segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

COBERTURA

eu me cobro com uma voz alheia
e melhoro até parecer
que tudo o que me descartei 
fez alguma diferença

limpo a parede coberta de mofo
mas a sujeira
entra num pulmão
e mora no outro

respiro poeira
feita de pele
que nunca me cobriu
olha meu olho que descobriu
que tudo o que vê
foi a mente que pariu

é que nos dias de chuva
fica difícil sair por aí
e se descobrir
naquilo debaixo da ânsia
mas o tempo insiste na mudança
o tempo só existe na mudança

e eu
mudo

como uma sala em silêncio
me cubro
daquela voz que já conheço.