segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

SEGUINDO A VIDA

é difícil seguir a vida depois disso.
seu amor parece pó
me deixou acordado a noite inteira.
tudo passa tão rápido
que dá vontade de vomitar. 

quero isso quero aquilo
a barriga da alma é infinita.
quero tudo
mesmo que não caiba nas mãos. 

não dá para entrar no trem
com todo esse peso.
acho que hoje vamos nos atrasar. 

ligando ou não ligando
eu espero uma resposta
tomando banho na insanidade
e engolindo champanhe barato.
esfrego minha pele
até ver meus ossos.
por que ainda sinto seu cheiro? 

é difícil seguir a vida depois disso.
tenho só um rolo de papel higiênico 
e todas as minhas roupas estão sujas.
espero que você goste do meu pior. 

quero isso quero aquilo.
se você for sumir
deixa eu te ajudar.
me dê seu maior pedaço 
e um guardanapo
caso eu suje minha boca. 

é, talvez eu ligue um pouco.
pra que fingir indiferença
se é diferente 
quando estamos sós?
melhor nem pensar nisso. 

hoje eu quero ser idiota.
depois disso só resta
seguir com a vida
portando um parafuso à menos.
(por que deixei que entrasse 
na minha cabeça?).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

VOCÊ NÃO SABE MINHA FORÇA

para eu estar aqui
com todos os meus átomos
vibrando o som 
até suas orelhas
você não sabe quantas olheiras
tive de maquiar.
 
para evitar o desassosego
eu me esqueço
de afundar.
como um cão sem dono que late
pra sorte
deixar os ossos do cotidiano
na minha boca.

para respirar meus ares
e cantar minhas versões
no chuveiro
eu precisei sobreviver
ao que não pude.
e quando morri, ressucitei
só pra fazer chorar
quem riu
quando me apaguei.

você não sabe minha força.
minha simpatia é a luta
é a arte da defesa
meu grito de guerra.
essa é minha estratégia
o otimismo que tem pressa
de ver 
um novo dia raiar.

muita cicatriz embaixo da pele
conta minha história
e como perdurei à ela
num lugar escondido e intocável
tem o mapa da trajetória
as marcas da derrota
que indicam
o xis da vitória.

para eu estar aqui
com todo o tempo-espaço que existi
tive de ser sempre mais.
você sabe a sua força.

SOMOS MAIS QUE NOSSAS ROTINAS

a manhã acordou cotidiana
cinzeiro cheio logo cedo
as cinzas foram pro céu
e pras ruas.
às vezes sinto aquela dúvida
de quem se cansa:
é preciso existir hoje?

mas as contas preparam 
os chicotes.
os donos da luz preparam
os cortes.
é minha sorte dar um gole
nesse café alegre.

o relógio que me leve
hoje quero um dia leve.
o peso nas costas eu rolo
colina acima toda hora.
preciso fazer greve.
é preciso fazer greve.
a situação é grave
minha mente tá uma bomba.

mas aí a gente se encontra
e as dores viram memória.
um brinde desconexo
o doce amargo da vitória.
um sorriso simples
que faz cafuné na alma.
somos mais que nossas rotinas.

dormiremos bem esta noite.
amém.

sábado, 19 de novembro de 2022

LIXO COMUM

posso ser um lixo reciclável
uma garrafa de vidro
que armazena alegrias
mas que vira uma arma
quando quebra.

posso ser o plástico
e manter seu infinito.
ser quantos produtos eu quiser.
retornar à quem me quer.

mas talvez eu seja
lixo comum.
apenas um.
um troço que existe.
algo que produziram.
algo que descartaram.

algo.

chamo comigo meus hábitos tristes
e chamo além disso
um pouco de você
nas minhas lembranças
e tudo do pouco
que você fez de mim
quando me descartou
por inteiro.

não me sinto pior.
ainda tenho o mesmo tamanho.
um grão de areia
no universo.

CANSADO E DE SACO CHEIO

meu corpo carrega o mundo
e o mundo me carrega por aí
não sei se servi
pro que me pediram
eu quase nunca sei.

ontem exagerei na bebida
mas não foi o necessário.
foi desespero descompassado
um jeito de ficar aliviado
tamanha inconsistência
dos dias repetidos
das tarefas repetidas
dos erros repentinos.
tô sem tempo
porque vendi meu tempo
para aproveitar o futuro
que já devia ter chegado.
eu fico cativo
tentando comprar minha liberdade
com as migalhas do contrato.
de fato, o fogo interno exausto
queima um cigarro
sempre que possível.

insatisfação.

meu ser conhece a depreciação
uma dívida de cada vez.
crédito por aproximação.
estou devendo
mesmo sendo
meu melhor
no momento.

tô cansado e de saco cheio.
e se você também está
venha me visitar.
eu moro sozinho
com meus vizinhos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

PERDI O INTERESSE

odeio ter que me entender.
mas só pra ver onde é que dá
os caminhos que me foram empurrados
eu sigo abrindo a janela
todas as manhãs.
o mesmo quadro em branco
perdendo valor no leilão do tempo.

não quero novas amizades
porque já entendi com as velhas
o que acontece quando há
conflito de interesses.

não quero amar mais nada
porque vai ser duro
me despedir do que já amo.

perdi o interesse em você.
muita ladainha.
engane-se o quanto quiser.
tô no limite do engano.
tô vacinado de encanto.
por enquanto eu vou procurando
não sei o quê
não sei onde.

parei de tomar café
para não sentir ansiedade
e agora eu sinto nada
e o nada é a pior doença.
a indiferença fingindo indiferença
quando tudo vira ofensa
e a cabeça já não pensa
ela pulsa tritura desfigura
até a inocência
de um animal.

sim, eu perdi o interesse. 
nenhum fio me segura.
tive que cortar os laços
com a lâmina cega do absurdo.
queimar seu nome 
escrito num pedaço de papel
pra ver se esqueço
de pensar em você.

perdi o interesse em mim
nas histórias
na cerveja
nas ruas do meu bairro.
esse Jardim São Pedro tá seco.
meus galhos áridos
magros e ingratos
balançam numa terça cinza.
nunca mais foi verão pra mim.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

FÉRIAS (TÔ CANSADO DE PENSAR)

Por que você não consegue ver
que eu só quero férias de você
e do mundo inteiro?
eu penso em ser fantasma
e atravessar as paredes
e puxar os pés dos problemas
enquanto eles dormem.

é que não me conformo
fico louco com a insanidade
do lado de fora.
toda hora
busco alguma melhora
dentro dos ecos do meu corpo.

gasto energia forçando sorriso
quando eu queria era mesmo
chorar e explodir.
um sol que me faça rir,
por favor.
algo que me faça esquecer
que se ferir é inevitável.

eu quero férias de mim.
esquecer que ainda existo
pra existir num entorpecente qualquer.
estou mentindo muito pra tudo.
minto e as mentiras
travam suas miras
no fundo da minha vida.
esperam a ordem maior
para puxarem o gatilho.

eu quero férias da minha cabeça.
um tempo da consciência.
um espaço pra inocência
do ato de sonhar.
é, eu tô cansado de pensar
escravo da ditadura do limitar.
quero fazer
apenas porque quis.
e que ser feliz
seja um ato de revolta.