terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TALVEZ EU FUME (UM MAÇO VAZIO)

cada fumaça
tem a cor
de um desperdício

talvez eu fume
porque é bonito
um cigarro nos dedos
disfarçando desesperos
invisiveis no meu sorriso

talvez eu fume
só pela espera
de uma hora
em que o tempo
não me pese

talvez eu fume
(e o maço se esvazia)
só pra tragar
novas ideias
de velhos hábitos
da minha mesma única vida

talvez eu fume
pra chamar quem fuma
e num isqueiro só
a gente se entende
pelas bitucas

talvez eu
(o último cigarro)
só queira me apagar
num cinzeiro 
cheio
de não sei o quê

cada fumaça
um pouco de mim
manchando as paredes

talvez eu fume
(um maço vazio)

ENTÃO VOCÊ QUER SER ARTISTA?

o que você achou
que iria acontecer?
aplausos?
medalhas?
você só respirou
com o pulmão da alma
e usou seus átomos
pra descrever
algo que todo mundo vive

você parou por um momento
e nessa pausa
percebeu
a beleza de uma nuvem
se desfazendo em chuva

e daí?

você quer ser artista?

então sangre suas teias
e espere o pouso do acaso

arte é construída
por cima
daquilo que não é belo

artistas não só vivem
como morrem
talvez por um verso
um gesto
uma pincelada

o nada
é a única certeza
veja
quantas canções
você nem conhece

e ainda assim
você quer ser artista?

se em cada gota
daquilo que você cria
não habita
um último grito
de quem grita
seu fim do mundo
então faça outra coisa

arte é um meio
pra quem não tem medo
do fim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EXAGERO (OU POUCA COISA)

daqui até a eternidade
existe um momento
que eu quero contigo

é que meu coração
tá precisando
de uma batida

se hoje for exagero
amanhã meu futuro
fica só no soro

um repouso
costurado
de boas histórias
é o melhor dos descansos
quero deitar minha cabeça
numa memória king size

se a gente perder o agora
que hora tosca
será nossa
se quase todo nosso relógio
já tem outros donos?

daqui até a eternidade
um dia
um pôr do sol
e um sorriso
dessa sua boca
pra mim 
já tá de boa