terça-feira, 15 de junho de 2021

SÍNDROME DO PALQUINHO

Ninguém calava a boca e
aquilo já me irritava tanto que decidi
ir dar um mijão.
Talvez na privada
encontrasse alguém interessante.
Saí de casa pra isso.
Gastei litrões com gente
que não sabe se escutar.

Quando todos acham
que estão no palco,
ninguém é espetáculo.

Atrapalhando-me pelos
corredores apertados,
vi que já dava pra fugir

do que eu nem queria
desde o começo.

"Da próxima", pensei
"vou escutar meu tédio e
fazê-lo companhia".

TAMANHA ANDANÇA

Ando um pouco
andarilho.
Tenho andado perdido
achando que dá
pra se achar
no tempo de
um passo
ao outro.

Só tem o fútil,
o trouxa e o nada.

silêncio impreciso
que diz tudo
sem dizer o absoluto.
Vácuo dos deuses.

Olho pro chão em busca
de notas de alguns reais.
Fuço o maço escasso.
Pensam que sou nóia;
na minha nóia só cabe um.
O resto se fode pra lá.

Um carro me dá passagem.

Tropeço no rascunho da via.

Com tamanha andança,
sempre volto sem fôlego
pra lugar algum.

TE ENCONTREI NO ROLÊ


Caí dentro da supremacia 
do energético.

Fins para meios.

Entre alheios, foi seu corpo
que fodeu com o meu
coração.
Nem precisava desse
sorriso.

Caí dentro da delícia
de você
como acabam as noites
perdidas na quebrada.

Ainda sinto cheiro
de vodca cigarro sexo.
Vou pedir para que façam
um perfume com a mesma
fragrância.

Caí na armadilha da paixão
um jogo que só se ganha
quando não se joga.
Você foi jogar outra coisa
com outra pessoa.
E eu me joguei no fluxo,
bebi mais um pouco,
fiquei à toa.

AGRADEÇA

Azul de hoje

dança de nuvens
e a cabeça preocupada
lambida pelo vento

O dia é presente.
Não seja mal-educado;
agradeça.

Sobre cinza, dentro de lixo
entre concretos
o sonho sonha o sonhador.

Azul de hoje
logo será
aquele que já foi.
E aquilo que já foi será
a história inútil
escrita na terra
em que o cão
enterra a merda.

domingo, 13 de junho de 2021

MARCAS QUE VOCÊ DEIXOU

A gente começou em versos
e agora mal lemos
a prosa.
Uma chama tão forte
apaga devagarinho.

Parte minha
tatuou seu nome
com rosas.
A outra, que ficou,
arrancou a pele
com os espinhos.

A gente sabe:
este "Nós" dura pouco.
Desejei menos noites.
Mas o mundo continuou
rodando bobo
da mesma forma
de sempre.

UM DOMINGO PRA ESCREVER

Passei o domingo inteiro tentando escrever. 
Só lapidei palavras de barro. 
Nada que fizesse jus ao que sentia. 
Simplesmente não ia. 
Os dedos gastavam-se nas teclas. 
Mas na tela havia apenas espaço
e sujeira. 

Resolvi tomar um café e 
comer um pão de torresmo. 
Alimentar os gatos. 
Responder mensagens. 
Procurar o reino dos céus. 
Então voltei pro quarto, 
sentei na cadeira e 
quatro palavras surgiram: 

você
é
um
nada

Aí me aliviei. Era exatamente isso.
Suspirei e fui dormir.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

FOI SÓ UMA NOITE

Só algumas horas e uns minutos
quentes o suficiente
para valerem por dias.
Foi só uma noite.
Mas quantas noites são necessárias
pra sermos felizes?
Por quanto mais precisaremos
enfrentar os anseios
uns dos outros
e tentar amar
por cima e até junto
dos defeitos?
Me diz, por quantas vezes
teremos de repetir
a mesma ladainha?
Foi só uma noite,
algumas horas e
uns minutos.
O suficiente para viciar.
O suficiente para nós.
Agora procuraremos
um ao outro
de formas diferentes
nos demais.