não sou tão especial
quanto sua expectativa
nem sou a minha
busco no fosso para achá-la
e a bebo
num copo futuro-cinzeiro
quem me quiser por inteiro
vai ter que me descobrir
primeiro
e depois me explicar
o que viu
debaixo dos meus traumas
debaixo dos escombros
debaixo do tapete
tô buscando amor
ou
qualquer outro vício
que minta pra mim
tô buscando paz
na gilete afiada
na contradição
da própria raiva
que pinta os azulejos
de vermelho
não sou tão especial
e nem você
mas a gente podia
viver uma noite
que não virasse ronco
se não devêssemos mais nada
para a ressaca
quem tem a ousadia
de ver a própria cara
num espelho de alguns dias?
um brinde
um trago
um afago
a gente se afoga
num mar de dúvidas
num rio de dívidas
numa poça de lágrimas
mal choradas
e todos tem seus próprios
Titanics invencíveis
enferrujando
no abismo de suas almas
e eu volto pro cinzeiro futuro-copo
seu presente-corpo
faz feliz minha cama-passada
com lençóis esburacados
de cigarros mal fumados
carentes de certos lábios
que não gasto saliva
para lembrá-los.
não sou tão especial
e nenhum de nós também é
então sejamos comuns
até que se sinta
no álcool, no cigarro
e em qualquer outro vício
que minta;
um pouco dessa vontade
de se viver
infinita.