Sua calça estava guardada num destes lugares improvisados (uma caixa de papelão). Com apenas duas peças no arsenal, deixou a que mais usara em um canto para lavar depois. Era hora de usar uma calça diferente da que ele tinha usado nestas duas últimas semanas. Vestiu-a. Estava com um cheiro peculiar, um cheiro nem de mofo e nem de roupa limpa; parecia plástico velho, não muito agradável aos sentidos. Pensou em borrifar seu desodorante corporal por cima dela, só para disfarçar, mas desodorantes custavam muito. "Que se foda", pensou, e foi até seu computador observar a vida dos seus seiscentos e poucos amigos. Não era interessante, nada que o fizesse esboçar um sorriso ou que o fizesse esquecer dos próprios temores. Na realidade, esse hábito acentuava suas inseguranças. Tanto que decidiu fazer companhia à um cigarro de quinta. Um que soltava mais fumaça do que o normal (logo seu quarto virou uma névoa tóxica). "Qual cheiro é melhor?", indagou a si mesmo, "o cheiro da minha calça ou o cheiro do cigarro?".
Como se fosse um incensso, ele decidiu usar seu cigarro para perfumar sua roupa. Um cheiro memorável, original; todos que sentissem cheiro de nicotina saberiam que ele estava por perto. Uma forma genial de deixar sua marca no mundo. Melhor do que escrever. Melhor do que ser famoso, salvar vidas (e a própria vida), ser alguém para os outros. Simplesmente ser um cinzeiro ambulante, um apanhado de lamentações que se vê no meio de outras criaturas insatisfeitas.
Uma fina garoa começou a cair, e da janela ele pode observar a calçada e o asfalto se umedecendo aos poucos.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
PERFUME
sábado, 21 de janeiro de 2017
CONFORME TUDO
eu tenho mais sangue do que
em qualquer outro lugar
do tempo e do espaço.
E eu poderia começar
um universo novo
se quisesse.
Mas tenho preguiça demais
para recomeçar.
Prefiro me conformar.
E não me julgue por isso,
porque você também prefere.
Caso contrário tudo já estaria diferente.
Além disso, reclamar é um vício
muito difícil de abandonar.
E o copo espumou
demasiadamente
enquanto ele continuava falando.
A MAGNÍFICA LISTA DE UMA CRIATURA QUALQUER.
2) vamos conversar assim:
3) eu listo e você me lê.
4) Quero dar orgulho para minha família.
5) O problema é que eu sou poeta,
6) e poetas têm de jogar seus orgulhos fora.
7) Eu odeio o número sete.
8) Meu gato perdeu as sete vidas de uma vez,
9) e isso me fez pensar se
10) eu deveria te chamar logo para sair.
11) Sinto muita saudade do que você era.
12) Sinto falta do que eu era enquanto você
13) me deixava louco.
14) Mas você se perdeu em algum lugar do passado,
15) e dizem que o passado deve ser deixado pra trás.
16) Principalmente 2016.
17) Vamos ver no que vai dar. E obrigado.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
ESPETÁCULO
As gotas amplificadas no último volume,
caindo no meu telhado e
solando uma melodia impossível, mas
tão comum e, mesmo assim, tão
doce que você esquece que
está numa multidão.
Meus cigarros aplaudem a atração.
Há alguém comigo aqui,
alguém que um dia foi uma promessa.
Sua voz está distorcida e,
de algum modo,
percebo o quanto estamos distantes.
Pare de gritar no meu ouvido a
sua errônea concepção de
quem você queria que eu fosse.
Eu não sou suas expectativas e
nem mesmo sou as minhas.
Sou só um cara que procura a
felicidade
em todos os cantos possíveis,
em todos os shows e
em todos os erros.
A chuva abaixa o volume.
Agora eu posso escutar com clareza
o quanto estamos roucos de tanto
discutir algo que já está morto.
Acho que preciso sair, dar uma volta e
encontrar um pouco de esperança
nos olhos vermelhos que me
pedem um trocado.
Não tenho hora para voltar, e
isso pode até virar
algo produtivo.
DEVERES
Hoje eu levantei e
não quis conversar nem comigo mesmo.
O espelho me olhou e disse:
"Bem que você poderia melhorar essa cara".
Joguei água no meu rosto, desisti e
molhei meu corpo inteiro.
Hoje é dia de sair de casa e
encarar pessoas.
Abri meu armário de máscaras e
peguei qualquer uma que me servisse.
Acabei pegando a do poeta de sorriso fácil.
Não dá pra sair na rua sem uma máscara
porque o sol e as pessoas emitem
radiações perigosas para nossa
pele frágil.
Cumprimentei um vizinho, e o
céu estava parcialmente nublado.
sábado, 12 de novembro de 2016
METRALHANDO AS PESSOAS COM POEMAS
Elas representam sentimentos,
ou pelo menos tentam.
Elas são teimosas, e ficam saindo
da minha cabeça,
principalmente quando eu
tô na merda.
A questão é que eu sempre acho que
estou na merda, então as palavras
saem como balas e perfuram
o crânio de tudo aquilo que
tenta me destruir.
Eu tô armado.
Que venha o apocalípse.
TALVEZ O PROBLEMA SEJA A FALTA DE DOPAMINA
Oh, droga! O que eu devo fazer?
Todo dia é uma guerra para
simplesmente levantar da cama.
Só isso, e eu já levanto exausto.
Já busquei a porra da felicidade
em cada canto dessa cidade imunda,
e eu só vejo destruição.
Eu tento sorrir.
Eu juro que tento.
Contraio os músculos da face e
assisto vídeos de gatinhos.
Chego num ponto em que
nem sei mais qual é o problema.
Nada me satisfaz.
Não quero tomar remédios.
Não quero procurar ajuda.
Não quero mais nada além
de um cigarro.
Levo uns dois, três minutos para
fumar um.
Quantos cigarros terei de fumar
até que o dia acabe?