segunda-feira, 21 de setembro de 2026

UMA SOLUÇÃO

escreva um poema bom
escreva um poema que te faça
parar de fumar
escreva um poema que te faça
parar de beber
escreva um poema que
repare
todas as cagadas
que você fez
com quem você amava
(e ainda ama)

escreva um poema pra mudar
a história
pra mudar a rua
e a sua teimosia
de se esconder
no mesmo lugar
na mesma desculpa
de que você só está
fazendo seu trabalho

escreva um poema que te faça
sentir gosto pela vida novamente
sem ter que forçar
litros e mais litros
só pra você se esquecer
um pouco
e conseguir pensar
naquilo que é realmente
bonito

vai, senta essa bunda na cadeira
e martele estas teclas
porque sua vida depende disso
depende muito mais do que sai
do que aquilo que entra

ninguém vai te salvar
além de um novo poema
então
escreva um poema
poeta
escreva até seus dedos
virarem as mesmas cinzas
do cinzeiro

escreva um poema que te traga
o melhor sexo da sua vida
escreva um poema melhor ainda
um que faça 
alguém te amar
além da sua poesia

escreva, seu desgraçado
escreva escreva escreva
até que o poema te faça acordar
dessas anestesias que você chama
de "mais um dia"

escreva um poema como se fosse
o último
escreva com seu sangue
com a sua alma
com todos os seus cacos
escreva um poema que mudará tudo
escreva um poema que resolva
todos os problemas do mundo
escreva algo 
que alguém goste

escreva um poema

poeta

sente

e escreva.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O CONVITE (VÍCIOS BOÊMIOS)

moro em mim como 
num castelo ansioso
feito de areia na praia
minhas paredes se desmancham
por qualquer brisa
que você possa me fornecer

tô na mesma onda
daquilo que é acaso
se a gente se esbarrar
entre infinitos esbarrões
há uma possibilidade
da gente se amar
eternamente
por algumas horas
numa cama bagunçada

e talvez eu treine
minha linguagem corporal
conversando com sua pele
ou talvez seja só risada
uma história contada
em versos aleatórios
na estrofe de um dia

de qualquer forma
eis o convite
flertando com meus bolsos
chavecando a minha noite
perguntando se hoje
eu tô afim de errar
mais um pouco
novamente.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TALVEZ

"só bebo Heineken"
bebemos quatro litrões de Skol

"só vou se for de Uber"
pegamos um ônibus em Itaquera

"quero conhecer lugares novos"
fomos pra praça do lado
da minha casa

"só escuto música boa"
botei minha lista dos anos noventa

"quero comida japonesa"
fritei calabresa com cebola

"só com luz acesa"
apaguei as luzes

acho que
vai dar namoro.

EUFORIA

me vê mais uma dose
e enxergue minha garganta
engolindo nada
pro nada
dentro de mim

me vê mais um trago
e veja eu inalar
a mesma fumaça
que eu respiro
pra morrer

mas tá tudo tão
dançante
que meu corpo
vai até o seu
no mesmo instinto
que os dedos vão
pro lacre
e meu beiço vai
pra lata

não temos que pensar
agora que fugimos
pra nossa euforia
você alegre e
eu me repetindo
um sorriso
tão comum quanto
uma ressaca

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

UMA APOSTA

me mostre algo
melhor do que cigarro e álcool
mais reconfortante
do que calar a boca
do cérebro
e poupar os olhos
desta vista linda
urbana e cinza
rica e pútrida
e dar um tapa 
na cara
da esperança
que busca semialegria
num futuro fajuto

me mostre algo melhor do que isso
melhor do que eu desgraço
da minha vida
melhor do que comer minhas
dores
e temperar meus curativos
com o vinagre mais barato
que mal consigo comprar

vamos, eu te desafio
a uma aposta:
mostre que o bom da sua vida
também cabe na minha
e eu paro de uma vez
talvez 
amanhã

PARA QUEM SE SOBREVIVE TODO DIA

todos os desencontros
você perdoou
com a mesma facilidade
que se culpa
pelo espaço que a ausência
ocupa

você gasta seu dinheiro
agradando vícios e amigos
a sua mentira favorita
é a do sorriso
grudada no seu rosto
de um jeito
que até o espelho
mais sujo da sua casa
sente saudade
de ver sua pele

você se diminui
só pra se sentir preenchido
com a pequenez
que os outros te oferecem

e quando você fala
todos os ouvidos são surdos
mas quem fala mais alto
sem nunca sair do palco
recebe todos os aplausos
como o palhaço que você
no fundo gostaria de ser

então você volta pra mesma mesa
e engole fumaça num copo de vidro
porque as horas voam
quando você finge que está vivo

mas mesmo assim
aqui estamos
gente que se sobrevive todo dia

parabéns

eu até te daria um abraço
se eu não tivesse 
tanta preguiça
de ser legal
quando não preciso.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SEM DINHEIRO

rico de bitucas
limões rosas
descansando secos
no último saco
de lixo

meu amor é o gelo
que sobra no copo
continua ali
gelando o vazio
da garganta do ralo

escrevo meu nome
num isqueiro sem chamas
e bato minhas cinzas
no chão de uma casa
que sente saudade
de outros pés
além dos meus

mas meus sentimentos
só podem pagar
passagens de ida

(em todas as voltas
troquei cicatrizes)

rico de bitucas
todo resto líquido
eu declaro
no imposto dos erros
me rendendo 
em poesia.

BORA SER RIDÍCULO

por favor
e por você
por nós
bora ser ridículo
como qualquer sol 
queimando até virar
gravidade

nada é tão grave
quanto uma vida
desprovida de risos
daquilo que sentimos
tanta importância
assim como um grão de areia
no olho de um peixe

assim como comer e
depois apertar a descarga

assim como amar e
depois amar o próximo

assim como dores cicatrizam
com a saliva do tempo
beijando nossas feridas

vamos ser ridículos
nessa vida sem sentido
se é pra cima ou pra baixo
no espaço 
nós apenas flutuamos
transando mentes
pensando demais
as cores
da própria pintura

por favor
saia daqui
o quão ridículo você é
e eu
estarei te aplaudindo
de pé.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

FÉRIAS

acho que estou
deveras bem
pra dizer
algum poema

um cozinheiro
sem fome
um médico
saudável
um traficante
sóbrio

acho que aprendi
a chorar meus males
e pintá-los no
papel higiênico

porque às vezes
(raras vezes)
é minha vez
de estar ok

mesmo com todas
as poesias
atrás de mim
(palavras que já até esqueci)
hoje eu acordei
olhando para frente
e tenho acordado assim
com um café da manhã
uma risada de almoço
e uma cachaça de janta

acho que estou
melhor do que minha arte
mesmo que ela me escape
pelos vãos da minha existência
e molde minhas raízes
e contagie meus arredores
hoje o bouquet de minhas flores
é apenas para o meu jardim

você pode até vir
e cheirar minhas cores
mas por favor
não pise na grama.

FUME PESSOAS, CONHEÇA CIGARROS

a maior causa
de todas as minhas mortes
foi aquele outro
que eu não entendi
que não me entendeu

ainda que eu me isole
tenho que ser
social-passivo
e inalar toxicidades
de peitos alheios
ao meu, que carrego
tão pesado pelo vazio
como uma cama carente
numa sexta à noite

e mesmo com os avisos
sinais vermelhos
que piscam mais fortes
com a luz da memória
lá estarei;
no meio da cidade
fumando pessoas
conhecendo cigarros.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

ENTÃO VOCÊ QUER SER ARTISTA?

o que você achou
que iria acontecer?
aplausos?
medalhas?
você só respirou
com o pulmão da alma
e usou seus átomos
pra descrever
algo que todo mundo vive

você parou por um momento
e nessa pausa
percebeu
a beleza de uma nuvem
se desfazendo em chuva

e daí?

você quer ser artista?

então sangre suas teias
e espere o pouso do acaso

arte é construída
por cima
daquilo que não é belo

artistas não só vivem
como morrem
talvez por um verso
um gesto
uma pincelada

o nada
é a única certeza
veja
quantas canções
você nem conhece

e ainda assim
você quer ser artista?

se em cada gota
daquilo que você cria
não habita
um último grito
de quem grita
seu fim do mundo
então faça outra coisa

arte é um meio
pra quem não tem medo
do fim.

SÓ EU ME CONHEÇO (POR INTEIRO)

tem parede na minha casa
que saca
quando não quero te ver
mesmo te vendo

tem travesseiro que sabe
se o gosto da lágrima
é sal e água
ou qualquer outra coisa

tem corredores que se acostumam
com meus passos
espelhos que fofocam
o que faço
um teto que dança meu espaço
e um chão que engole
meus cacos

mas só eu me conheço
por inteiro

tem gente que me acha
alguma coisa
tem coisa que gente
só disfarça e encontra
uma parte fácil dos meus sorrisos

tem gente que me olha
mas só vê vazio
tem pessoa que me incompleta
por um fio

mas só eu me conheço
por inteiro

tem dia que eu não me entendo
e às vezes finjo ser
o que pareço
tem noites que o cobertor
é desespero
tardes que se poem
no horizonte dos meus erros

mas só eu
(e repito)
só eu
me conheço por inteiro.

SEM TÍTULO

nem confusão
já tem demais
rolando atrás
dos meus olhos

vamos apenas respirar
e inspirar
alguém perdendo o fôlego
de tanto correr
atrás de si

vamos rir doloridamente
os hematomas do âmago
aquele ralado da brincadeira
que se esquece como brinca

talvez uma mímica
bora imitar genuinamente
mentiras e alegrias
sem nomes
sem títulos
nem rótulos
o foco é apenas
mostrar os dentes tortos
para o acaso

e caso cansemos
e a tarde desapareça
num segundo
cada um vai pro seu mundo
cuidar da própria solitude.

VAZIO GOSTOSO

não havia nada na praça
além da fumaça morta
do meu cigarro
e minhas mãos no bolso
que queriam se esquentar
num lugar
chamado você

mas ninguém sabe quem é
hoje à noite

ninguém sabe pro que veio

só vieram pra cá e aqui estão
ossos bundas e bocas
sentados sobre suas
próprias palavras

e eu chupo deliciosamente
um vazio gostoso
dum copo cheio de nada

não havia alguém na praça
além das mesmas histórias
sem roteiros
e seus tantos rodeios
pra chegarmos onde estamos;
a sacada vip
de lugar nenhum

mas ainda há um brilho
distante 
como lembrança de infância

uma adega
que vende cigarros.

NÓS AINDA TEMOS QUÍMICA

talvez minha história
queria também estar
dentro de você

no fundo eu mal sabia
se queria realmente te rever
mas agora meus olhos
estão fixados nos seus
que se fecham deliciosamente
ao som do seu gemido
e se é saudade o que eu sinto
sua boca babando em mim
é um remédio digno

nós ainda temos química
que nessa relação física
anima minha biologia

é que conhecer sua geografia
com meus dedos 
ainda não me faz entender
sua filosofia
e se seu calor
suando na minha pele
ama esse agora
ou o desdém niilista

talvez minha história
queira estar por fora
prefiro sujar apenas
meus lençóis
do que todas as milhares
de poucas horas
que eu nem sei se tenho
pensando se
de alguma forma
a gente ainda tem jeito.

AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE UM POEMA


"

eu queria fazer alguma diferença
estando na sua vida
e que seus olhos
lêssem além das minhas
entrelinhas

mesmo abatido
repetido
e mal escrito pelo acaso
faço
dos meus versos
um propósito
igual a de uma estrela
que brilha para todos
sem pensar em ninguém

e se você sorriu
alguma vez
com meu calor
eu já tenho afinal
meu ponto final
até que meio tosco
como
tudo o que já existiu
e...

"

eu amasso o papel
e o jogo na lixeira
junto com meu ânimo
meus melhores anos 
inalcançáveis
e meus ranhos

tudo junto
apodrecendo
no mesmo lugar.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

QUATRO LIMÕES

sentado no chão
da Peixoto
calçada que nenhuma
bunda mais se atreve

aqui haviam poucas mesas 
e muita vida
beleza
agora só há mesas
cheias e vazias

reviso a vista
privilégio
de quem vê de baixo para cima
céu cor de prédios
luar e olhares cinzas

um cigarro
tão
   longo
quanto uma boa noite
pode ser

ninguém sabe
mas há
quatro limões
e uma barrigudinha
me esperando em casa

quem não tem amor
se esquenta com cachaça

hoje minha noite
será bem quente.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

LEVEZA (A VIDA SÃO ONDAS)

demorei pra entender essa palavra
pois cada pensamento
sempre me pesou
toneladas

hoje

eu gosto
de qualquer destino
pois se tenho algum tempo
pra ansiar todos os futuros possíveis
é porque meu presente
não é nenhuma
emergência

sim

ainda há problemas
e a maioria mora dentro de mim
e crescem gigantes tsunamis invisíveis
que afogam minhas pausas
meu agora fica
sem ar para
respirar

mas

se tenho tempo
para sentir medo daquilo
que um dia eu posso perder
é porque sou afortunado de ter
aquilo que já me faz parte
e como ondas que só são
eu deixo a leveza
da maré da vida
ser um acaso

quinta-feira, 16 de abril de 2026

MEU MELHOR AMIGO (UM POEMA DE SAIDEIRA)

conversei com meu melhor amigo
através do espelho
ofereci um cigarro
mas ele não fumava
fiz uma dose
daquilo que ele
não tomava

a conversa foi difícil
ambos nossos roteiros
tinham a fonte do nada
é sempre o vazio
o maior terror 
da conexão

tudo bem
leio um poema
de anti-versos
pra reverter
onde chegamos

mas imitamos
nossos erros

então eu só olho
com a mesma paisagem
de onde estamos

conversei com meu melhor amigo
e o reflexo

sei lá

não sei bem
o que sinto.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

FALTA

quando esvaziei meu cinzeiro
meu lixo tossiu

gasto muito
pra ser feliz
às vezes mais do que posso

gasto até coisa sem nome
pra fingir
e fingir
e fingir
que gosto
de tantas farsas 
que se sumissem
eu, sei lá
continuaria vivo

minha parte sóbria
só consegue escrever
quando bebo

e entre parar de escrever
e parar de beber
prefiro viver no 
zig zag da linha

porque minha direção
é qualquer ponto cardeal
que me dê uma diversão coordenada

é qualquer história
que supere uma ressaca
e vá buscar outra parada
no fluxo contínuo
e traz uma lata de caos
bem gelada, suada
nos meus dedos de carne
e átomos

eu só preciso de mais
pra ser tudo o que sou
vestir o que sou
viajar o que sou
postar o que sou
maquiar o que sou
eu sou
uma total falta
de mim.