sexta-feira, 11 de novembro de 2016
MANIFESTO EM DEFESA DA ARTE, DE QUALQUER EXPRESSÃO DAS CRIATURAS QUE POSSUEM CORAGEM SUFICIENTE PARA ENCARAR O ESCÁRNIO.
Sobrevivo hoje porque tenho pessoas maravilhosas ao meu redor. Pura sorte. Elas ainda acreditam que eu vou dar a volta por cima. Muitos artistas não têm essa sorte, e morrem no meio do caminho enforcados num uniforme ou numa gravata. Assassinados por diplomas de contabilidade, administração, publicidade e outros.
Nem a chuva ajuda. Ela limpa o ar e as calçadas, fechando as portas de quem trabalha na rua. Você olha pro céu e pensa "porra, Deus, por que hoje?". Então você acende um cigarro e caminha sem guarda-chuva por aí, pensando em que tipo de emprego você se daria bem.
Nessas horas a Arte está correndo risco de vida. Ser artista é uma constante fragilidade. Até a fama pode destruir um dos bons. E eu vejo nos grupos os iniciantes, ainda com aquela chama, aquela esperança de que viver bem é viver artista.
Um dia, eu sonho, os poemas serão moedas de troca. Uma cerveja custará um poema e meio. Uma casa custará um livro. E não só os poemas, mas como qualquer expressão verdadeira. As pessoas finalmente entenderão que a vida sem Arte não vale a pena. Onde encontrar beleza numa barata despedaçada num bueiro? Ou no limo de uma escada velha? Ou no seu amor, tirando a roupa na sua frente, enquanto você escuta a garoa caindo lá fora?
Os artistas são abridores de mente. O papel deles é dizer "olha, isso aqui é belo, é profundo, é um sentimento". O ser humano vê a vida cinza por natureza, e toda cor é uma poesia.
Não defendo arte ruim. Há várias por aí. Existem os pilantras, os falsos poetas. Se fantasiam de "artistas" e jogam qualquer merda na cara das pessoas. Que se foda este tipo de lixo. Se não há sangue em cada letra,
em cada passo,
em cada traço,
em cada acorde,
em cada pedaço,
então não é verdade.
Algumas pessoas conseguem até viver de mentira. É mais fácil do que parece. Basta você julgar sua vida baseando-se nos padrões que você vê por aí. Ter medo do ridículo é viver de mentira. Ter medo de ser você é viver de mentira. Viver sem arte é viver de mentira.
Eu pensei que seria bom me ver na merda com sessenta anos. Mas, talvez, se pequenas coisas mudarem, isso não será necessário. E enquanto meu corpo não apodrece, eu continuo gritando.
Parabéns para nós.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
UNHAR
eu tomo banho.
Minhas costas são feridas abertas.
Dizem que marcas de arranhões,
se muito profundas,
não cicatrizam nunca mais.
Meu corpo tá todo carimbado.
O gosto da sua boca tá
na minha.
Sua lubrificação grudou na garganta.
Um evento raro que só acontece
uma vez por ano.
Agora eu tô só, e ela também.
Amar e fazer amor são coisas
totalmente distintas,
mas ninguém sabe
diferenciar, afinal.
Não me culpem.
AMADURECIMENTO
O bar tornou-se seu amigo.
Todo mundo te julga.
Estão te observando.
É melhor não passar vergonha.
O que vão pensar de você se
você vomitar numa lata de lixo ou
andar sem as calças por aí?
Quando você podia jogar
a culpa em alguém,
tudo era fácil.
Agora a culpa é sua.
É sua responsabilidade batendo na porta.
Você não vai atender?
Ela deixou um recado pra você.
Conta de luz.
Não dá mais para ir ao cinema
ou comprar um milkshake no
shopping.
Fique na sua casa.
Envelheça, amadureça e
apodreça.
Os fungos cuidarão de você.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
ANTES DA ABORDAGEM
Sei lá, pode ser uma mania ou
uma certa falta de comprometimento,
mas hoje eu decidi almoçar dois pães franceses.
É mais barato do que uma coxinha, e
quase tem o mesmo sabor se
você souber lidar com as merdas que te acontecem.
Pedi azeite numa mesa de um restaurante,
abri o pão no meio, reguei com oliva e
o casal me olhou como dois gatos
te olham enquanto você os aperta.
Eu podia ter comprado uma esfiha, ou um
pacote de amendoim, mas estas coisas
não te sustentam enquanto você aborda
estranhos, com seus problemas e suas
conversas e os beijos.
Caminhei então pelos vãos, pelo meio da
avenida, me desviando dos carros e
dos maus pensamentos, enquanto ácido
gástrico corroía 200g de fermento e farinha.
Eu podia ter comprado um maço de
Minister, fumá-lo de uma só vez e
rezar para que tudo passasse logo, mas
o tempo não nos escuta na sua correria.
"Olá, boa noite! Estou dando poemas
para as pessoas com quem eu vou
com a cara..."
domingo, 21 de agosto de 2016
DOPADO
Começou quando eu tinha problemas, e ela também, e nossos problemas se gostaram. Tudo por causa de alguns olhares trocados num vagão frio do centro da cidade. Eu tava na merda. Não queria falar com ninguém. Mas ela me olhou, e isso me causou medo e arrepio e ao mesmo tempo uma esperança de que as coisas mudariam. Entreguei um de meus poemas eróticos para ela e a convidei para uma cerveja. Ela aceitou, e eu esbocei um sorriso de verdade.
Na chuva, dividimos a sombrinha dela. Eu odeio ter de desviar das pessoas na rua, odeio as pessoas na rua, mas ela começou a dançar com seu vestido florido e seus cabelos curtos alaranjados, e eu nem sequer pensei sobre o mal que nos habita. Babando em alguns cigarros, pedi um litrão. Ela não bebe. Só está alí porque eu a convidei e ela é uma boa louca. Uma criatura rara que você só encontra uma vez na vida (uma criatura rara e que existe, não essa merda virtual dos dias modernos).
Seus olhos mudavam à medida em que nos abríamos. É bom conversar sobre coisas tristes, sobre nossos pais e nossos medos. Sobre tudo o que odiamos, e o nosso ódio se combina majestosamente. Ó, minha rainha! Poderia ficar a noite inteira só olhando para seus lábios, desejando chupá-los até extrair o melhor de você. Poderia ficar uma vida escorado ao seu lado, vendendo meus poemas e ansiando nossa ansiedade. E suas pernas! Ah, suas pernas! Me dê um pouco delas! Seu vestido florido levanta às vezes, e eu não consigo desviar o olhar. Ela também não fuma e recusa meu cigarro. Estamos mais próximos agora, física e espiritualmente, embora não acreditemos em espírito. Mas há algo além, algo que nos faz olhar dentro de nossos olhos por um minuto, e os olhos delas adquirem um tom de mel, e eu lasco-lhe um beijo sedento. Seus lábios se encaixam perfeitamente aos meus, como um quebra-cabeças de 500 peças.
Nos escondemos num canto da cidade e, por algumas horas, nos amamos. Talvez não seja amor da forma que todos conheçam, mas na realidade ninguém conhece o amor. Só nós dois conhecíamos naquele instante, e somente naquele instante queimamos como todo ser humano deve queimar em sua vida. O fogo é tão grande que incendeia os prédios e os lençóis e o rosto murcho da depressão. Em pouco tempo, sabemos a cor da nossa alma.
Depois da chuva cessar um pouco, nos separamos. Cada um volta para o seu canto, e eu não consigo pensar em mais nada. O nariz dela, a orelha, a boca, o sorriso, os cílios, os joelhos, as mãos pequenas, as mãos dela analisando as minhas e todos os detalhes vividos entre um beijo e outro, entre uma pílula e outra engolidas à seco.
Me sinto dopado. E não só sinto; estou. Tenho pouco tempo de vida. A medicação já não faz mais efeito. Meu coração apodrece à cada segundo, e não há mais um poema para escrever. Bem que me disseram para maneirar, mas isso aconteceria de qualquer jeito mesmo. E ela vem, a doce morte, beijar meus lábios novamente, como os franceses chamam: La petite mort.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
MASTURBE-SE
O que você quer fazer
(e já faz, mas diz que não),
é tão comum quanto ir ao shopping de domingo.
Cortar o cabelo é masturbação.
Vestir roupas novas é masturbação.
Autoestima é masturbação.
Mas tudo isso não faz você ficar
com as pernas bambas.
E nada disso te faz conhecer-se melhor.
Você aí, que não conhece sua própria buceta,
como você quer que um desconhecido, que
mal sabe quem você é realmente,
consiga te chupar direito?
Se nem você se ama, por que outra pessoa
deveria amar?
Tá entendendo como a coisa é profunda?
Não é "coisa de quem não transa".
Tudo bem, você pode se sentir só às vezes.
Mas quem aqui não vai morrer só?
Segure-se, massageie-se, enfie
dois ou três dedos, imagine aquela
sua ex que era boa de cama.
Só pare de proliferar tabus por aí.
Ninguém precisa disso.
SOBRE SER ONLINE
Não me mandem mensagens, a não ser que
você tenha um pouco de você
para me dar.
Ou se quiser me dizer onde você
estará daqui a duas horas.
Conheci pessoas maravilhosas por
estas ruas à noite, e essas mesmas
pessoas maravilhosas se preocupam
demais em:
- adicionar no Facebook;
- número de telefone;
- selfie.
Não! Não! Eu imploro!
Qual foi a última vez que você
conversou realmente com uma pessoa, e
não com uma máquina que responde
10,20,30 contatos ao mesmo tempo?
Sinto saudade do toque, do hálito de
cigarro e cerveja, dos abraços,
de quando alguém ia com a minha cara e
sentava no meu colo.
Não percam sua humanidade e o seu estilo.
Você não possui 100% de bateria e
algumas tomadas.
Se for pra conversar comigo neste
mundo que não existe,
pague-me um litrão no mercado do chinês.