quinta-feira, 6 de junho de 2019

ATÉ AS FLORES CONSEGUEM

Quando você bateu a porta
da sala, um quadro do
meu quarto acabou caindo.
Você saiu com tanta pressa
que esqueceu o seu anel de prata.
Eu continuei na cama, olhando
para o teto sem sentir
coisa alguma.
Nada.
Nenhuma vontade.
Só uma irritação na
garganta, um sabor de
ressaca mal-curada e
um looping na minha cabeça
dizendo que eu sou
a pior criatura na Terra.
Talvez eu não merecesse
mesmo este corpo seu,
maravilhoso, chocolate
meio-amargo.
Nem o tempo que você
perdeu tentando me excitar.
Foi mal; vou ficar devendo
estes minutos pra sempre.
Acendo um cigarro e a
fumaça diz que "é normal".
E uma abelha, em algum
lugar deste mundo, está
agora fertilizando uma flor.

PROMETO

É que quando você
tá gemendo baixinho no
meu ouvido,
e eu sinto a vida quente
sobre minha pele, e
o meu corpo enterrado
no seu, parece que
os problemas desaparecem.
Quando você diz que
vai sentar na minha cara
e rebolar na minha boca
até gozar,
todas as dívidas são pagas.
Todas as brigas, perdoadas.
O sol até dá uma curiada
por entre as nuvens da chuva.
Amo o seu cheiro, e
poderia te lamber até
o fim-do-mundo, beijar
cada canto dessa delícia
que você chama de corpo.
Poderia até mamar seus anseios,
penetrar na sua insegurança,
abraçar sua tristeza.
"Foder é divertido,
mas foda apenas com
meu corpo", você diz.
Ok, nada de promessas.
Prometo.

VIOLINO

Anda na chuva, e a capa
de seu violino molha.
Logo menos, as únicas
luzes serão as dos postes,
das vitrines e dos faróis.
Embaixo de um toldo,
as cordas começam
a chorar uma melodia,
a cidade escuta ao fundo,
as gotas caem em silêncio.
Algumas moedas caem
na capa molhada que jaz
aberta na calçada.
A mina tá de olhos
fechados.
Em outro canto, um
cara bate nos pratos e
o bumbo toca o peito
daqueles que estão no porão.
Numa esquina, outra garota
canta ópera. Um cara balança
um saco cheio de latas.
O metrô avisa a próxima
estação. Um grupo
brinda sua cerveja.
O violino é guardado com
carinho debaixo de
umas palavras, tão imortal
quanto um momento, e
agora os prédios apagam
suas luzes pra dar
uma chance ao sol.

ME DESMANCHE

Tire cada peça minha.
Jogue em qualquer lugar.
Quero sentir sua língua
dizendo "que gostoso",
bem devagarinho, entre
um lábio e outro enquanto
você toma fôlego.
Não precisa acender a luz
porque a janela me dá
permissão de ver seu
corpo com as minhas mãos,
sua silhueta em contraste
com a fria arquitetura
dos prédios ao fundo.
Nosso azul no arrepio
dos pelos do seu braço,
que leva sua mão
até minhas costas,
e suas unhas até minha pele.
A cama te abraça por trás,
eu sigo por cima, por enquanto.
Não consigo parar de te beijar.
Sua respiração encosta
suavemente sobre meu rosto,
e isso me deixa louco,
com vontade de dizer para
a noite que não tenha
pressa de acabar.
No fim, mais duas pessoas
num apartamento
infectado de
gente.

terça-feira, 7 de maio de 2019

O FUMO

Meus amigos estão querendo
mais alguma coisa e
nossos reflexos pelas poças
imundas de São Paulo revelam
olhos dementes loucos irrisórios
aproveitando o agora e
fugindo de todo o resto do tempo.
As bundas ficam coladas
nos bares e
as moças vendem as melhores e
as piores balas do mundo
enquanto a feira de cocaína
rola pelas ruelas da Augusta.
Baladas infernais desmanchando
noites esquecidas
pela embriaguez do bonde.
O fluxo segue os
passos corridos
de quem vem e vai,
caminhando nas alamedas luxuosas
atrás do próximo loló.
Os escândalos angelicais
das migas e migos
com casacos fluorescentes,
quase tão vivos quanto
a chama dentro de
seus corpos tatuados.
Estudantes manifestando
sobre isso e aquilo e aquela
outra coisa que aconteceu e
que foi parar na gaveta dos
jornais nacionais.
Que foi enterrada na lama,
massacrada por oitenta tiros.
Seios e mamilos andando por
aí, com camisas abertas
e mangas arregaçadas.
Uma voz só exigindo igualdade.
Mas estamos ocupados demais
tocando e masturbando
nossas tecnologias.
Minha geração goza em máquinas
e o match é perfeito.
Ficamos nus frente à câmera,
totalmente desprotegidos,
esperando o amor chegar.
Mas todos sabemos
que não passa de
mais uma história, mais
um momento intragável
que pedimos no
bar do China.
Os banheiros gozados
com as mais maravilhosas
porras de pessoas
que cada dia conseguem
ser mais autênticas
e mais orgulhosas de
suas vontades desejos paixões;
seis cores na bandeira hasteada,
colorindo muros da cidade
mais cinza do mundo.
A garoa molha a seda,
molha o tabaco e a paranga.
Molhamos a garganta
com a saliva alheia e
com a bebida alheia,
o cantinho do nosso vale,
o duelo entre sabores
de uma juventude inteira
condenada a ser tão jovem
para sempre.
Sem visão, sem perspectiva
alguma do que pode
acontecer com o aluguel,
a carreira que nossos avós
conquistaram para nossos pais
e que agora nós trocamos
por uma viagem para
o Uruguai, Chile, Irlanda.
A Paulista de pernas abertas
para o domingo penetrá-la
com seu hélio e seus
artistas de rua mendigando
atenção.
O riso inocente da criança
que olha o maluco de estrada
fumando um charuto,
uma verdadeira pica de
maconha, maior que
o braço de um bebê,
dando piruetas e
cantando a ventania
do próprio destino.
Minha geração nasce em máquinas.
A publicidade é perfeita.
Não há um maldito que possa
falar por todos, mas
todos podem falar
por um maldito que
escolheu não eleger
desgraçados que
infestaram o senado e
toda a capital com suposta
ordem e progresso.
Eles não cuidarão de nós.
Nós não cuidaremos de
ninguém.
Somos os filhos rebeldes
do racismo, da homofobia,
da violência, do machismo,
do achismo, do padrão,
da certeza.
Fugimos de casa porque
nossos pais não souberam
o que fazer com suas propriedades,
com seus direitos, com suas
vidas e aposentadorias.
Fugimos de casa porque
casa não é lar.
Nosso abrigo tá no abraço
de algum desconhecido
da rua que olha nos olhos
e diz "é, eu sei".
Nosso abrigo tá na
ocupação de espaço
e tempo, perdendo
cabeças iluminadas
para o abate do
sistema educacional.
Nosso abrigo tá na nova periferia
que atrai turistas do centro.
Que vende o cigarro falso,
o litrão barato,
a vontade de
liberdade, de mudar
as regras do jogo, de
poder errar e errar e errar
até as cicatrizes se acumularem
e nossas almas gritarem
de prazer.
Nós ouvimos Funk, com
"F" maiúsculo de FODA-SE.
Sentamos e quicamos e
rebolamos na cara
de quem acha que caráter
é pessoa recatada.
Temos overdoses cada vez
mais cedo.
Cortamos nossas coxas
cada vez mais cedo.
Temos ataques de pânico
e mergulhamos de cabeça
na depressão da estrada
porque sentimos que
não somos o suficiente
pra agradar os mais velhos,
os mais novos e
os que nem existem.
Minha geração tá perdida,
mas temos GPS e conexão
suficientes para continuarmos
nos perdendo nas biqueiras
dos nossos corres.
Somos o único,
importante,
desesperado,
famélico,
caótico,
poluído,
egoísta,
deprimente,
ansioso,
furioso
futuro da Nação.

domingo, 7 de abril de 2019

CONSELHO PARA MIM

Sua vida tem que ser interessante
ao invés de ser perfeita.
Vidas perfeitas são um chute no cu.
Pare com essa mania de 
não se aceitar.
Camuflar rabiscos com tinta esnobe.
Os melhores momentos, os mais
marcantes,
foram ao lado de gente s o l t a.
Quando você se julga,
todos ao redor se sentem
julgados também.
Faça um favor para nós e
se liberte.
Se apóie.
Se dê o ombro amigo.
Ninguém te conhece tão bem
quanto você.
Quando te cagam pareceres,
estão criticando o livro todo
apenas pela orelha.
Um poeta todo
apenas por um poema.
Fodam-se os conceitos.
Fodam-se os padrões.
Fodam-se as opiniões.
Seu DNA já é querido pelo universo.
Um em 7,6 bilhões.
As chances estão a seu favor.
Aproveite.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

BRISANDO O TEMPO

Lá vem ela, brisa discreta da noite.
Se esfregando pelas sombras até
alcançar meu peito.
Pontada de riso
desabrochando na face murcha
pela semana.
Ninguém sabe de nada,
mas todo mundo
tem certeza de tudo.
Sinto muito, quero só
ver essa silhueta
atrás da cortina do meu quarto,
tentando me seduzir mas
tropeçando nos passos,
dizendo
"Fica pra próxima, hahaha!"
Ela ainda tá aqui,
me atormentando as orelhas,
riscando minhas costas de unha.
Convido-a pra viver
eternamente.
Ela diz que um minuto já
é infinito.
Porra, só fui perceber agora!
Eu tava preso no futuro,
ela saltitando pelo presente.
Não nos encontramos a tempo de
andar pela mesma linha.