segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

TUDO BEM POR MIM

Se eu deixei você entrar,
sentar no meu sofá
e por os pés na mesa de centro,
é porque eu não quero,
não, eu não quero
que você vá.
Se tranquei a porta,
joguei a chave,
joguei meu corpo sobre o seu,
é porque eu quero.
Ah, como eu quero!
Quero que a noite
esqueça de acabar!
E não venha mentir.
Dizer que já tá tarde,
que tá na hora de dormir.
Pois a minha cama
tá sedenta
esperando seu despir.
Não vá! Não vá!
Não vá me iludir!
Mas se for ilusão,
eu mando a verdade
pra puta que pariu!
Não vá! Não vá!
Não vá me iludir!
Se precisar eu esqueço,
finjo desapego.
Tudo bem por mim.

PERSONA

Prefiro tirar a máscara
do que a roupa de alguém.
Não há surpresas na nudez.
Uma cicatriz, ou
algo que não deveria
estar ali, talvez.
Nada mais.
As máscaras escondem
a história boa,
o que interessa,
o suco.
E eu me pergunto
o que há atrás dessas
tatuagens?
Destes cigarros acesos
freneticamente?
O que seu quarto
já viu nas
piores noites?
Seus dentes expostos
não me enganam.
A mentira tá
descolando da sua
face.
Tudo bem.
Não vou impedir se
você for lá no banheiro
retocar com o pó branco
seu desânimo com essa
ladainha.

ARROZ E OVO

Você me deu nada
e eu consegui o resto.
Agora você quer comer
meu arroz com ovo.
Antes eu não era nada e
você não presta.
Agora inventa história
pra me deixar louco.
E o pior é que ainda divido.
É, pois é, eu ainda divido.
Pouco ainda é alguma coisa.
Uma semana comendo
a mesma refeição,
e a vida inteira
intoxicado por você.
Traga uma cartela
no próximo abandono.
E um pacote de sal.
Eu ainda tenho arroz.
Você me deu raiva e
eu comi o resto.
Engoli seco todos os
cacos de mim.
E o pior é que ainda divido.
É, pois é, eu ainda duvido.

VAGANDO PELA QUEBRADA

Se meu bairro chorasse,
todo dia seria de chuva.
Sobe e desce calçadas de rascunho.
Vou andar por aí e
você tenta achar meus rastros.
Cada migalha e bituca.
Pense num desabrigo.
Pense que no centro
eles se acham iguais.
Duvido que eles pulem
poças de esgoto.
Pense que eles são
desconstruídos.
Aqui nem construíram ainda.
A quebrada parada come
seus próprios destroços.
Quando seu ônibus chegar,
não olhe pra trás.
Estarei procurando algo pra fazer
além de visitar a biqueira.
As pipas caíram por causa
da chuva.
Sobe e desce calçadas de rascunho.
Vou andar como se
houvesse pra onde ir.
E você apaga os
meus rastros.

QUANDO O GORÓ ACABAR

Sem álcool fica difícil
brincar de ser feliz.
Um brinde aos erros!
Noites de mentira,
risadas de faz de conta.
Ninguém liga.
Estão ocupados mascarando
o que pensam ser um erro.
É tarde demais.
Quando o goró acabar,
olhe nos olhos dela.
Veja se o vazio ainda
tá lá.
Veja se o abismo
olha de volta.
As pontes caíram e
os barcos queimaram.
É tarde demais.
Sua carteira tá cheia de espaço.
Copos sujos lambidos por ratos.
A hora não passa.
Diga sim, queira não.
Os pontos incertos de uma obrigação.
E o goró acaba.
Acaba em vão.
Não para.

O CIGARRO E A BOMBA ATÔMICA

Entre cigarro e bomba atômica,
o amor já devorou a gente
primeiro.
Não sei com quantos cigarros
ou com quanto amor
se faz uma bomba atômica.
Também não sei
qual deles é o
favorito da morte.
Sempre imagino
um cigarro
entre os caninos
de seu crânio pálido.
A foice é superestimada.
Acho que
a morte
ama
antes de tudo.
Faz você amar.
Amor é pior que
os dois.
Pode fazer
você fumar o maço
antes de apertar
o botão vermelho.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

FEBRIL

Quente como mil bocas na Augusta.
O suor molha a cama, a pele, meus tremores.
Todos os pensamentos congestionados
nos nervos do cérebro, repetindo
o efeito estufa da ansiedade.
E eles não param de me julgar.
PAREM DE ME JULGAR!
PAREM DE ME JULGAR!
Eles nunca irão parar.
O jeito é deixar que a febre tome conta.
Quente como cem cigarros acesos
num quarto sem janelas.
Não sou mais dono dos poucos trocos
que a vida me dá.
Tá tudo investido em medicação,
em meditação, em mediação.
Eles nunca vão parar de nos julgar,
você consegue entender isso?
Você realmente entende isso?
É hora de ferver e borbulhar
a gota d'água.
E no estado mais febril possível,
contagiar a doente censura
com espirros de auto-expressão.
Lembrar que normal não é saudável.
E que julguem e julguem e julguem
até seus
cus
explodirem.