quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

FOLHA MORTA

Meu amor 
é uma folha morta
esquecida na calçada.

Ou algo que combine com a figura.
Um rosto, uma folha,
um quadrado verde e
uma bola rosa.

Eu sonhei com isso
e agora que usei
o Paint pra
ilustrar meus sonhos,
percebo que
palavras não são suficientes.
Nunca foram e nunca serão.

Também descobri que
palavras não machucam.
Não, não são elas
que nos ferem.
Preste atenção da próxima vez
que te decepcionarem.
O que importa
está atrás da cortina,
atrás do balcão.
É questão de interpretação.

Meu amor
é uma folha morta
esquecida na calçada.

Impactante. Marcante.
Errante. 
Inferno de Dante.

Você tinha amantes
e eu não era um deles.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

PINGUIM

você disse que o ódio é tão útil
quanto um pinguim de geladeira
assistindo os surtos de alguém
em decadência.

mas o que sentir
quando se liga a TV
no jornal nacional?

pode ser inútil,
pode queimar a história,
carborizar afetos.

o ódio se alastra como um vírus
e é fácil ficar doente.

mas um pouco é necessário.
serve de impulso,
cria anticorpos.

afinal, meu pinguim de geladeira
conversa comigo, e é ele
que dá as ideias para os poemas.
eu sou só um impostor
roubando a arte da vida,
odiando quase todo mundo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

PORRA

Tanta evolução
mas eu ainda não posso falar
porra.
Porque porra é um palavrão,
por mais que sejamos feitos
de porra.
Somos apenas
porra em metamorfose.
Mas os algoritmos vão
me censurar.
Você vai me censurar,
vai se sentir desconfortável.
Mas se minhas palavras
não te desconfortam
é porque não fiz meu trabalho direito.
Meu trabalho é uma porra.
Você é uma porra.
O mundo é uma porra
quente e massiva
grudada na pele do tempo.

RAGE QUIT

Uma pitada de ódio.
Veio das frustrações,
do que foi engolido à seco.
Uma faísca é o que inicia
a devastação.

Ninguém nunca soube seu nome.
Ninguém nunca soube seu nome.

As cinzas se perderam na chuva.
Os ossos se esconderam
nos escombros.
O que resta de um homem
quando decide partir?

Ninguém nunca soube seu nome.
Ninguém nunca soube seu nome.

A cidade nos digere.
A natureza deseja nosso fim.
Mas somos teimosos demais.
Quando sentiram o cheiro de gás,
já era tarde demais.
Um balde de ódio
e outros infortúnios.
Precisou apenas de uma faísca
para desistir do jogo.

Ninguém nunca soube seu nome.
Ninguém nunca soube.

domingo, 9 de janeiro de 2022

MACONHA

(texto escrito em 2014, com algumas alterações)

maconha não é droga.
droga é o preconceito.
droga é se esconder
atrás de um merda
só para se sentir especial.

maconha não é droga.
droga é a dependência,
essa algema de pelúcia
que prende seu potencial
à um líquido, um papel,
uma planta, 
4700 substâncias tóxicas,
1 relacionamento tóxico.

maconha não é droga.
droga é não viver.
droga é quando querem
que você não viva
só porque você fugiu do padrão.
não vale minha fé
quando querem que eu morra.
é uma droga odiar
aquilo que no fundo você é,
aquilo que você já foi.
seus antepassados,
seus vizinhos,
seus filhos.

maconha não é droga.
droga é deixar de sorrir
por medo do que vão pensar.
cobrir o próprio brilho estrelar
para que pedras otárias
não se sintam mal com suas
falhas.

maconha não é droga.
maconha só é uma droga
quando você se sente uma droga
sem ela.
maconha não é droga, droga!

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A PSICODELIA DE SER (primeiro capítulo)

Eu só não quero morrer. Mas há um mal-estar me acompanhando, um mal-estar com cores amarelas, pétalas murchas, acordes desalinhados. Uma chuva que não cai direito, faz curva e não molha o chão como deveria.
  
Deitar não funciona. Já funcionou um dia, mas não agora. 
Eu só não quero morrer.
 
Meu violão me diz que pode ser meu amigo às terças. Segunda é dia de faxina. Tem de limpar as cordas, a sujeira incrustada entre uma casa e a outra. A Primeira e a Sétima são as piores, ele diz. Violão grandão. Nas quartas é meu voyeur. Vê o podre calejado, vomitado de meus poros. O resto da semana não existe.

Eu só não quero morrer.  

Tempo é uma questão de opinião. Não sei o que pensa a Terra do tempo do Sol, nem do tempo de si mesma. Não sei se a Terra se acha velha ou criança. Também desconheço o que pensam as estrelas sobre os buracos negros. Farão uma festa na bilionésima semana à partir de hoje; uma orgia, uma galáxia engolindo a outra, como o outono engole o verão e é engolido pelo inverno.

Todos os sexos que não fiz são a causa do problema. Devem ser a causa do problema. Pelo menos é a minha opinião, e opinião é questão de tempo. Os sexos que fiz também se uniram ao partido desprogressista. Passos para trás que dou todo domingo começo de mês. Domingos são os piores, eu poderia dissertar sobre seus malefícios até o dia da orgia intergaláctica caso meu corpo durasse tanta opinião. 

Eu só quero o que quero, o oposto do que não quero. Se não quero morrer, então eu quero viver? Mas estou vivendo meio que não querendo. E a culpa não é da vida. Já disse: sexo é a raiz da minha árvore parasita. Sou sugado por mim mesmo. 

A única coisa que não me suga é a cerveja. Cerveja e gastar as solas do meu All-Star nas calçadas paulistas desta floresta de pedras pixadas. Gosto dos pixos, são como tatuagens nos prédios, feitas por tatuadores de várzea corajosos o suficiente pra expressar seus demônios. 

Meus demônios só saem às sextas-feiras, depois do serviço. Trabalham no RH das emoções. Despedem as boas e contratam as péssimas. O partido desprogressista tem seus contatos. Para se divertirem, levam minha carteira e minhas chaves e a sola do meu All-Star até a adega mais próxima. O maço de cigarro se acha o bonzão. Se soubesse que já fumei de graça não cobraria um preço tão alto por suas toxinas. Meus demônios flertam com o mentolado e aquele que possui três vezes mais monóxido de carbono. 

Eu só não quero morrer.
Escolho o mentolado.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

MAIS LIVRE

Queria ser mais livre,
mas a gente vai envelhecendo
e botando algemas
em nós mesmos.
Tanto medo de morrer
que acaba morrendo de não-viver.
Hoje já penso como
os velhos dementes que me diziam
pra tomar cuidado.
Agora sou até amigo deles,
os meus amigos que me acompanharam.
Eu queria ser mais livre de mim,
mas sou tudo o que tenho,
e a única posse que vale a pena.
Uma pena eu ter de me vender tanto.
Seminovo deveras usado.
Rodou tanto que agora prefere
ficar parado.
Um velho num jovem de braços,
pernas e genitais
que ainda funcionam
de vez em quando.
Ah, eu só queria uma folga
entre o trabalho de ser
e a paz de fantasiar.
De ser da Terra mas
repousar no meu mundo.
Mais livre disso.
Mais livre do que isso.
Apenas
a s s i m