sábado, 24 de fevereiro de 2024

TUDO BEM, EU SUPERO

já superei
as toneladas que botei
em meus ombros.

seguindo morro acima
arrastando meus erros
engatinhando no limite 
dos joelhos e cotovelos 
mas sempre adiante
sempre seguindo
a direção do tempo

vou ficar bem
não tenho outra escolha
o que quer que eu faça
tudo passa
tudo passará

sim, a chuva vem quando ela quer
e as mesas são postas para dentro
e os encontros falecem para amanhã
e simplesmente parece
que o resto dos dias
será sempre borrado de cinza

mas o sol continua solando
por mais grossas que sejam as nuvens
e o mundo continuará girando
mesmo que todos os relógios parem
e eu, como criança de tudo
vivo meu rumo
superando
até a mim mesmo.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

RESISTÊNCIA COMPLEXA

tatuo minhas resistências 
e pertinências
com a indecência da vida

sou de fato minha crença
divino eu sagrado
ao amparo de mim

já sobrevivi meus maiores saltos
e levantei nas minhas piores quedas
porque meu peito tem pressa
de bater sangue nas veias
enquanto ainda há pulso

no silêncio das noites de barulho
eu me escuto
numa voz doce dizendo a brisa amarga

eu já briguei muito com o espelho
sussurrou nos meus ouvidos
cacos inseguros de vidro

reflito e me demito
dessa obrigação de me encaixar
onde tenho que me apertar

eu livre
batendo asa na cara do acaso
pois veja só
já voei todos os meus infernos até agora
queimando algumas penas
mas sempre em frente
como há de ser.

SEM TÍTULO ALGUM

tss! 
é a hora da lata
abre a cabeça arrota a memória
limpar com alcool pra esquecer
carimbado nos olhos mas difícil de ver

ei, eu sei
já vi apuros abrubtos pedirem absurdos
pro resgate 
aquilo que parte faz parte
fez parte
saber perder também é uma arte

eu me perco no meu mundo
no escuro me tateio
no obscuro te anseio
nu maiúsculo em desvaneio
cospe nada que vira a catraca
a coluna estrala
ossos velhos
cabeça cansada
crânio racha desespero

tss!
tô quase na última
e eu nem sei o que sinto
se é fome, se eu minto
se é falta de me usar contigo 
ou se é ódio reprimido

ei, eu tô ligado
mil anos pra ficar largado
selar no silêncio o pacto
um sorriso farto 
de encher o saco
ah! sou cria do acaso
é só rascunho nos meus traços
só me vesti pra ficar pelado
com alguém
que não seja tão eu.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

SECO

eu tenho um problema

queria chorar por nós
mas tô tão seco da ressaca
que não cai uma lágrima.

é, eu tenho um problema

quero homenagear
toda gente que amei
que eu fiz me odiar.

eu tenho um problema

que eu tento resolver sozinho
que eu tento resolver e não consigo
fica eu e meus demônios comigo
inventando brindes
atuando sorrisos.

eu sonhei com você.
sua cabeça encostando no meu ombro.
foi aí que acordei
não é raiva que sinto
(é saudade).

se você fosse a primeira
que eu expulsei da minha vida
eu transferia sua falta pra bebida
mas eu tenho um problema
não sei andar meus passos sem minha muleta.

é, eu tenho um problema
quando tô em mim
não consigo me ver de cima.

eu
quero que você insista
eu
quero que você não desista
eu
quero você à vista
mas
só comprei brigas e distância
é
tenho uma voz que cisma
em gritar com a minha esperança.
aí fico chapado nessa dança
pisando o tempo inteiro
no pé do próprio tempo.

eu tenho um problema

queria ter paciência comigo
mas fui eu que não tive contigo.

aí eu sonho com a gente
com o que podia ser
se fosse eu quem controlasse minha mente.

mas eu tenho um problema
tenho vários problemas.
e  meu copo tá seco.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

CLUBE DA FUGA

vai, dá uma risada
bem trouxa e abobalhada
pro nada que te encara
como se fosse espelho.

na dança rasa das avenidas
a gente afoga as feridas
só pra não perder o ar
um no outro.

joga o salva vidas, seu Zé!
joga e dá no pé!
seu corote é de boa fé
bafora pra ficar lelé!

no clube da fuga
a vida é miúda
não exige luta
e tudo nunca muda

no clube da fuga
todo mundo é pulga
a gente se pula
pra nunca mais.

joga o salva vidas, seu Zé!
joga e se esquece
numa vala qualquer.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

SÓ DAR O SINAL

me mostre mais sua pele
e o que há debaixo dessa roupa.
me mostre o que suas paredes
sabem,
o seu tom de voz em êxtase.

hoje queria suar contigo.
queria arfar e gemer e gritar.
marcar sua bunda
dar tapa na cara
xingar e repetir. 
te chuparia todos os pelos.
te sorriria, um dentro do outro
um lambendo o outro
um corpo pro outro
como se fosse a última vez.

só dar o sinal
que a gente foge desse povo chato
dessa noite chata
desse vazio cheio de nada.

me mostre mais sua pele
e seus buracos.
me mostre suas falhas;
quero me esfregar nelas
até que a gente esqueça
que somos perfeitamente
imperfeitos.
que temos contas
que muita gente é contra
que nossa felicidade 
para alguns é uma afronta.

é, até que a gente se esqueça.
até que as horas e os minutos sumam.
até que o sol venha nos espiar.

só dar o sinal.
eu espero
mordendo meus lábios.

LARGANDO O QUE NÃO SOMA

olha, foi uma honra
participar dos nossos erros.
mas é que a vida confronta
até aqueles que estão parados.
e eu não quero ficar parado
discutindo certo e errado
perdendo tempo com o que não soma.

meu relógio tem voltas finitas
e as últimas eu vou perder de vista.
então não insista;
minhas asas tão coçando pra voar
mesmo que eu voe direto pro muro.

eu também poderia provar algo
pra todo mundo.
mas veja só: ninguém leva medalhas
pro túmulo.
então que digam
aquilo que sou e que não sou.
a gente fala demais e
o silêncio é absoluto.

no mais, você sabe meu endereço:
planeta Terra
zona leste da Via-Láctea.