sábado, 20 de maio de 2017

DESINTERESSE

Você é desinteressante enquanto eu não enxergar arte em você. E não é só contigo; todo mundo é um saco de tédio na superfície. Veja bem, eu não estou louvando os artistas. Tem muito Zé-poeta por aí que é tão fascinante quanto a merda que eu deixei na privada hoje de manhã.

Sério, não puxe assunto comigo para saber onde estudei, onde moro, o que eu gosto de escutar. Pois eu não quero saber disso sobre você. Eu quero você andando na calçada, com pressa, pensando se trancou a porta de casa antes de sair. Eu quero você em um sofá de couro, fumando um provável último cigarro. Eu quero a sola do seu tênis entrando em uma biqueira.

Não me coloque numa conversa fútil; apenas deixe eu escutar seu sotaque de outro estado, seus lábios encostando num copo mal-lavado, seu olhar triste e cansado analisando meu rosto.

O que eu quero deste mundo não é físico. Isso é apenas sobrevivência, como almoçar fora ou fumar um palheiro. Não, isso é besteira. O que realmente me atinge é quando eu escuto "When the Levee Breaks" às 4 horas da manhã, depois de transar comigo mesmo. E eu sento na cama e percebo meu desinteresse com a rotina, com o papo furado, com suas realizações. O solo de gaita ecoa dentro de mim. Sinto os pêlos do meu braço se erguerem. Estou assumindo o meu "eu" que está pouco se fodendo pra você ou para o que você deseja de mim.

Não é que eu te queira mal; sou incapaz de prejudicar alguém conscientemente. Quando eu prejudico, é por simples acaso. Então não se preocupe. Só me mostre um pouco de essência para eu transformar este momento em uma pintura.

É só assim que funciono. É só assim que eu fico realmente de bem com a vida.

Todo o resto é atuação.

sábado, 8 de abril de 2017

O INSETO QUE AMEI

Sabe essa mosca que você não tem certeza se é realmente uma mosca ou uma abelha? Pois bem, eu estava pensando no que escrever quando avistei uma criatura dessas tentando entrar pela janela do meu quarto. Minha janela tem uma tela de ferro improvisada para impedir que os gatos invadam meu quarto durante a tarde. Vou chamar a mosca de Isabela, só pra facilitar.

Ela parecia perigosa, e eu fiquei assustado com as suas intenções. Por sorte eu fumava um cigarro roubado; barofei em cima dela, para afungentá-la. Mas a Isabela simplesmente pousou na tela da janela e ficou alí, tragando o cigarro junto comigo. Não havia inseticida, então tive de improvisar. Borrifei o pior dos meus perfumes, mas ela não se mexeu. Tirei minha camiseta e bati na tela; a Isabela apenas se esquivou e voltou para onde estava. Maldita insistência!

Tentei, em um ato desesperado, jogar minha cerveja em cima dela, o que foi inútil. Parecia até que ela estava gostando daquilo. Ela gostou do meu cigarro, do meu perfume e da minha cerveja; isso já era muito mais do que a última pessoa que eu tentei conquistar. Quando vi, eu não queria mais que ela fosse embora. A gente tinha os mesmos gostos, a mesma esperança miserável.

Perguntei como ela estava e ela respondeu que tudo caminhava bem. Demos boas risadas. Ela me ajudou com este texto, e com diversos outros. Minha doce Isabela tinha asas mas escolheu pousar em mim. E eu a amei por isso. Minha solidão gostou da solidão dela.

Foi então que uma outra mosca apareceu. Acho que era um zangão. Ele era bem maior do que a Isabela, mas quase idêntico. Ele pousou na tela da janela, ao lado da minha mosca. Ela olhou para mim, bateu as asas e apontou seu pseudo-ferrão pro meu rosto. Estava brava com o que eu era, com a minha indecência, com a babaquice, com o meu amor.

O zangão a levou para longe, para outro estado; da Isabela só restaram os textos e as lembranças de um afeto...e...

Merda! Eu não consigo concluir essa história!

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A FANTÁSTICA ARTE DE NÃO SENTIR NADA

Eu falo muito sozinho.
A diferença é que eu
anoto essas conversas e
as chamo de "poemas".
Como daquela vez que fulano
olhou os gatos brincarem com
o fio do telefone.
Ele não sentiu nada.
Há tempos não sentia nada.
Estava vedado pela ansiedade,
por pensar demais.
Batiam palmas no seu portão e
ele não atendeu.
Qual é o melhor remédio?
Palavras repetidas?
Ele pensou e pensou e pensou.
Não chegou em nenhuma conclusão;
já estava na hora de voltar ao
trabalho.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O RIDÍCULO NÃO EXISTE

É só uma idéia que botam na
sua cabeça pra você deixar
de ser quem você é.
Hoje eu caí da escada.
Andei de costas no meio da rua.
Perdi o último trem e
liguei pra ex.
Não arrumei os cabelos.
Vesti duas meias diferentes e
cantei em cima da mesa.
Tudo o que meu "eu" disse
para eu fazer, eu fiz.
E nenhuma dessas coisas deu certo.
Nenhuma delas foi elegante.
Mas tinham estilo,
coragem, reação.
Apenas pare de tentar ser foda.
Somos imperfeitos demais
para isso, e é aí que está
o pulo do gato.

terça-feira, 14 de março de 2017

ROCK

Só me faça insano mais uma vez.
Andei por aí e descobri que
a vida é uma grande revolta.
Gritar com o máximo dos pulmões, do
fígado, do pâncreas.
E eu quero o meu lugar.
A porra do meu lugar nesta porcaria toda.
É um mundo cruel e eu aprendi a lição;
meus dedos estão calejados e é
proibido fazer silêncio.
É proibido deixar como estar.
É proibido desistir.
Eu vou com tudo pra cima de
multidões e de pessoas no poder.
Se a regra é injusta, se ela me tira a
liberdade de acordar meus vizinhos,
de exibir os meus dentes e o meu sexo,
então eu boto
a porra do muro abaixo
até que todos os ouvidos
prestem atenção nos meus acordes.

segunda-feira, 13 de março de 2017

SOLIDÃO

Não, eu não vou dizer que me sinto só. Não é sobre isso. Na realidade eu tenho ótimas pessoas ao meu redor. Ótimos pais, ótimos amigos e ótimos desconhecidos. É que eu acho que entendi: vou morrer sozinho. E querendo ou não, sempre estou comigo mesmo. Distribuo meus textos sozinho. Durmo sozinho. Penso sozinho. E eu gosto, mesmo que as pessoas me digam: "nossa, você precisa sair mais" ou "você precisa responder os outros". É uma questão de autonomia, sabe? Porque é só quando eu tô sozinho que eu sou eu mesmo. Não preciso sorrir do que não é engraçado, concordar com o que discordo, brigar, argumentar, botar uma máscara. Não preciso dizer que gosto do Drummond (na realidade eu nem gosto de ler, olha só que ironia). Eu preciso de aceitação pra sobreviver, pra não afugentar as pessoas desse meu "eu" que, na maioria das vezes, não se importa se seu dia foi bom ou não. Sim, eu tô me fodendo pro seu final de semana, ou com o que você trabalha, ou com o seu nome. É isso o que sou sozinho. E essa parte pensa em suicídio toda vez que é forçada a se esconder. Então eu a agrado, passando horas e horas no meu quarto. Uma questão delicada. Eu nem iria escrever isso daqui se não fosse por ela, mas uma hora tudo o que você engole tem que sair por algum lugar. Ser sozinho é sobre não querer mentir para os outros.

A bateria do meu celular está acabando. Vou ter que desligar. Até mais. Beijo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O DIA EM QUE TRANSEI COM A FUMAÇA DO MEU CIGARRO

Quando você passa um tempo só, começa a se perguntar, a pensar, a filosofar sobre tudo o que te destrói. E vem a vontade de acender um cigarro, acompanhando um pseudo suicídio interno. Ficar inteiro é muito difícil, e boa parte do tempo eu procuro uma forma de ser mais parecido com o mundo.
Estou olhando a janela do meu quarto, e o dia que se estende lá fora. Começo a soltar bolinhas com a fumaça do meu cigarro. Elas são perfeitamente redondas e perfeitamente voam para fora do meu quarto. O contraste com a luz lhe dá uma forma sublime, quase uma dança, um strip cinza. Minha querida fumaça, me matando aos poucos como qualquer mulher pode me matar.
Decido me masturbar. Não é uma masturbação; é o que chamam de amor. Não estou só, afinal: veja como ela rebola na minha frente, encostando aos poucos na minha pele, habitando meu corpo de dentro pra fora e de fora pra dentro. Começo a trabalhar, e com o cigarro no canto da boca, baforo em cima do meu pau. A sensação é ótima. É melhor do que observar pessoas rígidas nas calçadas.
Quando estou prestes a terminar, tento gozar em cima dela, mas infelizmente minha ejaculação não sai forte o suficiente. O cigarro apaga. Eu me limpo com papel higiênico e ela desaparece entre o mofo das paredes.  Todas elas vão embora um dia. Mas como a fumaça tóxica, ficam dentro do meu peito, me mudando para sempre.