terça-feira, 7 de maio de 2019
O FUMO
mais alguma coisa e
nossos reflexos pelas poças
imundas de São Paulo revelam
olhos dementes loucos irrisórios
aproveitando o agora e
fugindo de todo o resto do tempo.
As bundas ficam coladas
nos bares e
as moças vendem as melhores e
as piores balas do mundo
enquanto a feira de cocaína
rola pelas ruelas da Augusta.
Baladas infernais desmanchando
noites esquecidas
pela embriaguez do bonde.
O fluxo segue os
passos corridos
de quem vem e vai,
caminhando nas alamedas luxuosas
atrás do próximo loló.
Os escândalos angelicais
das migas e migos
com casacos fluorescentes,
quase tão vivos quanto
a chama dentro de
seus corpos tatuados.
Estudantes manifestando
sobre isso e aquilo e aquela
outra coisa que aconteceu e
que foi parar na gaveta dos
jornais nacionais.
Que foi enterrada na lama,
massacrada por oitenta tiros.
Seios e mamilos andando por
aí, com camisas abertas
e mangas arregaçadas.
Uma voz só exigindo igualdade.
Mas estamos ocupados demais
tocando e masturbando
nossas tecnologias.
Minha geração goza em máquinas
e o match é perfeito.
Ficamos nus frente à câmera,
totalmente desprotegidos,
esperando o amor chegar.
Mas todos sabemos
que não passa de
mais uma história, mais
um momento intragável
que pedimos no
bar do China.
Os banheiros gozados
com as mais maravilhosas
porras de pessoas
que cada dia conseguem
ser mais autênticas
e mais orgulhosas de
suas vontades desejos paixões;
seis cores na bandeira hasteada,
colorindo muros da cidade
mais cinza do mundo.
A garoa molha a seda,
molha o tabaco e a paranga.
Molhamos a garganta
com a saliva alheia e
com a bebida alheia,
o cantinho do nosso vale,
o duelo entre sabores
de uma juventude inteira
condenada a ser tão jovem
para sempre.
Sem visão, sem perspectiva
alguma do que pode
acontecer com o aluguel,
a carreira que nossos avós
conquistaram para nossos pais
e que agora nós trocamos
por uma viagem para
o Uruguai, Chile, Irlanda.
A Paulista de pernas abertas
para o domingo penetrá-la
com seu hélio e seus
artistas de rua mendigando
atenção.
O riso inocente da criança
que olha o maluco de estrada
fumando um charuto,
uma verdadeira pica de
maconha, maior que
o braço de um bebê,
dando piruetas e
cantando a ventania
do próprio destino.
Minha geração nasce em máquinas.
A publicidade é perfeita.
Não há um maldito que possa
falar por todos, mas
todos podem falar
por um maldito que
escolheu não eleger
desgraçados que
infestaram o senado e
toda a capital com suposta
ordem e progresso.
Eles não cuidarão de nós.
Nós não cuidaremos de
ninguém.
Somos os filhos rebeldes
do racismo, da homofobia,
da violência, do machismo,
do achismo, do padrão,
da certeza.
Fugimos de casa porque
nossos pais não souberam
o que fazer com suas propriedades,
com seus direitos, com suas
vidas e aposentadorias.
Fugimos de casa porque
casa não é lar.
Nosso abrigo tá no abraço
de algum desconhecido
da rua que olha nos olhos
e diz "é, eu sei".
Nosso abrigo tá na
ocupação de espaço
e tempo, perdendo
cabeças iluminadas
para o abate do
sistema educacional.
Nosso abrigo tá na nova periferia
que atrai turistas do centro.
Que vende o cigarro falso,
o litrão barato,
a vontade de
liberdade, de mudar
as regras do jogo, de
poder errar e errar e errar
até as cicatrizes se acumularem
e nossas almas gritarem
de prazer.
Nós ouvimos Funk, com
"F" maiúsculo de FODA-SE.
Sentamos e quicamos e
rebolamos na cara
de quem acha que caráter
é pessoa recatada.
Temos overdoses cada vez
mais cedo.
Cortamos nossas coxas
cada vez mais cedo.
Temos ataques de pânico
e mergulhamos de cabeça
na depressão da estrada
porque sentimos que
não somos o suficiente
pra agradar os mais velhos,
os mais novos e
os que nem existem.
Minha geração tá perdida,
mas temos GPS e conexão
suficientes para continuarmos
nos perdendo nas biqueiras
dos nossos corres.
Somos o único,
importante,
desesperado,
famélico,
caótico,
poluído,
egoísta,
deprimente,
ansioso,
furioso
futuro da Nação.
domingo, 7 de abril de 2019
CONSELHO PARA MIM
quarta-feira, 3 de abril de 2019
BRISANDO O TEMPO
Lá vem ela, brisa discreta da noite.
Se esfregando pelas sombras até
alcançar meu peito.
Pontada de riso
desabrochando na face murcha
pela semana.
Ninguém sabe de nada,
mas todo mundo
tem certeza de tudo.
Sinto muito, quero só
ver essa silhueta
atrás da cortina do meu quarto,
tentando me seduzir mas
tropeçando nos passos,
dizendo
"Fica pra próxima, hahaha!"
Ela ainda tá aqui,
me atormentando as orelhas,
riscando minhas costas de unha.
Convido-a pra viver
eternamente.
Ela diz que um minuto já
é infinito.
Porra, só fui perceber agora!
Eu tava preso no futuro,
ela saltitando pelo presente.
Não nos encontramos a tempo de
andar pela mesma linha.
quinta-feira, 28 de março de 2019
SEXO MEIO NIILISTA
com dedos enxarcados e
pulmões ofegantes,
a rotina de merda que
tivemos antes
não importa.
Nada mais importa.
Posso sentir o dia inteiro
saindo de você
nesta noite.
Estamos gemendo sons
sem significado para
o universo.
Mas, agora, a
marca da minha mão
na sua bunda significa
muita coisa.
Eu te levanto pela
cintura com braço
firme. Mordo seu
pescoço e puxo
seu cabelo.
Olho no seu olho.
Encaro o abismo
dentro de nós.
Eu o chamo para ser voyeur.
Chupo você completamente,
frente e trás, enquanto
seus dedos se prendem
em minha cabeça.
Seu gozo não é nada vazio.
Amanhã talvez seja.
Quem liga agora?
quarta-feira, 20 de março de 2019
A DANÇA DA FUMAÇA DO MEU ÚLTIMO CIGARRO
Eu mexo o cigarro aceso
pra que a fumaça
o acompanhe enquanto
minha coluna beija a cama e
meu rosto encara o teto e
minha mente pensa no
metrô, no centro da cidade
na garoa, à noite.
Não há muito mais do que isso.
Não precisa ter.
Só um cara da periferia,
no seu quarto,
fumando seu último Eight.
Há tanta arte alí que eu
nem me atrevo a enfeitar
a cena com sentimentos.
Você sabe o que ele tá sentindo.
Você também é
bicho urbano.
sábado, 16 de março de 2019
O MESMO RELACIONAMENTO COM PESSOAS DIFERENTES
Essa sua cara já diz tudo.
Já fala como acaba o mundo.
A gente não se olha mais,
não conversa mais,
não se fode mais,
mas
há um pouco de esperança.
Quem morreu por último
sorriu primeiro.
Novos ares, outros encontros,
recomeços e desencontros
mas
cê ainda tá lá em cima.
Meu pensamento pensa em você.
Nas palavras que não dissemos.
Eu só queria saber se
vai rolar
da gente se encontrar
pra simplesmente rachar
o mesmo litrão da primeira vez.
E eu sei que tenho seu não,
mas não custa perguntar
dessa vez.
É só pra variar,
porque das outras vezes
não perguntei.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
ANSIEDADE É UMA BOSTA
como datilografia.
Velho coração
emputecido
pelo toque da mão
na maçaneta do portão.
Tento respirar
em pausas.
Paro dez vezes e
agonizo quinze.
As vozes da rua
chamando o dia
pra morrer na tarde
no funeral da noite,
até que tudo
esteja morto.
Só preciso
sair de casa.
Cérebro empapado
de pensamento inútil.
Mil imagens nos olhos.
Milhões de tragédias.
Bilhões de gente.
Nenhuma solução.
Enfio a chave na
tranca enferrujada e
torço meu pulso.
Sepá eu fico melhor.