sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

VENDEDOR (FUNCIONÁRIO)

Meu patrão é tão doente quanto o inferno.
Insiste em entristecer o meu dia.
Minhas metas são tão grandes
quanto seus bolsos.
E as vendas decolam como foguetes.
E eu ainda não conheci Deus. (x2)
25 de Março é o inferno.
Feliz natal pra tantas cabeças
se empurrando e se empanando
sobre os trilhos rotos da alienação.
Eu só quero o meu sal no final do mês,
pois não aguento nem mais um freguês.
E eu ainda não conheci Deus. (x2)
Pode demorar pra gente entender
que o importante não é vender
quando a barriga já está cheia de
úlceras.
Mas as lojas já abriram os portões
pois a
Peste Negra chega na Sexta Santa.

E eu ainda não conheci Deus.

MODIFICAÇÃO

Rasguei a pele com tinta e ferro
pra dizer algumas coisas
sem abrir a boca.
Botei uma moeda na orelha e
uma argola na gengiva
pra reformar o meu templo.
Um novo ambiente toda vez que
olho para o espelho
Rasguei o braço, o rosto e
as pernas
pra ficar mais orgulhoso de mim.
As regras são minhas.
Eles entenderam.
Eu os fiz entender.
Meu dedo do meio está levantado
porque eu rasguei a hipocrisia.
Perfurei a falsa moralidade
e bifurquei as tradições.
Agora me penduro num
depósito velho enquanto meu
sangue pinta o chão.

E eles entenderam.

LITRÃO

"Posso sentar com você?"
Seus olhos estavam bêbados e
caíram no copo.
O relógio saltou para quase meia-noite e
nos vimos presos na rua.
Preparados com água benta,
garganta deserta em meio à chuva.
"Posso ficar com você?"
O ruído devorava a
delicadeza de sua voz.
Seus olhos beijaram os meus
e nós caímos da cadeira
enquanto vomitavam flores e
batata-frita no bueiro.
"Posso ir embora com você?"
Pagamos o último litrão
E nós fomos por todo o caminho,
e nós voltamos por todo caminho
de almas

entrelaçadas.

ANOS 2000

Encontramos um a mais,
esperando o ônibus lotado.
Veja que belas cicatrizes!
As calçadas abraçam o impossível.
E minha latinha está esquentando.
Peço algo emprestado.
Talvez seja fogo, e ele acende e diz:
"você está salvo
por um minuto a mais,
por um minuto a mais".
Chris está com o olho roxo e
todos estão calados.
O funeral foi adiantado.
Uma gargalhada ecoa pelos corredores
da escola.
Ele está orgulhoso,
mas ninguém sabe o motivo.
Fumo escondido pra que
o prédio não pegue fogo.
A pessoa do ônibus me
acende e diz:
"você está salvo
por um minuto a mais,

por um minuto a mais".

terça-feira, 7 de novembro de 2017

BICICLETA ERGOMÉTRICA

Eu continuei pedalando e
ela dizia que eu
nunca saía do lugar.
"É pra fortalecer o espírito",
eu disse.
Ela continuou bebendo o
nosso vinho, e eu falei
que ela também estava fodida.
É difícil de acreditar, mas
quando se aceita o fato,
você pode derrubar qualquer
vitrine, qualquer distância,
qualquer insônia.
Continuei pedalando até
minhas pernas caírem.
Ela disse que assim eu
não chegaria a lugar algum.
"Eu já cheguei",
respondi.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

MOTIVACIONAL

Falta motivação pra ver meus amigos,
me apaixonar, sair de casa.
Falta motivação pra escrever,
pra tomar banho, limpar o quarto.
Falta motivação até pra
olhar pra parede
enquanto eu me perco
nos pensamentos.
E pode ser que um dia mude,
que algo faça sentido,
que a humanidade surpreenda
com uma boa notícia
numa segunda de manhã.
Mas a verdade é que
estou achando a poesia chata.
Talvez seja a falta dela,
escondida debaixo de
toda merda que é ser adulto.
A poesia fica chata e eu morro.
Não há nada melhor do que ela
quando não se tem nada,
quando não é nada.
E falta motivação pra
saber o porquê.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

SÉRIO DEMAIS

Eu levo a sério tudo o que se passa,
mesmo escondido nas risadas e
nos convites.
É claro como tudo é nublado e
como não vemos nem a mão
que nos dá um tapa quando
levantamos da cama.
Dizem para eu não me preocupar, e
pra quê, não é?
Tenho quase mil amigos que
me curtem, me amam, me "Haha".
Não tenho demência o suficiente
numa calça rasgada ou num falso abraço.
Eu só fico ansioso, espremido no meu canto
como uma barata encurralada pela Morte,
a minha gata siamesa.
Palpitações entre meus dedos,
fruir os conselhos gastos,
lavar a louça, respirar fundo,
comer proteína.
Tudo não passa de uma piada
mal-contada pelos perdidos.
E é hora de trabalhar.