de 2026

ÁLCOOL, CIGARRO E QUALQUER OUTRO VÍCIO QUE MINTA

não sou tão especial
quanto sua expectativa
nem sou a minha
busco no fosso para achá-la
e a bebo
num copo futuro-cinzeiro

quem me quiser por inteiro
vai ter que me descobrir
primeiro
e depois me explicar
o que viu
debaixo dos meus traumas
debaixo dos escombros
debaixo do tapete

tô buscando amor
ou
qualquer outro vício
que minta pra mim
tô buscando paz
na gilete afiada
na contradição
da própria raiva
que pinta os azulejos
de vermelho

não sou tão especial
e nem você
mas a gente podia
viver uma noite
que não virasse ronco
se não devêssemos mais nada
para a ressaca

quem tem a ousadia 
de ver a própria cara
num espelho de alguns dias?

um brinde 
um trago 
um afago

a gente se afoga
num mar de dúvidas
num rio de dívidas
numa poça de lágrimas
mal choradas
e todos tem seus próprios 
Titanics invencíveis
enferrujando
no abismo de suas almas

e eu volto pro cinzeiro futuro-copo
seu presente-corpo
faz feliz minha cama-passada
com lençóis esburacados
de cigarros mal fumados
carentes de certos lábios
que não gasto saliva
para lembrá-los.

não sou tão especial
e nenhum de nós também é
então sejamos comuns
até que se sinta
no álcool, no cigarro
e em qualquer outro vício
que minta;

um pouco dessa vontade
de se viver
infinita.

terça-feira, 10 de março de 2026

JOVEM ADULTO

eu não tenho 33 anos
tenho
vinte e treze

é que eu já tive trinta
trinta e um
e minha idade não me coube

então voltei pros vinte
e vou ficar aqui por um
bom tempo

sonhar é mais fácil
entusiasmo é como respirar
paixão vem só com um olhar
ridículo faz parte
da liberdade
entender o mundo
é apenas vivê-lo
e chorar
numa noite de despedida
tem trilha sonora
e um roteiro escrito
pelo desconhecido

quem tem trinta já conhece
já se esquece
já se esqueceu

quem tem trinta chora
de nervoso
de falta de dinheiro no bolso
de cinza do meio-dia
e eco da casa vazia

quem tem trinta
trinca o próprio espelho
bota desejo 
debaixo de uma rigidez amarga
debaixo do tapete
junto à poeira da infância

com trinta casamos
com vinte ficamos
de mãos dadas
sentados na calçada

e só é jovem com trinta
quem insiste 
em viver
mesmo morrendo de medo

(sou medroso demais
pra pensar em deixar
tudo que ainda não vivi
na goela arrependida)

hoje eu tenho vinte e treze
mais a idade da própria vida
e uma vontade danada
de saber se
na próxima quarta
a gente podia se ver.

TALVEZ EU NEM QUISESSE SER POETA (PRA COMEÇO DE CONVERSA)

não escolho as cartas
só faço minhas jogadas
memória dissipada
na mordida fodida dos ponteiros
eu chupo teu corpo inteiro
se pra nós isso for felicidade

a surpresa é eu estar aqui
nada do que entendo
rima por aí
com versos que escrevi
caminhos assim
que não sei ler

talvez eu nem quisesse ser poeta
a errata correta
um rascunho
minha versão completa
pra começo de conversa
quase não fala comigo

se não tenho ímpeto
eu impesso meu progresso
no regresso ao teus meros
momentos de ilusão

mas qual a melhor verdade
pra vício de saudade
do que sente o coração?

não escolho as cartas
só faço as jogadas
pra começo de conversa
não tenho pressa de ganhar
só vontade de sorrir.