sexta-feira, 6 de novembro de 2020

NÃO HÁ SAÍDA FÁCIL

Quando as letras de pagode
fizerem sentido pra você,

não há saída fácil.

Quando você dorme,
sonha,
acorda na mesma pessoa;
e o dia se prolonga
na memória do seu
rosto,

não há saída fácil

Quando dá pra
jogar tudo pro alto, ou
quando correr atrás do trem
todos os dias
se tornar nada comparado
ao que você quer
construir com a pessoa,

não há saída fácil.

ÚLTIMOS

O último amor.
A última lata.
A última risada.
O último passeio.
A última entrada e
a última saída.

Últimos segundos
pra dar valor à vida.

A última dor.
O último olhar.
A última canção.
O último pôr-do-sol.
A última alvorada.
A última ressaca e
a última sobriedade.

Últimos segundos
pra dar valor à vida.

O mais intrigante 
disto tudo
é que nunca saberemos
quando for o último.
E até a palavra
fica estranha.
A última palavra.

BOLOS

Já levei alguns
bolos, 
mas alguns são
mais amargos do que
outros.
Tem uns que
nem dá pra
empurrar pra baixo.
São nestas horas que
a gente percebe
nosso papel de trouxa
nesse teatro de
futilidade.
Mas a gente 
tem que tentar
não levar pro pessoal.
É só mandar a pessoa
ir tomar no cu
com carinho.

NOVO RECORDE

Estou a 28 anos sem morrer
ou sem tirar minha vida.
Este é meu
novo recorde.
Amanhã vou tentar
batê-lo novamente.

SAIDEIRA

Depois de ter
fumado uns,
ele ainda queria
comprar mais breja.
Já estávamos no
terceiro engradado.
"Saideira", ele disse.
Fomos até a adega
perto de sua casa.
Abriram muitas adegas
com esta pandemia.
Creio que beber
seja o jeito mais
fácil de engolir
essa situação.

Muito doido, chapado,
ele tomou na bundinha,
virou outra lata,
misturou o resto de
vodca
dança na mesa.
Depois ele
aprendeu a amar.
Ficou me amando
a noite inteira.
"Te amo cara, você é parceiro",
ele repetia duzentas vezes.

Falei que ia embora.
"Saideira", ele disse.

Não lembro como voltei
pra casa.

EXPOSIÇÃO

De barriga exposta pros anjos,
ele deita na calçada
da rua mais podre
de São Paulo.
Coça o rabo, levanta,
vai até o lixo e
arranja um copo.

Na outra calçada,
observo seus passos.
Tô enfiando Corote
goela abaixo.
É óbvio que ele vai
me pedir um gole.

Mantemos contato visual.
Ele vem na minha direção.
"Essa porra mata", ele diz.
Passa direto, de copo vazio.
Vai embora.

Acho que tá bom
por hoje.

BLOQUEIO MENTAL

Nada. Nada pra 
expor aos meus amigos.
Será que 
a iluminação
foi alcançada?
Ou é só
uma mente cansada
de tanta merda
dia após dia?
Vou votar 
na primeira opção,
mas sei que a 
segunda vai ganhar.