quinta-feira, 20 de julho de 2017

CRU

Você não é uma pessoa linda
só por causa da maquiagem.
Maquiagens e rostos não
me convencem.
Você é mais do que isso.
Limpe-se.
Deixa eu te ver de forma nua e
crua.
Sem depilar a própria
natureza.
Sem mascarar a própria
incerteza, e a fragilidade
que te torna
alguém para se amar.
Não quero esconderijos.
Quero mostrar, gritar e persistir
no que somos
enquanto dormimos e
as paredes nos cantam
seu silêncio.

EXISTA

Porque é a única opção
que te resta.
Mas faça isso com vontade.
Não deixe um trabalho
meia-boca;
exista até que a
última gota caia
no copo.
Seja a melhor existência
que você possa conhecer.
Inspire.
Espalhe.
Marque.
Como uma queimadura
na ponta dos dedos.
Na ponta compartilhada.
No rolê, no contato,
naquilo que causa.
Exista, e continue existindo.
Continue viajando
na sua ou na terra.
Nos sonhos de quem
te desejar e
nos pesadelos de quem
não te entender.
Você é sim só mais um tijolo,
mas que isso não te impeça
de ser o tijolo que mais existe
no muro.
E que este muro caia um dia,
para que possamos existir
uns com os outros,
uns para os outros,
de igual para igual,
sem medo de tragar
a própria essência.

terça-feira, 20 de junho de 2017

EU TÔ BEM

Descobri que o fim é inútil.
Vivemos pela continuidade.
Estamos no meio, e
é isso que importa.
Aonde aquela conversa vai te levar?
Aonde caminhar de manhã
vai te levar?
Este não é o ponto.
Todos te desejam
"Boa viagem", e não
"Boa chegada".
A vida só existe para viver,
e um gole de café ou
um namoro de duas semanas
são valiosos por eles mesmos.
Afinal, qualquer merda
vale a pena.
Anote isto.

CANTINHO DO VALE

A garrafa barata
traz a brisa exata
de quem erra num dia
pra se perder numa vida.
Conheço gente caindo
e gente subindo.
No fundo do poço ou
com grana no bolso.
Os parceiros cumprimentam
e dão um corte que aguentam
regando em vinho o tempo
pra sentir o momento
ou o vento.
Abraço gelado, cê faz do seu jeito.
Fumado ou cheirado
não importa o sujeito.
Prejudicado, calado,
dopado, roubado
da liberdade de ver um irmão
sem se lembrar da prisão.
Tá todo mundo preso.
Ninguém sai ileso.
A vida te derruba,
mas mesmo assim cê se arruma,
subindo no skate,
fumando um Eight.
Salve parceiro,
sempre olhe pra frente.
Porque alí tem caminho e
cê não tá mais sozinho.
Compramos um vinho
pra saudar o abismo.

ELES ME CONHECEM

Algumas vezes eu esbarro em alguém
que me conhece.
Não é recíproco.
Fico sem graça em não lembrar
do nome ou da situação.
Me desculpe.
É que na maior parte do tempo
estou pensando no sentido da vida.
Minha mente se esconde
no canto sombrio dos pensamentos.
Você sabe; aquela voz que
diz que tudo vai dar errado,
nada tem valor,
a humanidade é triste e
tudo mais.
E eu não consigo prestar atenção
no momento.
Isso me rende mais poemas,
mas é um preço alto a se pagar.
Eles me conhecem, mas eu
não os conheço.
Eu não conheço ninguém.
Eu não conheço nada.
Eu não me conheço.

ARROGÂNCIA

Dói. O espaço vazio entre um pensamento e o outro. Simplesmente dói. Ter linhas em branco, uma infinidade delas, e os bolsos da cabeça secos. Reparei que humanos gostam daquilo que não gostam, ou pelo menos mantém estas coisas vivas. Um incêndio alimentado por uma lenha de cada vez. Nossas mãos sujas de carvão apontam para a cara um do outro, e ninguém sabe fugir ou lutar. Estou tentando, sabe? Eu tento todo dia em que consigo levantar da cama sem querer voltar. Mas as ruas dificultam as coisas, e as madrugadas são longas demais. Esse riso histérico e bêbado. Basta virar uma esquina que você verá garrafas bebendo pessoas.
Eu era uma delas, e então enjoei. Foi numa noite em que eu não queria mais tocar em ninguém. Simplesmente acontece: você não quer mais a respiração delas e as suas palavras martelando seus ouvidos cansados. Você busca a solidão e faz amor com ela sete dias por semana. Todo mundo é tolo demais, raso demais, chato demais. E é então que você sente algo parecido com ódio. E este ódio vira tristeza. Desesperança. Não há ninguém pra conversar; é tudo besteira, vai passar. Enquanto não passa, que tal um jogo de desafios?

sábado, 20 de maio de 2017

DESINTERESSE

Você é desinteressante enquanto eu não enxergar arte em você. E não é só contigo; todo mundo é um saco de tédio na superfície. Veja bem, eu não estou louvando os artistas. Tem muito Zé-poeta por aí que é tão fascinante quanto a merda que eu deixei na privada hoje de manhã.

Sério, não puxe assunto comigo para saber onde estudei, onde moro, o que eu gosto de escutar. Pois eu não quero saber disso sobre você. Eu quero você andando na calçada, com pressa, pensando se trancou a porta de casa antes de sair. Eu quero você em um sofá de couro, fumando um provável último cigarro. Eu quero a sola do seu tênis entrando em uma biqueira.

Não me coloque numa conversa fútil; apenas deixe eu escutar seu sotaque de outro estado, seus lábios encostando num copo mal-lavado, seu olhar triste e cansado analisando meu rosto.

O que eu quero deste mundo não é físico. Isso é apenas sobrevivência, como almoçar fora ou fumar um palheiro. Não, isso é besteira. O que realmente me atinge é quando eu escuto "When the Levee Breaks" às 4 horas da manhã, depois de transar comigo mesmo. E eu sento na cama e percebo meu desinteresse com a rotina, com o papo furado, com suas realizações. O solo de gaita ecoa dentro de mim. Sinto os pêlos do meu braço se erguerem. Estou assumindo o meu "eu" que está pouco se fodendo pra você ou para o que você deseja de mim.

Não é que eu te queira mal; sou incapaz de prejudicar alguém conscientemente. Quando eu prejudico, é por simples acaso. Então não se preocupe. Só me mostre um pouco de essência para eu transformar este momento em uma pintura.

É só assim que funciono. É só assim que eu fico realmente de bem com a vida.

Todo o resto é atuação.