quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

COGUMELO DO TÉDIO

tudo fica meio chato
cheio como
um copo
quase vazio

sair é uma opção
sem botar os pés
pra fora do próprio cérebro
rego uma ideia e a podo
as folhas morrem
igual um segundo
minhas janelas são pinturas
sempre a mesma paisagem

eu disse para alguém
que semi-escutou
eu vou mudar
depois de amanhã
e cá estou
já vivendo ontem

o segundo passo é
ainda mais difícil

esse verão tá com cara de Maio
desmaio na vertigem
das sempre-paredes
cimentadas de ansiedade
acordo nublado
na coragem de quem tem medo

e tudo fica meio chato
amor
com gosto
de "foi bom te conhecer"

ficar em casa é uma opção
botando os pés
em meias verdades
custa muito
um pouco
de felicidade
sorriso no crédito

escolho esperar
desabafando com os cogumelos
que nasceram
nos pensamentos
que reguei demais.

ANO NOVO

fiz promessas
mas os vícios
me cumpriram

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

RECOMEÇO NÃO EXISTE

alguém me disse
que não existe
recomeço
somos consequências
o meio da sentença
mais ou menos
temos
meios
finais

ninguém vem do nada
além daquilo que existe

fui acendido 
por um cigarro
e esse alguém
reprise

nem reencarnado
um cara mal amado
se livra da vida
passada

só se muda a direção
parar é ilusão
recomeço não existe

queimei os dedos
molhei o tempo
com o que havia
no copo

voltei pra casa
por um caminho
diferente.

DESPEDIDA DECIDIDA

mesa molhada de lata suada
manchada como
um para sempre

mente ofegante
derretendo nos mesmos
verões
sem a gente
num caminho diferente
cada passo
a sola
sente

cinzeiro lotado de nada
são cinzas de cada dia
lixo engole filtros
sem nenhum batom

coração batendo vício
equalizando as mesmas
canções
sem a gente

num caminho diferente
cada adeus
um passo
à frente

despedida decidida
arbítrio do que
já estava escrito
pelo acaso

DESMARQUE

meu peito espera
batendo o pé
nas minhas costelas

quantas eras tem
nessas horas?
minhas veias querem
que o futuro
seja agora
de alguma forma
(de qualquer forma)

pra essa noite chegar
existe um dia infinito
no meu caminho
um sol teimoso
e narcisista
não deixa a lua falar
suas poesias

e quando tudo se alinha
os ponteiros em posição
de começo
vem aquele desmarque

a ração favorita dos fantasmas
são as expectativas
dilaceradas

pego um balde fresco de ração
do meu cérebro
e jogo nas calçadas
da minha casa

meu peito dorme
confortável
coberto de nada.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ENAMORADOS

amo a companhia de mim mesmo
clareza vinda
do subsolo emocional

amo a chuva e o sol
resto de nuvem fria
na pele seca quente

amo chorar de alegria
nem sempre lágrima
tem peso
mas gosto quando vem
agridoce

amo sentir sua falta
e te beber na sede
me desidratar no
nosso desejo

amo a vida das folhas mortas
e todo espaço que existe
entre os galhos e o chão

e sim
eu tenho a mim
como a possibilidade
de todas as coisas
porque ser apenas um
dentre tudo o que sou
faz meus olhos rolarem
para dentro.