segunda-feira, 17 de outubro de 2016
AMADURECIMENTO
O bar tornou-se seu amigo.
Todo mundo te julga.
Estão te observando.
É melhor não passar vergonha.
O que vão pensar de você se
você vomitar numa lata de lixo ou
andar sem as calças por aí?
Quando você podia jogar
a culpa em alguém,
tudo era fácil.
Agora a culpa é sua.
É sua responsabilidade batendo na porta.
Você não vai atender?
Ela deixou um recado pra você.
Conta de luz.
Não dá mais para ir ao cinema
ou comprar um milkshake no
shopping.
Fique na sua casa.
Envelheça, amadureça e
apodreça.
Os fungos cuidarão de você.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
ANTES DA ABORDAGEM
Sei lá, pode ser uma mania ou
uma certa falta de comprometimento,
mas hoje eu decidi almoçar dois pães franceses.
É mais barato do que uma coxinha, e
quase tem o mesmo sabor se
você souber lidar com as merdas que te acontecem.
Pedi azeite numa mesa de um restaurante,
abri o pão no meio, reguei com oliva e
o casal me olhou como dois gatos
te olham enquanto você os aperta.
Eu podia ter comprado uma esfiha, ou um
pacote de amendoim, mas estas coisas
não te sustentam enquanto você aborda
estranhos, com seus problemas e suas
conversas e os beijos.
Caminhei então pelos vãos, pelo meio da
avenida, me desviando dos carros e
dos maus pensamentos, enquanto ácido
gástrico corroía 200g de fermento e farinha.
Eu podia ter comprado um maço de
Minister, fumá-lo de uma só vez e
rezar para que tudo passasse logo, mas
o tempo não nos escuta na sua correria.
"Olá, boa noite! Estou dando poemas
para as pessoas com quem eu vou
com a cara..."
domingo, 21 de agosto de 2016
DOPADO
Começou quando eu tinha problemas, e ela também, e nossos problemas se gostaram. Tudo por causa de alguns olhares trocados num vagão frio do centro da cidade. Eu tava na merda. Não queria falar com ninguém. Mas ela me olhou, e isso me causou medo e arrepio e ao mesmo tempo uma esperança de que as coisas mudariam. Entreguei um de meus poemas eróticos para ela e a convidei para uma cerveja. Ela aceitou, e eu esbocei um sorriso de verdade.
Na chuva, dividimos a sombrinha dela. Eu odeio ter de desviar das pessoas na rua, odeio as pessoas na rua, mas ela começou a dançar com seu vestido florido e seus cabelos curtos alaranjados, e eu nem sequer pensei sobre o mal que nos habita. Babando em alguns cigarros, pedi um litrão. Ela não bebe. Só está alí porque eu a convidei e ela é uma boa louca. Uma criatura rara que você só encontra uma vez na vida (uma criatura rara e que existe, não essa merda virtual dos dias modernos).
Seus olhos mudavam à medida em que nos abríamos. É bom conversar sobre coisas tristes, sobre nossos pais e nossos medos. Sobre tudo o que odiamos, e o nosso ódio se combina majestosamente. Ó, minha rainha! Poderia ficar a noite inteira só olhando para seus lábios, desejando chupá-los até extrair o melhor de você. Poderia ficar uma vida escorado ao seu lado, vendendo meus poemas e ansiando nossa ansiedade. E suas pernas! Ah, suas pernas! Me dê um pouco delas! Seu vestido florido levanta às vezes, e eu não consigo desviar o olhar. Ela também não fuma e recusa meu cigarro. Estamos mais próximos agora, física e espiritualmente, embora não acreditemos em espírito. Mas há algo além, algo que nos faz olhar dentro de nossos olhos por um minuto, e os olhos delas adquirem um tom de mel, e eu lasco-lhe um beijo sedento. Seus lábios se encaixam perfeitamente aos meus, como um quebra-cabeças de 500 peças.
Nos escondemos num canto da cidade e, por algumas horas, nos amamos. Talvez não seja amor da forma que todos conheçam, mas na realidade ninguém conhece o amor. Só nós dois conhecíamos naquele instante, e somente naquele instante queimamos como todo ser humano deve queimar em sua vida. O fogo é tão grande que incendeia os prédios e os lençóis e o rosto murcho da depressão. Em pouco tempo, sabemos a cor da nossa alma.
Depois da chuva cessar um pouco, nos separamos. Cada um volta para o seu canto, e eu não consigo pensar em mais nada. O nariz dela, a orelha, a boca, o sorriso, os cílios, os joelhos, as mãos pequenas, as mãos dela analisando as minhas e todos os detalhes vividos entre um beijo e outro, entre uma pílula e outra engolidas à seco.
Me sinto dopado. E não só sinto; estou. Tenho pouco tempo de vida. A medicação já não faz mais efeito. Meu coração apodrece à cada segundo, e não há mais um poema para escrever. Bem que me disseram para maneirar, mas isso aconteceria de qualquer jeito mesmo. E ela vem, a doce morte, beijar meus lábios novamente, como os franceses chamam: La petite mort.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
MASTURBE-SE
O que você quer fazer
(e já faz, mas diz que não),
é tão comum quanto ir ao shopping de domingo.
Cortar o cabelo é masturbação.
Vestir roupas novas é masturbação.
Autoestima é masturbação.
Mas tudo isso não faz você ficar
com as pernas bambas.
E nada disso te faz conhecer-se melhor.
Você aí, que não conhece sua própria buceta,
como você quer que um desconhecido, que
mal sabe quem você é realmente,
consiga te chupar direito?
Se nem você se ama, por que outra pessoa
deveria amar?
Tá entendendo como a coisa é profunda?
Não é "coisa de quem não transa".
Tudo bem, você pode se sentir só às vezes.
Mas quem aqui não vai morrer só?
Segure-se, massageie-se, enfie
dois ou três dedos, imagine aquela
sua ex que era boa de cama.
Só pare de proliferar tabus por aí.
Ninguém precisa disso.
SOBRE SER ONLINE
Não me mandem mensagens, a não ser que
você tenha um pouco de você
para me dar.
Ou se quiser me dizer onde você
estará daqui a duas horas.
Conheci pessoas maravilhosas por
estas ruas à noite, e essas mesmas
pessoas maravilhosas se preocupam
demais em:
- adicionar no Facebook;
- número de telefone;
- selfie.
Não! Não! Eu imploro!
Qual foi a última vez que você
conversou realmente com uma pessoa, e
não com uma máquina que responde
10,20,30 contatos ao mesmo tempo?
Sinto saudade do toque, do hálito de
cigarro e cerveja, dos abraços,
de quando alguém ia com a minha cara e
sentava no meu colo.
Não percam sua humanidade e o seu estilo.
Você não possui 100% de bateria e
algumas tomadas.
Se for pra conversar comigo neste
mundo que não existe,
pague-me um litrão no mercado do chinês.
quinta-feira, 28 de julho de 2016
O PALCO
Não existe um roteiro e nem um diretor. É tudo improvisado, no caótico set das calçadas sujas. Você vai conhecer um puto ou outro que até dá um parecer que as coisas mudarão. Mas você sabe qual o papel dele. E você aplaudirá todos os seus erros e vexames, olhando para seu reflexo mórbido no espelho sujo do seu quarto minúsculo.
E o show tem que continuar. Luz, câmera e um trago num cigarro de quinta. Agora tudo está claro; muita merda para todos. Nós não limpamos a frente dos nossos teatros e cinemas. Deixamos que o lixo se acumulasse. E as moscas...
Às vezes esquecemos nosso personagem. Quem devemos ser? O que temos de dizer? Então uma propaganda atrás das cortinas te sussurra: "beba Coca, use Nike, compre Samsung".
Bem, está tudo ok agora.
ESCREVER DE VERDADE
estou feliz.
As coisas boas estão acontecendo e
eu não consigo evitar.
E há uma semana que eu não escrevo.
Quando tento, sai uma
bosta.
Vê, tô até tentando com este daqui,
mas você reparou que falta algo?
Falta sangue.
Falta dor.
Faltam as palavras certas.
A alegria é uma péssima poetiza.
É enfadonha, exagerada, cheia de
falsos lirismos para se engrandecer.
Se você quer escrever, esteja fodido.
Sozinho.
Só assim você escreverá de verdade.
Enquanto você estiver feliz, vá curtir.
Vá lamber a genitália de alguém.
Lá fora as pessoas precisam de
alegria para esquecerem
suas próprias agonias.
Aqui dentro só resta esperar
que essa euforia passe.