sexta-feira, 18 de setembro de 2020
DESPERDÍCIO
terça-feira, 15 de setembro de 2020
MAS EU TÔ BÊBADO
Não fure a fila.
Não diga isso.
Mas eu tô bêbado.
Não seja escroto.
Peça desculpas.
Mas eu tô bêbado.
A lua tá estranha.
E se até a lua
tá assim
eu também posso estar
minguante.
Não faça isso.
Não seja aquilo.
Mas eu tô bêbado.
Tá invencível.
Tá todo torto.
Caiu da escada e não morreu.
Dia nascente,
noite morrente.
Otário solitário
mordendo a própria corrente.
Não me pergunte onde vou.
Não me diga o que fazer.
Eu tô bêbado, bem louco.
Pronto pra me foder.
Amanhã, talvez.
Amanhã, talvez.
AMA
Pálpebra inchada e dolorida. A moça da recepção diz que só há um médico atendendo. Olho para trás e vejo mais de trinta almas esquentando os bancos com suas bundas e doenças.
Esse tom robótico do sistema público de saúde é um exercício de humildade; você não é especial. Nessa claustrofobia há perrengues maiores e menores do que o seu. Aguarde seu nome ser chamado. Pode se sentar. Tento soltar uma piadinha mas é como fazer cócegas na argila.
Há um mercado aqui perto. As chances de um antibiótico ser receitado são altas. Vou beber uma última cervejinha. Escolho o latão de meio-litro e bebo como uma dose de cachaça. Os enfermeiros me olham e me invejam. Eu sei disso. Sinto nos folículos da minha pele. Pois eu também os invejo: toda profissão é útil mas só a deles é reconhecida. Ninguém agradece o pessoal da limpeza. Há lendas de que eles nem existem, mas eu vi um deles certa vez e era uma moça que escrevia poesia. Invisibilidade dupla.
Reparo nas árvores do lado de fora e nos gritos de indignação lá dentro. Coqueiros que lembram a praia e indiferença que remete o inferno. Termino o latão. Enfio, penetro, arregaço meus ouvidos com fones de ouvido e boto um indie pra tocar. Não dá pra reclamar mais baixo não? Você está estragando meus privilégios. Suas queixas não estão no ritmo certo.
Nenhum nome é chamado e o time de enfermos em nada muda. O relógio da parede está até tonto. Resolvo ir embora. Há dias em que não adianta forçar.
Na manhã seguinte, a moça da recepção pergunta o que tenho. "Vou te responder apenas com um olhar". Tiro os óculos escuros e ela dá risada. Minha pálpebra esquerda dobrou de tamanho. Perco a singela simetria facial. Entretanto aquela risada me embelezou de alguma forma. Gosto de ser palhaço. Gosto de ser o tolo, mas isso é assunto para outro momento.
Oito bundas desta vez, e vários médicos ao invés de um só. Foi rapidinho. Uma pomada e compressas de água quente. Beijo, tchau, obrigado, bom serviço. Passo na farmácia do posto e consigo a pomada de graça. O farmacêutico é um amor. O sistema público de saúde às vezes funciona. Há dias em que não precisa forçar.
Volto para casa mais lindo, tranquilo e humilde.
A FODA PERFEITA
No meu quarto.
Sem pressa alguma.
A pessoa gosta de Naruto.
"Vamos fumar um antes?".
Eu não tenho um
ataque de pânico por causa
da maconha.
Meu pau fica duro
por mais de 5 minutos.
Sexo oral.
Meu maxilar chega a doer.
Qualquer música ambiente,
de preferência Jazzhop.
Todo mundo goza. De verdade.
"Meu personagem favorito é o Nagato".
"Gosto muito do Itachi".
Breja.
"Adoro a vibe do seu quarto".
Segundo round.
Deixa fazer na cara.
"Tá tarde. Quer dormir aqui hoje?".
"É lógico!".
Terceira rodada, ou uma
longa conversa sobre
Bojack Horseman.
"Carai, que fome".
"Bora pedir uma pizza?".
A pizza chega em 15 minutos.
NUNCA TRAÍ MINHA POESIA
Mas ultimamente
não posso dizer o mesmo dela.
Não que eu queira controlar
o que ela pode ou não fazer.
É que se não fosse por mim,
ela não seria nada.
Apenas uma idéia polêmica
escondida num nicho
da minha mente.
Tem gente que vai falar
que eu tô sendo
artista
por pensar assim.
Mas nem todo poeta
é artista.
Eu mesmo não sou
porque minha mãe me educou.
Afinal, se fosse ao contrário,
se eu traísse a poesia,
seria considerado
o "adultão", o "bem-sucedidão".
É um mundo bem injusto
para ela.
Julgá-la por ter me traído,
enquanto tantos outros
poetas maltratam e traem
suas poesias
é, enfim, a hipocrisia.
Desejo toda sorte do mundo
para todos os envolvidos.
Agora, mudemos de assunto.
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
QUANDO TUDO ESTÁ PERDIDO, LEMBRE-SE
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
CANÇÃO NOTURNA FELINA
Ao creme das nuvens uma
voz ecoa.
Pequenas patas esmagando amianto, buscando novos telhados.
Olhos teimosos.
Canto de um gato que não é meu.
Sussurro de porcelana
aos pés de uma montanha
de tijolos baianos.
Eu fico acordado.
Penso e não existo.
O impossível blasé caminhando
sobre meu quarto, gemendo
línguas de metal.
Cães começam a latir,
e o silêncio da madrugada
rasga-se em parcelas
até retornar vazio.
Eu fico acordado,
e o gato salta errado e
lambe o próprio cu.