quarta-feira, 19 de junho de 2024

estar bem me preocupa
estar mal me preocupa
eu me preocupo de entulhos
e descartáveis
esperando o céu azul
cair e estraçalhar meus ossos
mas ele nunca cai
ele nunca cai
e eu fico
e cubro minha cabeça
palpitando
no ritmo acelerado do peito

terça-feira, 4 de junho de 2024

ESSE É MEU JEITO

eu tô dançando eu mesmo
vestindo o meu ridículo
o MEU ridículo
e de mais ninguém

eu sou a noite de euforia
eu sou a cachaça ferventando na barriga
eu sou o tropeço da calçada
a patifaria
a briga que nunca acaba
a gente contra o que nos cala

eu tô furiosamente feliz
afiando meu sorriso
como uma arma
se for pra sangrar nessa vida
que o vermelho ferido
conte boas piadas

um gole gelado
"vamos viver, amigas"
diz o cérebro para as tripas
o fígado em demasia
fazendo hora extra mal paga

eu tô dançando eu mesmo
forte 
como quem sobrevive
ao que não pode.

terça-feira, 21 de maio de 2024

IDADE

é coisa de gente doida pra viver
mas que já sente
o osso roer
o músculo gemer
o rosto envelhecer

então eu te digo
que fico aqui comigo
pouca energia pra gastar
com grandes idiotices alheias

tá tudo na cabeça
na ponta do cérebro
nos dedos ousados da mente

e cada átomo indecente
(que eu cultivo só pra quem merece)
e cada átomo decente
(que eu visto pra quem me esquece)
pulsa com uma juventude incomparável
e uma vontade tesuda
de me enfiar
em todos os buracos do cósmos

e aí me perguntam meu aniversário

tenho 30 e poucos anos
ou a idade do universo
qual é a diferença?

quinta-feira, 9 de maio de 2024

EU NÃO DESISTI

lição pra imprimir
na caixa do crânio
debaixo das marcas e enganos:
"desaprender a desistir"

vou por aí existindo
Sísifo sorrindo
tropeçando quase fora do compasso
quem tá certo e quem tá errado
é quem continua
rua nua de gente
lua muda de vácuo
ilumina porta e pensamento
dá uma luz nos arrependimentos
como a luz de um incêndio
ou a brasa do incensso
sete ervas e eu só fumo uma
pra mente turva
se botar no lugar

eu não desisti 
porque rabisquei e resisti
é por isso que tô aqui
caveira carne rascunho
toca o alarme muda o mundo
um sonho de cada vez

eu não desisti
quero ver o filme todo
imediatamente louco
meu rosto diz meus átomos
minhas mãos meus cálos
eu não me calo
ante a sinfonia incompreensível do acaso

vou dar meus passos
onde a vida continua

te encontro lá. 

domingo, 5 de maio de 2024

DOENÇA

tô doente de vida
pano molhado de álcool
na testa dos fatos
na febre dos tatos

eu tô vivo de momentos
ser humano de pedaços

eu vejo minha infância
eu não entendo minha criança
tão livre de meus erros

morrer é uma escolha impossível
que acontece sempre

o que são os outros quando não eu?

a parede
a parede
diz bege
como todos no trem

eu treinei minhas falas
e tropeço no nada
como gente cutuca o próprio vazio

bastou uma picada
fluiu caos nas veias do relógio
sangrou abismo aos olhos do espelho

tô doente do que desconheço
cabeça leve 
igual poluição

segunda-feira, 1 de abril de 2024

EU SOU A MELHOR PESSOA PARA MIM

meu cérebro é meu melhor amigo
aprende vivendo aquilo que sinto

meu coração é companheiro
pulsa o dia inteiro
para eu poder melhorar
com meus erros

o jeito seco alheio
eu lubrifico com o suor dos olhos
é com os cacos dos meus sentimentos
que eu me reforço

minhas pernas andam
minhas andanças
meus braços me equilibram
na corda bamba

a espinha mantém a linha
sobre onde eu me escrevo
minha língua seus temperos
a gente eu saboreio

a pele querida
virando pó todo dia
escondendo o esqueleto
que dança e rebola
avança e vai embora
quando acaba o respeito

consciência parceira
deixa eu ver a vida em tela cheia
mesmo que muitas vezes feia
transborda do copo sua beleza

eu digo sim
eu sou a melhor pessoa para mim
só eu estarei comigo até o fim
só se pode amar amando a sí
e é por isso que eu ando por aí
de mãos dadas com meus pedaços
buscando no meu tempo o meu espaço

quarta-feira, 27 de março de 2024

MESMO NA ANSIEDADE

parceira inseparável
tira meu ar pra respirar o dela
exposta alma até às costelas
corrente enferrujada na minha mente
eu lubrifico com algo
que me deixe inconsciente

a gente não se entende
papo de muitas ideias
desconexas
pensamentos invasivos
eu não sei como tô vivo
se eu sinto
que minha vida não é minha

mas meu corpo ainda caminha
rumo à direção desconhecida
se soubessem a guerra interna
me davam medalhas e honrarias

peito batuca arritmia
dia após dia todo dia
minha amiga inimiga ansiedade
trouxe lembranças que quero esquecer
trouxe entulhos que não quero ter
trouxe todos os erros
que tive de cometer
um chá, ligo a TV
barulho de fundo para entreter
as paredes e o meu ser
já não tão presente

respiro fundo (é o que restou)
eu ainda luto neste absurdo
sou o cúmulo; no meio do tumúlto
boto um sorriso no rosto
e se hoje não conseguimos
amanhã a gente tenta de novo.