terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O DIA EM QUE TRANSEI COM A FUMAÇA DO MEU CIGARRO

Quando você passa um tempo só, começa a se perguntar, a pensar, a filosofar sobre tudo o que te destrói. E vem a vontade de acender um cigarro, acompanhando um pseudo suicídio interno. Ficar inteiro é muito difícil, e boa parte do tempo eu procuro uma forma de ser mais parecido com o mundo.
Estou olhando a janela do meu quarto, e o dia que se estende lá fora. Começo a soltar bolinhas com a fumaça do meu cigarro. Elas são perfeitamente redondas e perfeitamente voam para fora do meu quarto. O contraste com a luz lhe dá uma forma sublime, quase uma dança, um strip cinza. Minha querida fumaça, me matando aos poucos como qualquer mulher pode me matar.
Decido me masturbar. Não é uma masturbação; é o que chamam de amor. Não estou só, afinal: veja como ela rebola na minha frente, encostando aos poucos na minha pele, habitando meu corpo de dentro pra fora e de fora pra dentro. Começo a trabalhar, e com o cigarro no canto da boca, baforo em cima do meu pau. A sensação é ótima. É melhor do que observar pessoas rígidas nas calçadas.
Quando estou prestes a terminar, tento gozar em cima dela, mas infelizmente minha ejaculação não sai forte o suficiente. O cigarro apaga. Eu me limpo com papel higiênico e ela desaparece entre o mofo das paredes.  Todas elas vão embora um dia. Mas como a fumaça tóxica, ficam dentro do meu peito, me mudando para sempre.

PERFUME

Sua calça estava guardada num destes lugares improvisados (uma caixa de papelão). Com apenas duas peças no arsenal, deixou a que mais usara em um canto para lavar depois. Era hora de usar uma calça diferente da que ele tinha usado nestas duas últimas semanas. Vestiu-a. Estava com um cheiro peculiar, um cheiro nem de mofo e nem de roupa limpa; parecia plástico velho, não muito agradável aos sentidos. Pensou em borrifar seu desodorante corporal por cima dela, só para disfarçar, mas desodorantes custavam muito. "Que se foda", pensou, e foi até seu computador observar a vida dos seus seiscentos e poucos amigos. Não era interessante, nada que o fizesse esboçar um sorriso ou que o fizesse esquecer dos próprios temores. Na realidade, esse hábito acentuava suas inseguranças. Tanto que decidiu fazer companhia à um cigarro de quinta. Um que soltava mais fumaça do que o normal (logo seu quarto virou uma névoa tóxica). "Qual cheiro é melhor?", indagou a si mesmo, "o cheiro da minha calça ou o cheiro do cigarro?".
Como se fosse um incensso, ele decidiu usar seu cigarro para perfumar sua roupa. Um cheiro memorável, original; todos que sentissem cheiro de nicotina saberiam que ele estava por perto. Uma forma genial de deixar sua marca no mundo. Melhor do que escrever. Melhor do que ser famoso, salvar vidas (e a própria vida), ser alguém para os outros. Simplesmente ser um cinzeiro ambulante, um apanhado de lamentações que se vê no meio de outras criaturas insatisfeitas.
Uma fina garoa começou a cair, e da janela ele pode observar a calçada e o asfalto se umedecendo aos poucos.

sábado, 21 de janeiro de 2017

CONFORME TUDO

A diferença é que aqui
eu tenho mais sangue do que
em qualquer outro lugar
do tempo e do espaço.
E eu poderia começar
um universo novo
se quisesse.
Mas tenho preguiça demais
para recomeçar.
Prefiro me conformar.
E não me julgue por isso,
porque você também prefere.
Caso contrário tudo já estaria diferente.
Além disso, reclamar é um vício
muito difícil de abandonar.

E o copo espumou
demasiadamente
enquanto ele continuava falando.

A MAGNÍFICA LISTA DE UMA CRIATURA QUALQUER.

1) Listas são fáceis, então
2) vamos conversar assim:
3) eu listo e você me lê.
4) Quero dar orgulho para minha família.
5) O problema é que eu sou poeta,
6) e poetas têm de jogar seus orgulhos fora.
7) Eu odeio o número sete.
8) Meu gato perdeu as sete vidas de uma vez,
9) e isso me fez pensar se
10) eu deveria te chamar logo para sair.
11) Sinto muita saudade do que você era.
12) Sinto falta do que eu era enquanto você
13) me deixava louco.
14) Mas você se perdeu em algum lugar do passado,
15) e dizem que o passado deve ser deixado pra trás.
16) Principalmente 2016.
17) Vamos ver no que vai dar. E obrigado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

ESPETÁCULO

As gotas amplificadas no último volume,
caindo no meu telhado e
solando uma melodia impossível, mas
tão comum e, mesmo assim, tão
doce que  você esquece que
está numa multidão.
Meus cigarros aplaudem a atração.
Há alguém comigo aqui,
alguém que um dia foi uma promessa.
Sua voz está distorcida e,
de algum modo,
percebo o quanto estamos distantes.
Pare de gritar no meu ouvido a
sua errônea concepção de
quem você queria que eu fosse.
Eu não sou suas expectativas e
nem mesmo sou as minhas.
Sou só um cara que procura a
felicidade
em todos os cantos possíveis,
em todos os shows e
em todos os erros.
A chuva abaixa o volume.
Agora eu posso escutar com clareza
o quanto estamos roucos de tanto
discutir algo que já está morto.
Acho que preciso sair, dar uma volta e
encontrar um pouco de esperança
nos olhos vermelhos que me
pedem um trocado.
Não tenho hora para voltar, e
isso pode até virar
algo produtivo.

DEVERES

Hoje eu levantei e
não quis conversar nem comigo mesmo.
O espelho me olhou e disse:
"Bem que você poderia melhorar essa cara".
Joguei água no meu rosto, desisti e
molhei meu corpo inteiro.
Hoje é dia de sair de casa e
encarar pessoas.
Abri meu armário de máscaras e
peguei qualquer uma que me servisse.
Acabei pegando a do poeta de sorriso fácil.
Não dá pra sair na rua sem uma máscara
porque o sol e as pessoas emitem
radiações perigosas para nossa
pele frágil.
Cumprimentei um vizinho, e o
céu estava parcialmente nublado.

sábado, 12 de novembro de 2016

METRALHANDO AS PESSOAS COM POEMAS

Porque são palavras escritas em qualquer lugar.
Elas representam sentimentos,
ou pelo menos tentam.
Elas são teimosas, e ficam saindo
da minha cabeça,
principalmente quando eu
tô na merda.
A questão é que eu sempre acho que
estou na merda, então as palavras
saem como balas e perfuram
o crânio de tudo aquilo que
tenta me destruir.
Eu tô armado.
Que venha o apocalípse.