domingo, 2 de fevereiro de 2020
QUE ACABE SEM EU PERCEBER
Que seja como
fim de férias.
Aviso prévio de um
trampo qualquer.
Um dia depois do pagamento.
Primeiro cigarro do maço.
Que acabe sem eu perceber.
Como injeção de febre-amarela.
Beijo de carnaval,
música de balada.
Pôr do sol numa segunda.
Juventude.
Que vá embora sem dizer
"tchau"
numa festa de 300 convidados.
Como a primeira latinha do fardo.
Um banho morno de outono.
Uma folha da
árvore do vizinho.
Que eu não perceba, não sinta,
não diga pra você ficar.
Não me faça perceber, sentir
ou dizer que tudo vai mudar.
Que até lá, eu esteja acostumado,
embriagado, longe das bombas.
Que já tenha acabado e
passado como o
último ano.
Caso contrário,
que nem comece.
CONVERSAS QUANDO FLUEM
com alguém, eu simplesmente
deixo transparente
os defeitos de fábrica e
os defeitos adquiridos,
os desgastes do tempo
e mau uso da ferramenta.
Conversas, quando fluem,
são como aquela brisa que
encosta suavemente na pele
numa tarde de outono.
Quando não precisa pensar
no que dizer, as palavras
saindo da boca, dos dedos,
uma correnteza amena
de pensamentos e sentimentos.
É raro isso acontecer comigo
porque eu penso demais e
me preocupo demais
com o que as pessoas
pensam de mim.
É por isso que amo os loucos,
os que não temem o ridículo.
Os que ficam fazendo
barulho de peido com a boca.
Os que arrotam e gritam "Auê"
e dão um tapa na testa
dos desavisados.
Os que choram quando bebem.
Que dizem "Eu te amo", sem medo
do silêncio como resposta.
Quando a conversa flui,
eu apenas vou junto,
desbravando as águas do próximo,
equipado com o
melhor riso que possuo.
Agora senta aqui e
conversa comigo.
Tô precisando...
O CASAL
Algumas flores nascem no meio
do caos e
são as mais belas flores
que você poderá ver
num rolê.
Pra mim, as chances de
presenciar isso eram quase nulas.
Como encontrar vida
num planeta morto.
Mas vida e amor
(se não são a mesma coisa)
sempre dão um jeito
de florescer pelas arestas
do tempo.
Seja no asfalto da Augusta,
no coração da cidade de pedra,
no olho calmo do furacão.
Eu vejo esse casal hoje e
sinto um sorriso nascer
de dentro do meu estômago
até os confins dos músculos
da minha face.
É inevitável. Raro.
Eles se olham.
O mundo só deles.
Os dois sorriem ao mesmo tempo.
O poeta observa.
Cenas assim dão esperança pra
velhos cachorros
que desaprenderam os truques
do amor.
Regaram seus sentimentos aos poucos,
quase sem perceber.
E quando ele percebeu,
ela disse primeiro.
Hoje a rua tá mais bela.
Ela o abraça por trás,
ele dá um corte no Corote e
passa pra mim.
Joga o cigarro fora e
entrega a caixinha de som
pra outra pessoa da roda.
Precisa estar com as mãos livres
pra retribuir o abraço.
Eu dou um trago.
Disseram que choveria
esta noite.
Disseram que o mundo iria
acabar.
Mas o casal não liga.
Há algo mais importante
rolando ali.
Algo que deixei com alguém
em algum momento
da minha vida.
Alguém sempre fica com
boa parte disso. Uma piada
de mau gosto.
Não importa no final.
Vejo o casal e a chama se
reacende.
A mais bela flor que já vi.
CARALHO
Não sei por onde começar.
Talvez pelo sentimento de que
é o fim do mundo
todo dia.
Já acabou. As rosas e
os girassóis morreram
de sede.
Eu fico sedento por mudanças,
mas a vida é maior
do que poemas,
sorrisos e lutas.
Caralho!
É tanta coisa.
Morrem queridos, morrem
do nada. Morrem e morrem
e continuarão morrendo.
Vida ausente do caralho.
Não paga a pensão,
abusa do corpo e
soca a cara dos frágeis.
Mas a culpa é de quem fica.
Fica de boas no seu
palácio central.
Assistindo de camarote o grito
da periferia em chamas.
Cidades inteiras na lama.
Doentes tomando centavos
nas veias.
Caralho!
Estão se matando!
CARALHO!
Eu nem sei por onde começar.
É tanta coisa acontecendo
de uma vez, e o mundo já acabou.
Estamos lutando pelos destroços
do futuro do país que nunca veio.
Ao invés de muros,
guilhotinas pra cortar
o mal pela cabeça.
Tá na hora dos reis caírem,
ou os peões continuarão
sendo executados
pelos bispos.
A NOVA OBSESSÃO
o primeiro pensamento do dia.
VOCÊ.
Levanta e toma banho porque
talvez veja VOCÊ hoje.
O que será que VOCÊ
vai fazer de noite?
O que vai almoçar?
Com quais pessoas irá interagir?
Faça uma canção
com os melhores acordes
que puder roubar.
VOCÊ merece só
o melhor.
VOCÊ poderia me ver hoje?
VOCÊ me ama?
O que VOCÊ tá pensando agora?
VOCÊ não me ama mais?
Quem é ELE?
Quem é ELA?
VOCÊ ama ELE e ELA?
E eu?
VOCÊ tá bem?
Não morra. Jamais.
Fique comigo pra sempre.
SEMPRE VOCÊ.
SEMPRE VOCÊ e eu.
Só com VOCÊ.
Só VOCÊ.
Só. Cadê VOCÊ?
Por que VOCÊ não responde?
Cadê sua foto?
Quem são ELES?
Não fuja. VOCÊ não pode.
Minha linda OBSESSÃO.
MINHA. MINHA. MINHA.
MINHA. MINHA. MINHA.
A DANÇA DAS PALAVRAS NÃO DITAS
considero muito.
E eu sinto... que tá tudo bem.
Gostaria de te chamar
pra dançar a dança das
palavras não ditas.
Eu seguro suas mãos
e você finge estar gostando
do silêncio.
É que você sabe muito bem
que eu te...
admiro como pessoa.
Tem um nó na garganta,
um acúmulo de pó,
da sujeira que o tapete cobre e
ninguém vê.
Ninguém nunca verá.
Lavo tudo com cerveja
pois se você ver
a bagunça dentro de mim,
você não vai querer ficar.
Quando eu estiver quieto,
é melhor me deixar lá
antes que tudo se estrague.
Só vamos continuar
na mesma dança
até que mudem de canção,
até que acabe o ano.
Pois eu te...
Eu te...
COMPARTILHE ESSE VAZIO
contra uma gripe.
A maldita me arrancou
todos os poemas e
toda minha autenticidade e
toda minha vontade
de alguma coisa.
Fiquei tanto tempo
encarando a parede,
a janela e o travesseiro
que esqueci completamente
quem sou, o que faço e
como interagir com humanos.
Tanto tempo
isolado
enlouquece até a
mais sã das mentes.
Eu perdi o toque.
Estes versos sofríveis...
Tudo culpa de uma gripe.